O dente e o discurso

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Não era hora de escovar os dentes.

Não havia café recém-tomado, nem almoço encerrado, nem jantar em perspectiva. Era uma tarde de domingo, dessas que escorrem devagar entre um vídeo qualquer e uma promessa vaga de reorganizar a vida na segunda-feira.

Eu só tinha comido um saco de pipoca.

E, ainda assim, havia algo errado.

Uma casquinha — microscópica na escala do mundo, monumental na escala da gengiva — se instalara entre dois dentes como um invasor silencioso. Não doía exatamente. Também não deixava de doer. Era um incômodo insistente, quase filosófico, desses que não permitem distração completa.

Tentei ignorar.

Fracassei.

Como um adulto funcional, interrompi o domingo e fui ao banheiro. Escova. Pasta. Fio dental. Ritual completo. Uma pequena intervenção civilizatória contra o caos de uma casquinha de milho.

E foi ali, diante do espelho, que pensei nas crianças.

Não nas crianças em si, mas naquilo que estamos fazendo com elas.

Porque, hoje, escovar os dentes deixou de ser um gesto simples. Tornou-se um campo de disputa pedagógica.

De um lado, há os que transformariam a higiene bucal em um seminário.

São pais e responsáveis profundamente comprometidos com a dignidade da infância. Tão comprometidos que, se necessário, montariam um PowerPoint na sala de estar. Slides bem diagramados. Gráficos coloridos. Uma síntese elegante de três ou quatro teses de doutorado sobre microbiota oral.

— Veja, filho, aqui temos a evolução da placa bacteriana ao longo das últimas décadas…

A criança, com cinco anos, segura a escova como quem segura um objeto estrangeiro. Observa. Pisca. Não escova.

Do outro lado, há os que educam pelo abismo.

— Ou escova ou vai ficar banguela!

A ameaça não é apenas dentária. É existencial.

— Vai usar dentadura igual ao seu avô. É isso que você quer?

O avô, que talvez nem tenha pedido para ser parâmetro de fracasso, torna-se argumento pedagógico. A escova, um instrumento de sobrevivência. A higiene, um pacto com o medo.

A criança escova.

Mas não aprende.

Entre o slide e o susto, perde-se o gesto.

Escovar os dentes, no fim das contas, é um ato pequeno. Não exige tese, nem trauma. Exige presença. Repetição. Alguma mediação honesta entre o que se sabe e o que se vive.

Não é preciso transformar a escova em símbolo de excelência acadêmica.

Nem em arma de pânico hereditário.

Basta, talvez, reconhecer o que eu reconheci naquela tarde de domingo: há coisas mínimas que, quando negligenciadas, se tornam insuportáveis.

Uma casquinha de milho é suficiente para interromper um adulto.

Mas nós seguimos acreditando que uma infância inteira pode ser conduzida aos gritos ou aos slides.

No espelho, depois do fio dental, tudo parecia resolvido.

Na educação, não.

E talvez o problema seja justamente esse: a gente tem escova demais para dente de menos e discurso demais para gesto nenhum.

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