Por: Paulo Ricardo Zargolin
Há algo de profundamente alarmante na forma como a crise do Pix e as respostas do governo Lula vêm se desdobrando. A tentativa de atribuir o problema a “falhas de comunicação” é, no mínimo, reducionista. Não é a comunicação que falha quando as ações de um governo carecem de coerência e verdade. É o compromisso com a transparência que se dissolve, é a noção de accountability que se esvai.
No texto de Rodolfo Borges, publicado em O Antagonista, emerge um panorama de desconfiança e de descrédito, apontando para a raiz do problema: não a ferramenta em si, mas a comunicação opaca que a cerca. Ao trazer à luz o debate, Madeleine Lacsko não só denuncia as inconsistências como evidencia a lacuna entre governantes e governados. Aqui, encontramos um eco direto das reflexões de Adam Przeworski em Democracia e Mercado, especialmente no que tange à fragilidade das instituições democráticas quando estas falham em promover transparência e confiança.
Przeworski nos lembra que a democracia é um sistema que exige adesão não apenas às regras do jogo, mas também aos seus resultados. Contudo, tal adesão só é possível quando as instituições se mostram capazes de atender às expectativas de justiça e eficácia. O problema do governo Lula, ao lidar com a crise do Pix, não é apenas técnico ou estratégico, mas moral e institucional. Quando se negligencia a necessidade de clareza no diálogo com a população, instala-se um vazio cognitivo, um território fértil para o avanço da desinformação e para o descrédito. A questão central é a confiança, um pilar que se constrói na coerência entre discurso e prática, e não na retórica vazia ou em tentativas teatrais de desviar o foco.
O governo Lula enfrenta, aqui, um dilema clássico. A democracia não pode prosperar sem que as instituições políticas e econômicas sejam vistas como legítimas pelos cidadãos. Mas tal legitimidade não se compra com slogans; conquista-se com atos que traduzam, de forma tangível, os valores que se pregam. Ao permitir que a comunicação se torne um artifício de controle ao invés de um instrumento de diálogo, o governo compromete não apenas sua agenda, mas também a própria percepção pública de que a democracia pode oferecer respostas concretas.
No caso do Pix, estamos lidando com um sistema que, em tese, deveria representar o avanço tecnológico e a inclusão financeira. Porém, a ausência de clareza e a demora em confrontar as narrativas falsas com dados concretos e acessíveis acabaram por transformar uma solução em um problema. Em vez de ser um símbolo de modernidade, o Pix tornou-se o centro de uma tempestade de dúvidas e incertezas.
A política, como nos ensina a história, é o exercício da persuasão antes de ser o da coerção. Governos que se fecham em discursos auto-justificatórios e que não se comprometem em esclarecer suas ações, caem no erro fatal de tratar seus cidadãos como sujeitos passivos, ao invés de parceiros ativos na construção da ordem social.
O legado dessa crise é, talvez, mais pedagógico do que se imagina. Ele reforça que a verdadeira comunicação vai além de campanhas publicitárias ou pronunciamentos oficiais: ela exige verdade, acessibilidade e diálogo. O governo Lula precisa compreender que governar não é apenas gerenciar crises, mas prevenir sua ocorrência por meio da construção de confiança. Como Przeworski indicou, a democracia só é sustentável quando se baseia na certeza de que as instituições operam com justiça, e não no temor de que elas falhem em sustentar as promessas feitas ao povo.
Que esta crise sirva como um chamado à razão, uma lembrança de que a confiança não se compra com palavras bonitas, mas com ações transparentes e condizentes com a verdade.

