Por: Paulo Ricardo Zargolin
Em meados de 2004, borrifei por um frasco de desodorante uma dose absurda de confiança no meu espanhol recém-adquirido. Atrás da embalagem, um 0800 internacional convidava os consumidores a darem sua opinião. Eu, estudante aplicado, achei que aquilo era um bilhete premiado para testar minha fluência. Um intercâmbio linguístico via aerosol.
Liguei. Tocou. Atenderam.
— ¡Buenos días, Unilever Nicarágua! — disse uma moça simpática, pronta para ouvir absurdos em portunhol latino-americano.
E eu fui, não sem antes confessar que do outro lado da linha, era um brasileño a charlar. Falei do cheiro, da fixação, da sensação de limpeza moral que um desodorante barato pode provocar. Desfiz-me em palavras, acreditando estar participando de algo grande, como se a Unilever fosse uma espécie de ONU perfumada.
Na aula seguinte, todo orgulhoso, contei à professora o feito. Ela arqueou a sobrancelha:
— Você conseguiu falar com alguém na Nicarágua? Entonces, cariño… grátis é que não foi.
Eu congelei.
Cheguei em casa encenando uma novela mexicana, “Los pobres también llaman”, com lágrimas de sabão e gritos de arrependimento precoce, ¡por supuesto! A conta ainda não havia chegado, mas eu já pedia perdão por ter, talvez, arruinado o futuro financeiro da família.
Dias depois, a fatura da Telefônica chegou. Abrimos o envelope, minha mãe e eu, como se ali estivesse anexa uma aula de espanhol com sotaque centro-americano, sem certificado.
Meus pais? Reagiram com mais serenidade do que eu merecia. Nem me espancaram, nem me exilaram. Apenas constataram que não se pode criar filhos curiosos e esperar faturas leves.
Hoje penso que talvez tenha sido ali que nasceu minha paixão pela comunicação. Pela fala, pelo som atravessando continentes. A Torre de Babel não caiu — ela só cobrou seu preço. É feita de moedas, de impulsos, de tarifas internacionais, de palavras trocadas entre desconhecidos. E, às vezes, tudo o que queremos é ser entendidos, mesmo que por cinco minutos e trezentos reais.

