Por: Paulo Ricardo Zargolin
Dizem que, em um reino funcional — desses que tratam esforço como virtude estética — vivia uma mulher absolutamente comprometida com a imobilidade.
Não por incapacidade.
Por escolha.
Observava o mundo com atenção suficiente para perceber que a maioria corria sem motivo claro, suava por objetivos vagos e celebrava o cansaço como se fosse caráter.
Achou tudo isso, no mínimo, suspeito.
Optou pela lucidez.
Sentava-se quando possível.
Deitava-se quando necessário.
E evitava, com rigor quase ético, qualquer atividade que pudesse ser confundida com entusiasmo físico.
O reino, naturalmente, reagia.
Cartazes.
Discursos.
Gente feliz demais vestindo roupas elásticas demais.
A promessa era sempre a mesma: bem-estar, disposição, uma versão melhor de si.
Ela nunca se interessou por versões melhoradas.
Mal tolerava a original.
Foi numa tarde comum — dessas que não pedem nada além de silêncio e algum sal — que algo destoou.
Uma dor.
Nada dramático.
Apenas um incômodo discreto demais para justificar alarde… e persistente demais para ser ignorado.
Ela tentou.
Mudou de posição.
Negociou com o próprio corpo como quem lida com uma criança inconveniente.
Não funcionou.
Então, contra a própria vontade — e isso deve ser dito com a devida gravidade — esticou a perna.
E sentiu.
O alívio veio rápido demais.
Limpo demais.
Quase ofensivo.
Ficou imóvel por alguns segundos.
— Isso não é confiável — pensou.
Recolheu a perna com cuidado, como quem desfaz um erro sem testemunhas.
No dia seguinte, o corpo insistiu.
A mesma dor.
A mesma sugestão implícita.
Ela resistiu com mais convicção.
Virou de lado.
Ignorou.
Mas havia algo desleal naquele incômodo: ele não exigia muito.
Apenas… um gesto.
Cedeu.
E o alívio voltou.
Mais preciso.
Mais convincente.
Mais difícil de tratar como acaso.
Ficou em silêncio.
Ainda não era hábito.
Mas já não era escolha.
Começou a desconfiar.
Procurou explicações, ainda que com certo desprezo.
Foi então que disseram:
— Isso é alongamento.
Ela ouviu em silêncio.
— Só isso?
— É assim que começa.
E ali estava o problema.
Nunca foi sobre correr.
Nem sobre disciplina, metas ou desempenho.
Era sobre permitir.
Uma concessão mínima.
Um gesto pequeno demais para parecer perigoso.
Voltou para casa mais atenta.
Naquela noite, evitou se mover além do necessário. Já havia entendido que o corpo, quando encorajado, tende a insistir.
Ainda assim, ele tentou.
A dor veio, precisa.
Ela demorou mais dessa vez.
Considerou ignorar.
Mas havia um detalhe inconveniente: ela já sabia o que aconteceria depois.
E isso tornava a recusa… frágil.
Esticou a perna.
O alívio veio.
Sem surpresa.
Sem culpa.
Sem qualquer justificativa aceitável.
Ficou olhando para o teto, com a sensação incômoda de que algo havia começado sem pedir permissão.
Respirou fundo.
E então compreendeu:
Ninguém muda porque quer.
Muda quando o corpo descobre um prazer que a cabeça já não consegue negar.
Silêncio.
Ela piscou devagar.
Não parecia uma derrota.
Mas também não era vitória.
Era pior.
Era início.
E foi assim que começou.
Não com esforço.
Nem com disciplina.
Mas com uma pequena traição, executada com precisão, contra a própria vontade

