Paulo Ricardo Zargolin
A casa ainda cheirava a tinta fresca.
As paredes brancas, recém-pintadas, pareciam ansiar por retratos que não vinham.
Nem quadros, nem risos. Apenas o eco dos passos dela — e, vez ou outra, os do marido.
Casada havia um ano, Evelin seguira o coração até Campinas.
O marido, engenheiro de voos altos, parecia cada vez mais aéreo.
Na prática, ela vivia só.
Sozinha nos dias, nas noites, nas compras, nas ideias.
Na solidão dos azulejos e na frieza do sofá novo, o amor que a fizera largar tudo murchava sem alarde.
Era professora de Língua Portuguesa.
Tinha dom para as palavras, mas andava muda.
A escola estadual onde agora lecionava era impessoal. Os colegas, simpáticos, mas apressados.
Faltava o café da tarde da mãe. O cheiro de bolo da avó. Os abraços dos tios.
E faltava ela mesma.
Num sábado, ao limpar a estante que insistia em arrumar, mas nunca terminava, Evelin deparou-se com uma lombada familiar.
James Joyce – Dublinenses.
Era uma edição simples, dos tempos em que cursava Letras na Unesp.
Ao tocá-la, um calor morno lhe subiu pela pele.
Sorriu de leve.
Sentou-se no chão. Abriu o livro.
Lá estava Eveline.
A personagem que, anos antes, lhe causara incômodo e ternura.
A jovem irlandesa que limpava a casa e pensava em fugir.
Que quis partir com um marinheiro, mas não conseguiu.
Que ficou, embora desejasse ir.
Evelin releu cada linha com a precisão de quem limpa um espelho embaçado.
Não chorou.
Mas soube, com uma clareza insuportável:
ela estava ficando. Como Eveline. Mas não era obrigada a repetir-lhe o fim.
A epifania não foi grandiosa.
Foi serena.
Como quem percebe que está numa sala escura, embora a porta tenha permanecido entreaberta o tempo todo.
Levantou-se.
Pegou uma mochila.
Não precisava de muito — apenas do que coubesse nas costas e nos planos.
Escreveu um bilhete simples e o colou na porta da geladeira:
“Não sou Eveline.
A casa é sua. A vida, agora, é minha.”
Chamou um carro.
Desceu com passos leves.
Campinas ainda dormia, enquanto o sol desenhava sombras tímidas no asfalto.
Na rodoviária, tomou um café preto.
Sem açúcar.
Na mochila, o Joyce amarelado. No peito, uma saudade boa do que viria.
Assim que pôde, embarcou para Jales.
Para casa.
Para si.

