Por: Paulo Ricardo Zargolin
Luana tinha quarenta e um anos e um histórico silencioso de permanências mal resolvidas.
Não faltaram relações. Faltaram finais dignos.
Nunca casou. Não por ausência de chance, mas por excesso de tolerância. Sabia sustentar vínculos como quem sustenta uma casa antiga: escorando paredes, ignorando rachaduras, adiando o inevitável.
Foram sete anos dessa vez.
Sete anos não acabam de uma vez. Eles se desfazem aos poucos, como algo que já não se sustenta, mas insiste em não cair.
O término não veio com ruptura. Veio com esvaziamento.
Quando percebeu, não havia mais relação. Só hábito.
Ele saiu sem alarde.
Ela ficou com o que sobrou de si.
Nos dias seguintes, fez o que quase todo mundo faz quando não sabe mais onde se colocar: abriu o celular. Não por distração, mas por necessidade de alguma forma de resposta.
Começou a escrever.
No início, perguntas genéricas. Depois, relatos cada vez mais diretos. Não eram confissões assumidas, mas também já não conseguiam se esconder. Era uma tentativa de organizar o que sentia sem precisar nomear.
A conversa com a IA seguia um ritmo previsível, quase confortável.
Ela falava.
Recebia devoluções bem construídas.
Mas, em algum ponto, isso deixou de bastar.
Veio então a sugestão de procurar o 188.
Centro de Valorização da Vida.
Luana não estranhou a indicação. Estranhou o que ela exigia. Falar com alguém de verdade sobre algo que ela mesma ainda não conseguia encarar parecia um movimento grande demais para quem mal tinha conseguido atravessar o dia.
Mesmo assim, ligou.
Não encontrou uma pessoa. Encontrou um sistema.
Você é o número 58.
Ficou em silêncio.
Cinquenta e oito não era um número absurdo. Mas também não era pequeno o suficiente para ser ignorado. Era o tipo de número que transforma urgência em espera, dor em sequência.
Não desligou.
Mas também não se sentiu dentro da ligação.
Foi então que a imagem surgiu, sem esforço: sua casa pegando fogo. Chamas altas, consumindo o que ainda restava de estrutura. Do lado de fora, bombeiros organizando prioridades, explicando com calma que havia outros casos antes do dela.
A comparação não trouxe revolta imediata. Trouxe reconhecimento.
Porque, no fundo, ela sabia. O mundo nunca parou por ela.
E não era uma injustiça pessoal. Era a regra.
A sensação de abandono começou a perder força quando deu lugar a outra percepção, menos confortável, mas mais precisa: não havia como alguém tratar todas as urgências como únicas.
O problema não era a fila existir.
Era a expectativa de não precisar dela.
Nesse ponto, algo mudou.
O número 58 deixou de ser uma posição. Passou a ser apenas um encontro temporário entre histórias que não se cruzam. Cada pessoa ali carregava uma dor inteira, sem saber da outra, sem poder medir.
Não havia uma ordem real.
Havia coincidência.
Luana desligou.
Não foi um gesto de desistência. Foi um gesto de compreensão.
Esperar por alguém não resolveria o que já estava dentro dela.
Naquela noite, não buscou novas respostas. Também não tentou se distrair.
Sentou-se no próprio desconforto, sem dramatizar além do necessário, mas sem fugir dele. Pela primeira vez em dias, não tentou justificar o que sentia nem reduzir o tamanho daquilo.
Aos poucos, percebeu algo simples, quase discreto.
Nem tudo tinha se perdido.
Havia cansaço, havia frustração, havia uma sensação de tempo desperdiçado. Mas havia também uma parte que ainda permanecia inteira, mesmo sem saber o que fazer a seguir.
Não era muito.
Mas era suficiente para não se abandonar.
E, naquela altura, isso já fazia diferença.


