Por: Paulo Ricardo Zargolin
Há uma fome que não se resolve com alimento. Instala-se discreta, habitando cantos fundos do ser, quase sempre ignorada em meio a rotinas e aparências. Poucos ousam nomeá-la, mas ela persiste, corroendo por dentro, enquanto a vida transcorre entre gestos automáticos e conversas vazias.
Desde cedo, muitos aprendem a deglutir silêncios, a aceitar pequenas mentiras para manter a harmonia dos encontros. Torna-se hábito: nos ambientes profissionais, circulam teorias repetidas, receitas prontas que desprezam a precariedade das estruturas, a dureza da realidade nas escolas e nos lares. Segue-se o protocolo, pois é mais confortável repetir o fácil do que digerir o que realmente pesa.
No convívio familiar, servem-se memórias e afetos intocados — sentimentos guardados sob camadas espessas de convenção, histórias nunca partilhadas à mesa. Poucos admitem a presença desse cardápio estranho: convivem, trocam olhares, cada qual guardando para si o sabor áspero do que nunca foi dito.
Entre grupos diversos, adapta-se o discurso, ajusta-se o tom, modela-se o gesto. Surge, então, uma dieta de identidades mutantes: tantos rostos, tantos papéis, que resta difícil reconhecer o próprio contorno. Todos asseguram estar plenos, mas carregam, no íntimo, a fadiga de quem busca saciedade em alimento frio.
Muitos desejam reencontrar um tempo em que a leveza era possível — não só na forma, mas no modo de existir; quando a fome dizia respeito apenas ao corpo, e não à necessidade de reconhecimento ou aceitação. Talvez a verdadeira nutrição consista em oferecer a si mesmo, e ao outro, fatias autênticas do que se sente, mesmo correndo o risco de causar desconforto.
Segue-se, assim: entre refeições apressadas e menus de conveniência, persiste o anseio de, um dia, experimentar o sabor genuíno da própria existência.

