Sob a mesma chama

Por: Paulo Ricardo Zargolin


Trabalhar em grupo é como vigiar uma fogueira no centro da noite. A primeira centelha nasce pequena, tremeluzindo na escuridão. Precisa de gestos atentos: o galho seco, a chama protegida do vento, o ar que não invade, mas convida. É nesse início frágil que se decide se haverá calor ou apenas fumaça.

Quando os gestos se entendem, a fogueira cresce. A luz se derrama, o calor se reparte, o círculo em volta se fortalece. O fogo deixa de ser de alguém e se torna de todos, memória coletiva inscrita no clarão. Ali, cada rosto se reconhece iluminado pelo mesmo lume, e isso basta para que a noite pareça menos áspera.

O risco não está no vento, mas no desencontro. Há quem queira alimentar demais e acaba sufocando. Há quem veja cinzas e, na ânsia de limpar, apague o que ainda ardia. O problema não é a fragilidade do fogo, mas a pressa das mãos que não se escutam.

Uma fogueira só se sustenta quando há pacto silencioso. Alguém cuida da chama, outro recolhe gravetos, outro vigia a direção da fumaça para que não cegue os vizinhos. É nessa discreta divisão de papéis — quase liturgia — que o fogo se mantém, firme, como se respirasse junto com quem o cerca.

E é aí que repousa o aprendizado: no trabalho, não basta desejar o brilho. É preciso desejar a mesma fogueira. Caso contrário, cada um acende seu lume particular — bonito, intenso, mas breve. O que poderia atravessar a noite em claridade se desfaz em faíscas solitárias, que mal iluminam antes de morrer no escuro.

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