A lenda do rubi de um certo ourives

Por: Paulo Ricardo Zargolin



Dizem que, em um vilarejo que o mapa esqueceu de desenhar, viveu um ourives. Suas mãos transformavam pedras em joias, mas seu espírito se detinha em outra lapidação: a das palavras. Durante o dia, moldava alianças e correntes com paciência quase sagrada; à noite, retirava da gaveta um caderno gasto e o polia com memórias, até que cada linha se tornasse tão preciosa quanto o fio de metal que descansava em sua oficina.

Poucos sabiam, mas ele se encantava em saraus. Entre copos, vozes e risos, descobriu que a verdadeira riqueza não estava nas vitrines, mas na boca dos que ousavam transformar a vida em canto. Era ali que percebia que a poesia não nasce do extraordinário, mas do trivial que insiste em brilhar quando é nomeado.

Numa terça-feira de aparência banal, descobriu que sua própria lida guardava um segredo: talhar joias e escrever versos eram gestos irmãos. O minério e a metáfora obedeciam à mesma lei — só revelam sua beleza quando alguém lhes dedica tempo. Desde então, decidiu registrar o cotidiano como se cada lembrança fosse gema rara: o pão quente da padaria se tornou metáfora; o silêncio de uma janela fechada, profecia; e a nuvem pesada do entardecer, joia disfarçada de tempestade.

Assim nasceram registros preciosos, mas um dia eles se perderam junto com um rubi vermelho que ele guardava em baú de madeira. Nunca mais foram vistos. O rubi virou lenda e as palavras se dispersaram como folhas arrancadas pelo vento. Muitos procuraram, mas nenhum caçador de tesouros conseguiu encontrá-los.

Alguns acreditam que o rubi repousa no fundo de um rio; outros dizem que se esconde em cavernas; há quem jure que o ourives levou tudo consigo ao atravessar a fronteira da morte. Mas os mais atentos sabem a verdade: nada foi perdido. O rubi e os escritos vivem dentro de cada um que se arrisca a olhar o mundo com olhos de poeta e mãos de artesão.

Quem consegue transformar o ruído da chuva em música, o silêncio em lembrança, a rotina em símbolo — esse reencontra a joia. E descobre que o ourives nunca buscava fama, nem fortuna: apenas deixar um recado invisível, talhado no tempo.

O recado era simples, mas definitivo: o maior tesouro não cabe em cofres. Ele nasce da coragem de extrair raridade do comum, beleza da rotina ou o encantamento de cada amanhecer.

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