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Por: Paulo Ricardo Zargolin
Consultoria: Dayana de Fátima Sanches (Psicóloga)
O DSM — Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais — é um livro espesso. Espesso de páginas, de classificações, de pesos históricos. Nele, experiências humanas são organizadas, rotuladas, convertidas em critérios. Cada comportamento fora do esperado encontra um lugar, uma descrição, uma sigla. É o mapeamento da dor sob a lógica da ciência.
Nas últimas décadas, assistiu-se à ascensão do hiperdiagnóstico. Sentimentos transitórios ganham status de transtorno. Reações compreensíveis à dureza do mundo tornam-se patologias. E, com a popularização desses termos nas redes sociais, surgem comunidades inteiras fundadas em torno de sintomas. A doença, antes silenciada, agora é exibida — não mais como desabafo, mas como emblema identitário.
É inegável: construiu-se uma ponte. Foi preciso concretar saberes, firmar estruturas, estudar os abismos. Diagnosticar salvou vidas, legitimou sofrimentos, combateu estigmas. A travessia em direção à escuta, ao cuidado e à aceitação foi um avanço civilizatório. Mas há o risco de confundir o pilar com a morada. A ponte existe para ser atravessada, não para que se acampe sobre ela.
A romantização do sofrimento psicológico, em nome de um suposto empoderamento, revela um paradoxo contemporâneo: celebra-se a doença enquanto se posterga o movimento. Há quem se agarre ao diagnóstico como quem finca bandeira, fazendo da dor um território de permanência. Nessa lógica, a superação perde espaço para a curadoria do sintoma.
É necessário reconhecer: nem todo mal-estar é disfunção, nem toda inadequação é distúrbio. Em um mundo que exige produtividade, controle e coerência, é compreensível o desejo de nomear o caos. Mas a travessia não se dá apenas pelo discurso técnico. Ela exige também cinismo, sarcasmo, afeto, sonhos e sensações — aquilo que escapa aos manuais, mas move o humano.
A ponte está posta. Foi fruto de avanços teóricos, sociais e políticos. No entanto, contemplá-la indefinidamente, sem atravessar os rios que ela cruza, é abdicar do próprio destino. Entre o diagnóstico e a vida, há uma travessia que não se mede por escalas de avaliação, mas por coragem e movimento.
El puente
Por Paulo Ricardo Zargolin – Traducción al español
Consultoría: Dayana de Fátima Sanches (Psicóloga)
El DSM — Manual diagnóstico y estadístico de los trastornos mentales — es un libro denso. Denso en páginas, en clasificaciones, en cargas históricas. En él, las experiencias humanas son organizadas, etiquetadas, convertidas en criterios. Cada comportamiento fuera de lo esperado encuentra un lugar, una descripción, una sigla. Es el mapeo del dolor bajo la lógica de la ciencia.
En las últimas décadas, hemos asistido al auge del hiperdiagnóstico. Sentimientos transitorios adquieren estatus de trastorno. Reacciones comprensibles ante la dureza del mundo se vuelven patologías. Y con la popularización de estos términos en las redes sociales, surgen comunidades enteras fundadas en torno a los síntomas. La enfermedad, antes silenciada, ahora se exhibe — ya no como desahogo, sino como emblema identitario.
Es innegable: se construyó un puente. Fue necesario consolidar saberes, afirmar estructuras, estudiar los abismos. Diagnosticar salvó vidas, legitimó sufrimientos, combatió estigmas. El tránsito hacia la escucha, el cuidado y la aceptación fue un avance civilizatorio. Pero existe el riesgo de confundir el pilar con el hogar. El puente existe para ser cruzado, no para acampar sobre él.
La romantización del sufrimiento psicológico, en nombre de un supuesto empoderamiento, revela una paradoja contemporánea: se celebra la enfermedad mientras se posterga el movimiento. Hay quienes se aferran al diagnóstico como quien clava una bandera, haciendo del dolor un territorio de permanencia. En esta lógica, la superación pierde espacio frente a la curaduría del síntoma.
Es necesario reconocerlo: no todo malestar es disfunción, ni toda inadecuación es trastorno. En un mundo que exige productividad, control y coherencia, es comprensible el deseo de nombrar el caos. Pero la travesía no se da solo a través del discurso técnico. También exige cinismo, sarcasmo, afecto, sueños y sensaciones — aquello que escapa a los manuales, pero mueve lo humano.
El puente está ahí. Es fruto de avances teóricos, sociales y políticos. Sin embargo, contemplarlo indefinidamente, sin cruzar los ríos que conecta, es abdicar del propio destino. Entre el diagnóstico y la vida, hay una travesía que no se mide por escalas de evaluación, sino por coraje y movimiento.
The Bridge
By Paulo Ricardo Zargolin – Translated into English
Consultancy: Dayana de Fátima Sanches (Psychologist)
The DSM — Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders — is a thick book. Thick with pages, classifications, and historical weight. Within it, human experiences are organized, labeled, converted into criteria. Every behavior that strays from expectation finds a place, a description, an acronym. It is the mapping of pain under the logic of science.
In recent decades, we’ve witnessed the rise of overdiagnosis. Transient feelings are granted the status of disorder. Understandable reactions to the harshness of life become pathologies. And with these terms gaining popularity on social media, entire communities emerge around symptoms. Illness, once silenced, is now displayed — no longer as a form of venting, but as an identity emblem.
It is undeniable: a bridge has been built. It was necessary to solidify knowledge, anchor structures, and study the depths. Diagnosing has saved lives, validated suffering, and fought stigma. The crossing toward listening, care, and acceptance was a civilizing achievement. But there is a risk of mistaking the pillar for the dwelling. A bridge is meant to be crossed, not to be camped upon.
The romanticization of psychological suffering, in the name of supposed empowerment, reveals a contemporary paradox: illness is celebrated while movement is postponed. Some cling to the diagnosis like one plants a flag, turning pain into a place of permanence. In this logic, overcoming gives way to the curation of the symptom.
We must recognize: not all discomfort is dysfunction, nor is every sense of inadequacy a disorder. In a world that demands productivity, control, and coherence, the urge to name chaos is understandable. But the crossing cannot be made through technical discourse alone. It also requires cynicism, sarcasm, affection, dreams, and sensations — that which escapes the manuals but moves the human being.
The bridge stands. It is the result of theoretical, social, and political progress. However, to gaze at it endlessly without crossing the rivers it spans is to renounce one’s own destiny. Between diagnosis and life, there is a crossing that cannot be measured by assessment scales, but by courage and movement.

