Por: Paulo Ricardo Zargolin
Vivemos o apogeu da holofotação. Ninguém quer caminhar: quer aparecer, de preferência brilhando, mesmo que só consiga reproduzir o reflexo de uma tela apagada. O negócio agora é alcançar a luz — qualquer luz — nem que seja a do incêndio no galpão de senso crítico.
Nessa cultura do brilho, o conteúdo perdeu o protagonismo. Vale o tamanho do feixe, não a direção. Políticos treinam discursos mirando a câmera do celular, artistas ensaiam dancinhas e lançam single e merchan no mesmo post, influencers passam o dia recortando os instantes perfeitos enquanto o país arde ao fundo.
O Brasil virou palco, e ninguém quer arriscar ser espectador — o importante é participar do espetáculo, nem que seja para fazer figuração ou garantir um meme viralizado na primeira cena. Se morrer em 4K, melhor ainda: o engajamento aumenta.
A plateia, hipnotizada pela overdose de holofotes, aceita qualquer show. Vale dancinha constrangedora, textão de indignação industrializada ou polêmica reciclada do mês passado, sobretudo, se tiverem ares de fakenews. Quem não domina o jogo da luz é considerado ultrapassado, ou — pior ainda — invisível. Nada assusta mais do que cair na sombra. Por aqui, apagão social virou pânico coletivo: perder o feixe do momento é equivalente a desaparecer do mapa.
E autonomia? Não me venha com esse papo. Isso exige esforço, obriga a pensar e dói nos olhos encarar a penumbra do próprio pensamento. Quem se atreve a não buscar o sol da aprovação pública logo é taxado de esquisito ou arrogante. É mais confortável colecionar likes do que perguntas incômodas. Melhor se bronzear na luz alheia do que arriscar o frio da dúvida particular.
Mas há quem, teimosamente, busque sentido para além das luzes. Hermes Trismegisto já alertava: há diferença gritante entre existir sob os holofotes e estar desperto de verdade. O despertar, para os herméticos, não tem nada de espetacular; é silêncio, é contemplação, é coragem de atravessar as zonas de sombra para enxergar o que escapa ao olhar comum. É transmutar aparência em essência, fazer do olhar um instrumento de transformação — não apenas um receptor de brilho. Enquanto uns colecionam seguidores, outros — raros — colecionam perguntas.
Para quem se limita à holofotação, a vida vira sequência de reprises: sobrevive-se entre aplausos e naufrágios midiáticos, sempre de olho no próximo feixe, na próxima pose, na próxima publi com desconto para quem usar o cupom VERME. O sentido escorre, imperceptível, junto com o filtro que suaviza a existência, até o dia em que nem a própria selfie reconhece mais quem aparece nela.
Talvez, um dia, redescubramos o valor da sombra — abrigo de quem cansou de ser visto, laboratório secreto de quem ainda insiste em pensar. Até lá, seguimos desfilando sob as luzes: sem direção, sem descanso, mas jamais sem audiência.

