Por: Paulo Ricardo Zargolin
No topo da árvore das decisões, o vento traz rumores diversos. Uns sussurram acordos inéditos, outros proclamam cessar-fogos que nunca se concretizam. Lá embaixo, passos apressados e palavras doces se entrelaçam, ressuscitando velhas histórias em novos disfarces. Não é novidade, mas o eco de um enredo antigo: o da Raposa que anuncia paz enquanto trama sua caça.
De cima, o olhar atento percebe o que escapa ao entusiasmo. A prudência — aprendida nas entrelinhas do tempo — ensina que promessas eloquentes podem esconder intenções silenciosas. Quando a harmonia é alardeada em tons altos, cabe questionar: até onde vai a verdade?
As proclamações generosas ressoam como melodias ao longe. O palco está montado, os discursos estão prontos, e os aplausos são ensaiados. No entanto, nos bastidores, as sombras sussurram outro roteiro, invisível à plateia. Há quem acredite no cenário pintado; outros, porém, sabem que as cortinas sempre escondem algo mais.
Quando os cães aparecem no horizonte — mesmo que imaginários — é nítido o quanto o medo ainda subjuga as palavras. Aqueles que alardeiam coragem não se demoram para fugir ao menor sinal de perigo. E fica a pergunta: as promessas de paz servem à concórdia ou ao engano?
Lá em cima, o galo não apenas canta, mas observa. Ele sabe que o brilho das palavras deve ser testado antes de se arriscar a descer. E talvez seja esse o segredo: o discernimento que separa a verdade da ilusão.
Assim como a fábula que atravessou os séculos, a vida nos ensina a navegar entre discursos sedutores e intenções ocultas. A verdadeira sabedoria não está em negar o convite, mas em testá-lo antes de aceitá-lo. Porque, no fim, o vento pode trazer tanto canções quanto armadilhas, e a visão atenta é o que nos impede de cair.
O mundo seguirá seu ciclo entre as expectativas e os desenganos, entre o jogo e o fim. Mas quem guarda na memória as lições do passado sabe que, mesmo na altura mais solitária, é preferível confiar no instinto do que sucumbir ao conforto das palavras.

