Magenta! apresenta: #OJogo
Capítulo 1
Por: Paulo Ricardo Zargolin
Paulinho acordou sem susto.
Não foi um despertar brusco, desses que rasgam o sonho ao meio.
Foi outra coisa. Como se o sonho tivesse terminado por conta própria — satisfeito, concluído, encerrado com método.
Ele ainda estava lá.
Não no lugar, mas na sensação.
O quarto de hóspedes da avó continuava o mesmo: o ventilador girando com preguiça, a cortina leve filtrando a luz da manhã, o silêncio típico de casa que acorda antes das pessoas. Nada fora do lugar.
Exceto ele.
Havia algo deslocado.
Não no ambiente — nele.
Paulinho permaneceu deitado, olhando para o teto, tentando reorganizar o que havia visto. Não era um sonho comum. Não tinha lógica quebrada, nem imagens embaralhadas. Pelo contrário: havia sequência, continuidade, decisões.
Ele lembrava.
Lembrava de estar em outro tempo.
Não sabia dizer como sabia disso — mas sabia.
Era tudo mais… ajustado.
As pessoas se moviam com uma naturalidade estranha, como se já tivessem resolvido problemas que, para ele, ainda nem existiam.
E havia um grupo.
Amigos — ele tinha certeza.
Conversavam como se se conhecessem há muito tempo. Riam de coisas que faziam sentido. Havia uma mesa.
E, sobre a mesa, um jogo.
Não um jogo qualquer.
Algo cuidadosamente organizado.
Cartas? Peças? Regras? Ele não conseguia lembrar exatamente. Mas lembrava da sensação de estar jogando algo importante — algo que não era só passatempo.
Era como se o jogo explicasse alguma coisa.
Ou escondesse.
Paulinho fechou os olhos por um instante, tentando puxar mais detalhes.
Foi aí que lembrou.
Não do jogo.
Do gesto.
Em algum momento — ele não sabia quando — as pessoas se distraíram.
Foi rápido. Natural. Como se tivesse sido previsto.
E ele…
Ele guardou a caixa.
Na mochila.
Os olhos abriram de uma vez.
Agora havia um problema.
Não um daqueles problemas de criança — dever de casa, horário, bronca.
Um problema real.
Porque aquilo não podia estar ali.
Paulinho virou o rosto lentamente.
A cadeira gamer estava ao lado da cama, como sempre.
E, sobre ela, a mochila.
A mesma de ontem.
A mesma de sempre.
Mas não exatamente.
Havia um volume.
Discreto.
Reto demais para ser caderno.
Rígido demais para ser roupa.
O zíper estava levemente tensionado.
Como se estivesse guardando algo que não cabia.
Paulinho sentou na cama.
O coração não disparou.
Curiosamente, não havia medo.
Havia outra coisa.
Reconhecimento.
Como se, em algum nível, ele já soubesse a resposta — e estivesse apenas aguardando a confirmação.
Levantou devagar.
Deu dois passos.
Parou diante da cadeira.
A mochila estava ali.
Silenciosa.
Esperando.
Se aquilo fosse real…
então o sonho não tinha sido um sonho.
Paulinho segurou o zíper.
Por um segundo, hesitou.
Não por dúvida.
Mas porque entendia — mesmo sem conseguir explicar — que, ao abrir aquela mochila, alguma coisa começaria.
Ou recomeçaria.
Ele puxou.
(continua)

