O caso do desaparecimento das ideias originais e dos vaga-lumes

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Foi numa noite que ainda não sabia ser noite, dessas que fingem tarde só pra não assustar os distraídos, que percebi: havia algo de ausente no ar. Não me refiro ao cheiro do café ou ao canto das cigarras — essas ainda resistem. Refiro-me àquilo que não se vê, mas cintila. Aquilo que, outrora, tremeluzia no quintal da infância como se a esperança tivesse pernas finas, antenas tímidas e o dom de acender o escuro com o próprio corpo: os vaga-lumes.

Eles sumiram.

Não digo isso apenas com os olhos, digo com o peito. E, se você não me entende, talvez já esteja contaminado pela doença que os levou. A mesma que vem apagando, aos poucos, os livros que ainda ousavam carregar essa luz. Não por acaso, era numa coleção de nome cintilante — Vaga-Lume — que li, pela primeira vez, o caso da borboleta Atíria.

Sim, ela mesma.

Atíria, que nasceu com uma asa torta e, mesmo assim, ousou viver um voo próprio. Atíria não brilha como um vaga-lume, mas carrega nas asas o mesmo princípio: a delicadeza insurgente. Ela não foi colecionável — por pouco. Escapou do formol do mundo com o auxílio de um marimbondo e de um bicho-pau filosófico. Fugiu da morte e, com uma mentira bem contada, salvou uma lavoura inteira de milho. Que criatura inventiva.

E foi então que compreendi: talvez as ideias originais sejam os vaga-lumes das palavras. Talvez os pensamentos criativos também estejam ameaçados pela luminosidade constante da opinião alheia, pelos pesticidas do conteúdo enlatado e pela monocultura das fórmulas virais. O algoritmo, meu caro, é o novo agrotóxico. E o plágio, a nova rede de captura.

Hoje, quando alguém diz que vai “caçar um milhão de vaga-lumes por aí”, como naquela canção romântica, penso: quantos deles ainda restam? E quantos são apenas luzes falsas? Quantas ideias brilhantes ainda são geradas na escuridão fecunda do pensamento autêntico — e quantas são apenas reflexos repetidos, luciérnagas de mentira, replicando trechos sem corpo nem alma?

Vaga-lume bom é o que inventa luz. E ideia boa também.

Não sei dizer se foi a saudade ou a lucidez que me visitou primeiro. Só sei que, ao abrir a janela esta noite, não vi nenhum rastro cintilante. Mas vi um menino — talvez um poeta — correndo pelo quintal com um frasco vazio nas mãos e um brilho no olhar que não se apagava. Ele não sabia que os vaga-lumes estavam sumindo. Tampouco que as boas ideias precisam de silêncio e breu pra nascer. Talvez por isso ainda os buscasse. E talvez por isso ainda houvesse esperança.

Porque enquanto houver quem procure, ainda há o que encontrar.

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