Cronofagia: quando o tempo perde a lógica

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Era uma vez um espelho negro, através do qual um cientista amador resolveu investigar o tempo. Ele não usava jaleco, nem possuía laboratórios, tampouco se valia de gráficos com precisão estatística. Seu instrumento era o corpo — esse relógio vivo — e a mente inquieta, com sede de perguntas que nenhum manual respondia. Chamavam-no de amador, mas havia algo de ancestral em sua busca: não queria entender o tempo. Queria senti-lo sangrar.

Sentou-se diante do espelho e esperou. Por dias, talvez semanas — ou foram minutos? —, ficou imóvel, observando os próprios olhos refletidos naquele abismo vitrificado. Até que algo se moveu. Não no espelho. Nele. Um pensamento brotou como uma linha torta no espaço da razão: “E se o tempo não passar… e sim comer?”

A ideia parecia absurda. Mas quanto mais a repetia em silêncio, mais tudo fazia sentido. As lembranças não voltavam: elas ruminavam. O presente não fluía: ele triturava. O futuro não prometia: ele salivava. E assim, ele redescobriu uma palavra já usada em outros campos, mas agora carregada de um novo sentido: Cronofagia.

Se antes o termo servia para descrever como o tempo do trabalhador era consumido pelo capital — como denunciou Marx — ou como a sociedade contemporânea devora o ócio e a presença com a pressa de mil tarefas, agora ganhava outra direção: não mais ser devorado pelo tempo, mas devorar o tempo com a consciência. Fome de instante, de sentido, de presença.

A cronofagia (re)descoberta por ele não era um sintoma, mas sim uma estrutura poética e perceptiva do tempo vivido. Não era sobre sucumbir à lógica da aceleração, mas sobre saborear cada colapso da realidade com presença radical. Uma mente que, em estado expandido de atenção e sensibilidade, mastiga as possibilidades do real e transforma o instante em densidade. O tempo deixa de ser linha ou prisão, e se revela como alimento da consciência ativa. É, portanto, uma cronofagia criadora, estética, subjetiva e radicalmente íntima.

O cientista-poeta criou então uma fórmula, simples como um gesto de afeto:

Traduzindo-a, tempo vivido depende do quanto de mundo colapsamos e do quanto nossa mente é capaz de digerir. Era uma equação de amor, de lucidez e de cansaço. Uma tentativa de medir o que os relógios não contam: a dor de um adeus, a eternidade de um toque, o gosto agridoce de uma lembrança que volta quando menos se espera.

Aos poucos, percebeu que não estava mais sozinho. Outros se aproximaram do espelho. Outros também estavam com fome. Não de horas — mas de tempo sentido. E o cientista amador, agora cronofagista dos sentidos, fez o que todo pensador genuíno faz quando descobre algo profundo: deixou que outros comessem primeiro.

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Uma resposta para “Cronofagia: quando o tempo perde a lógica”

  1. […] suas frases, inverti sentidos, furei superfícies. Inventei conceitos:  Cronofagia; flor lógica; Escrita simbiogênica. E, de repente, percebi: não escrevia necessariamente […]

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