Entre o esforço e a escolha 

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Certa feita, eu disse — sem qualquer intenção de me levantar para provar — que o homem só evoluiu até aqui por causa da sua preguiça.

E há ideias que não precisam de esforço para se sustentar.

O mundo está cheio de gente trabalhando até o limite.

Coluna por salário. Sono por sobrevivência. Corpo por dignidade.

Nunca foi falta de disposição.

Foi falta de escolha.

Mas alguém, em algum momento, olhou para o peso e desconfiou.

Desconfiou de que nem todo esforço era necessário.

De que repetir sofrimento não era grandeza — era atraso.

E então inventou a roda.

Não para evitar o trabalho, mas para recusar o desperdício.

A preguiça, quando acerta, não paralisa.

Ela pergunta.

E foi perguntando que a humanidade saiu do braço e chegou à máquina, do arrasto ao movimento, do cansaço inevitável ao cansaço escolhido.

A civilização não nasceu do amor ao sacrifício.

Nasceu da recusa em sofrer à toa.

Mas o mundo tem talento para distorcer até aquilo que nos salva.

Hoje, o peso continua sendo carregado — só mudou de lugar.

Há quem ainda sustente a vida no próprio corpo, porque não teve tempo, acesso ou chance de fazer diferente.

E há quem terceirize esse peso durante o dia e o recompre à noite, em parcelas mensais, com música alta e ar-condicionado.

A carga vira treino.

O cansaço vira meta.

O esforço vira estilo.

E assim seguimos: transformando necessidade em invisibilidade e escolha em virtude.

É uma engenharia curiosa.

A humanidade inventa meios de aliviar o corpo —

e, em seguida, cria formas sofisticadas de sentir o peso de novo, desde que possa chamar isso de evolução pessoal.

No meio disso tudo, a preguiça segue sendo acusada.

Mas talvez o erro não esteja nela.

Talvez esteja no uso.

Porque há uma preguiça que constrói — e outra que dissolve.

A primeira olha para o mundo e pergunta: precisa mesmo ser assim?

A segunda olha para o pensamento e responde: deixa que alguém faz por mim.

“É só falar com o chat.”

E, de repente, o que poderia expandir a mente começa a substituí-la.

Não se pensa — solicita-se.

Não se constrói — recebe-se.

Não se atravessa — chega-se.

E chegar, sem ter ido, dá uma sensação curiosa de avanço.

Mas não é.

A preguiça certa não elimina o trabalho — ela elimina o trabalho burro.

Todo o resto continua sendo necessário. Pensar continua sendo necessário. Escolher continua sendo necessário. Assumir o que se pensa continua sendo inevitável.

A boa preguiça poupa o corpo sem anestesiar a consciência.

Ela simplifica o caminho, mas não terceiriza a travessia. Talvez seja isso que ainda nos mantém de pé: não a força de carregar tudo, mas a inteligência de decidir o que não precisa mais ser carregado.

E, principalmente, a lucidez de não esquecer que, enquanto alguns aprendem a aliviar o peso, outros ainda não tiveram sequer a chance de escolher.

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2 respostas a “Entre o esforço e a escolha ”

  1. […] Naquele programa, eu perguntava como imaginar um mundo melhor. Hoje, talvez a pergunta seja outra: como preservar a imaginação quando o próprio mundo tenta terceirizá-la? Como continuar criando sem virar apenas um operador de ferramentas? Como usar máquinas, redes, […]

  2. […] tratado como excesso de gente sem espírito aventureiro. É um movimento semelhante ao observado em Entre o esforço e a escolha: experiências humanas são retiradas de seu contexto e devolvidas como produtos, performances e […]

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