Por: Paulo Ricardo Zargolin
Ana Paula chegou toda branca a uma festa.
Não apenas vestida de branco. Branca como aparição. Branca como aviso. Branca como aquilo que já não pede interpretação, mas distância. Ela disse que não devia ter vindo. Disse que não podia chegar perto. Disse, com uma calma quase cansada, que era uma bomba-relógio.
O anfitrião riu.
E, quando alguém ri diante de um aviso, quase sempre acredita estar vencendo o constrangimento. Na verdade, está apenas adiando a consequência.
Ele tocou Ana Paula.
Depois adoeceu.
Essa é a Ana Paula da ficção. A minha. A que surge como corpo, sintoma e enigma. Mas voltei a pensar nela ao assistir ao vídeo “Ana Paula campeã do BBB!”, de Maurício Meirelles (abaixo), em que ele comenta como, logo na primeira semana do programa, já parecia haver uma vencedora fabricada pelo entusiasmo da mídia, dos portais e das redes.
E aqui começa o caso.
Porque talvez existam doenças que não passam pela pele.
Passam pela narrativa.
Maurício levanta uma pergunta simples e venenosa: será que gostaríamos da mesma participante se, em vez de chamá-la de autêntica, carismática ou favorita, os mesmos canais a tivessem apresentado como arrogante?
Essa pergunta merece pausa.
À primeira vista, parece apenas comentário sobre BBB. Mas isso é pouco. O que está em jogo não é Ana Paula. É a fabricação do gosto.
Gostar de alguém é humano.
Mas gostar antes de julgar é sintoma.
A mídia não precisa obrigar ninguém a torcer. Basta repetir um enquadramento até que ele pareça percepção espontânea. A pessoa não recebe uma ordem. Recebe um clima. Um tom. Uma legenda emocional. E, quando percebe, já está defendendo como opinião própria aquilo que talvez tenha sido instalado nela como ambiente.
É assim que opera o contágio narrativo.
Não entra pela força.
Entra pela familiaridade.
Primeiro, alguém diz que Ana Paula é campeã. Depois, outros repetem. Depois, a rede confirma. Depois, discordar parece implicância. O favoritismo, que deveria nascer do percurso, passa a anteceder o próprio jogo.
Esse é o ponto inquietante.
A pergunta não é se Ana Paula merece vencer.
A pergunta é: em que momento o merecimento começou a ser produzido antes da experiência?
Pierre Bourdieu nos ajuda a pensar o poder simbólico como essa força discreta que organiza percepções sem parecer imposição. O mundo social não nos entrega apenas fatos. Entrega também modos de enxergar os fatos. E quem controla o enquadramento inicial muitas vezes controla o julgamento posterior.
Michel Foucault também ronda essa cena. O poder moderno não precisa apenas proibir ou mandar. Ele produz discursos. Produz sujeitos. Produz verdades circulantes. No caso do entretenimento, produz até afetos: quem deve ser amado, quem deve ser odiado, quem deve ser perdoado, quem deve ser cancelado.
E o algoritmo faz o resto.
A repetição vira evidência.
A evidência vira torcida.
A torcida vira identidade.
E, quando a torcida vira identidade, qualquer crítica parece ataque pessoal.
Na ficção, Ana Paula transmite uma doença pelo toque. No reality, talvez a doença seja outra: a adesão precoce. A febre de gostar junto. O prazer de pertencer à multidão que já sabe o final antes que a história aconteça.
Não se trata de demonizar o público.
O público também é vítima da coreografia.
Vivemos cercados por pequenas induções: trends, cortes, manchetes, reacts, páginas de fofoca, influenciadores indignados, influenciadores encantados, influenciadores fingindo espontaneidade em ambiente previamente editado. A liberdade continua lá, claro. Mas ela circula dentro de um corredor de sugestões.
E corredores também conduzem.
Maurício brinca que o Brasil poderia ser invadido por trends. A piada funciona porque exagera uma verdade desconfortável: somos menos autônomos do que gostamos de imaginar.
Talvez a manipulação contemporânea não precise esconder a realidade.
Basta ocupar o intervalo entre o fato e a nossa interpretação.
No fim, a doença de gostar de Ana Paula não é gostar de Ana Paula.
É não saber quando esse gosto começou.
É chamar de escolha aquilo que talvez tenha chegado pronto.
É defender como intuição aquilo que foi aquecido pela repetição.
Mentes inquietas não recusam o entretenimento.
Elas apenas desconfiam quando a coroação chega antes da disputa.
Porque, às vezes, o problema não é a campeã.
É descobrir quem começou a aplaudir primeiro.

