Por: Paulo Ricardo Zargolin
Quando falo, sou gente do povo: corto uns “s” de propósito, estrangulo umas concordâncias só pra ver se a frase dá risada. Gosto de ditado popular, dessas coisas que a avó dizia entre um café coado e uma mágoa antiga. Minha boca nasceu para o riso, para o improviso e para a ironia com cheiro de feira-livre. E, no entanto, quando escrevo…
Ah, quando escrevo! Viro outra coisa. Transgrido até a mim. Uso palavras que não sairiam nunca da minha fala. Invento pontuações como quem recria o tempo. Vou rebuscando o simples até que ele me confesse alguma verdade que nem eu sabia que carregava. E nisso — é verdade — vou me afastando. Do povo, da fluência, da venda fácil.
Talvez não escreva para agora. Talvez nem escreva para alguém. Escrevo assim porque não sei simplificar sem perder alma. Porque, para mim, o pensamento precisa respirar em frases que não se dobram à pressa de quem só quer deslizar o dedo pela tela.
E aí me pergunto: isso é bom? É ruim? Comercial eu sei que não é. Mas tem coisa que nasce do peito e não se vende — se escreve.
E se um dia alguém se encontrar no labirinto das minhas frases, tomara que me entenda: não é vaidade de estilo. É só o jeito que encontrei de traduzir o caos com alguma dignidade.

