Por: Paulo Ricardo Zargolin
Há quem diga que o Brasil não é para amadores. Eu discordo. O Brasil é para gulosos sofisticados com cartão black, paladar infantil e senso crítico adormecido sob uma calda vermelha. Enquanto a inflação pinga devagarinho no prato do trabalhador, a elite do entretenimento digital lambe colher de ouro, encantada com o novo milagre nacional: o morango do amor, versão Fabergé.
Dois mil e trezentos reais por nove frutas. Sim, morangos. Aqueles mesmos que repousam na bandejinha de isopor ao lado da alface murcha, no mercado da esquina. Mas aqui, eles vêm escoltados por brigadeiro branco e um verniz de caramelo tingido — como se a maquiagem pudesse reinventar a alma do fruto. O preço não é pelo sabor. É pelo delírio.
Num país que debate o valor da picanha como se fosse referendo nacional, que exporta toneladas de soja enquanto discute se o leite Ninho deve ou não ir à geladeira, essa sobremesa se ergue como o novo símbolo do agronegócio gourmet: um tapa doce na cara do bom senso.
Não há técnica revolucionária. Não há ingrediente raro. O segredo, ao que tudo indica, é o mesmo de sempre: embalar o ordinário em discurso de exceção, lambuzar com storytelling açucarado.
O Brasil que planta o morango barato e o despacha mundo afora agora o recebe de volta, mascarado de joia. Paga caro. Posta sorrindo. Chama de conquista. Mas talvez seja só o retrato de um país que carameliza a carência, enquanto o coração parcela esperança e o estômago improvisa com o que sobrou na panela.
Os bombons esgotam. A lista de espera cresce. O algoritmo aplaude. Afinal, por aqui, o amor é de morango — e a realidade, de calda queimada.

