Magenta! apresenta: #OJogo
Capítulo 2
Por: Paulo Ricardo Zargolin
O zíper cedeu sem resistência.
Não fez barulho.
Ou fez, e o som chegou um segundo depois.
Paulinho não teria sabido dizer.
A mochila apenas abriu — e, por um instante, ele teve a impressão desconfortável de que ela já estava aberta antes, como se o gesto que acabara de fazer fosse só repetição de outro, executado em algum ponto fora de alcance.
Lá estava a caixa.
Pequena demais para impor presença.
Exata demais para passar despercebida.
Ele ficou olhando.
Não como quem encontra algo novo, mas como quem chega atrasado a uma coisa que já o esperava.
O quarto permanecia o mesmo.
O ventilador girava acima dele com a mesma preguiça circular. A cortina ainda filtrava a manhã. A cadeira gamer seguia ao lado da cama. A porta, fechada. O corredor, silencioso.
Tudo no lugar.
Mas o lugar parecia ligeiramente deslocado de si.
Como se o mundo tivesse sido montado com cuidado excessivo.
Paulinho estendeu a mão.
Parou antes de tocar.
A caixa começava no preto, mas não terminava nele. Havia uma transição quase imperceptível, como se a superfície saísse da ausência total e, sem alarde, se permitisse chegar a um cinza contido, técnico, frio. Não parecia embalagem. Parecia campo.
À esquerda, um círculo em magenta ocupava o espaço com a segurança de quem não precisa se justificar. Do outro lado, mais ao alto e mais ao fundo, outras formas orbitavam em distância calculada.
Ciano.
Amarelo.
Preto.
Ligadas por linhas pontilhadas que não conduziam a lugar nenhum — ou talvez conduzissem, mas não ainda. Não desenhavam um caminho. Desenhavam a possibilidade de um.
Paulinho piscou.
Por um instante, teve a impressão de que uma das linhas havia mudado de posição.
Não tinha mudado.
Ou tinha, e voltara.
No centro, o nome.
MAGENTA!
A palavra não parecia impressa. Parecia imposta.
As letras brancas, levemente irregulares, recusavam a perfeição limpa das coisas industriais. Havia nelas uma firmeza quase manual, como se alguém as tivesse ajustado até encontrar o ponto exato em que rigidez e instabilidade pudessem conviver sem se anular.
E então, a exclamação.
Aquilo não era pontuação.
Era intervenção.
O traço vertical avançava como se pertencesse a outro sistema. Magenta à frente. Um ciano insinuado atrás. Uma sombra escura sustentando a sobreposição. O ponto, abaixo, não encerrava a palavra. Concentrava alguma coisa que a palavra sozinha não conseguia conter.
Paulinho aproximou o rosto.
A sombra do ponto parecia cair para o lado errado.
Ele se endireitou de novo.
A sombra estava normal.
Ou parecia.
Da cozinha, a voz da avó atravessou o corredor:
— Você já acordou?
Paulinho virou um pouco a cabeça, mas não respondeu.
Ficou escutando. Não por dúvida. Por verificação. O silêncio que veio depois pareceu suficiente. Completo. Encerrado.
Então, a mesma voz. Mesmo tom. Mesma distância. Mesma cadência.
— Você já acordou?
Paulinho franziu a testa.
A pergunta não tinha urgência, mas trazia algo pior: não registrava passagem. Como se a primeira vez não tivesse acontecido. Como se a resposta ainda não tivesse sido produzida. Ou aceita.
Ele olhou para a caixa.
Depois para a porta.
E só então pensou, com uma nitidez que não pediu permissão:
Ela espera a verdade?
O pensamento não fazia sentido.
Mas se instalou com a tranquilidade das coisas que não precisam fazer sentido para permanecer.
— Já.
A palavra saiu. Correta. Simples. Inequívoca.
Ainda assim, o quarto não relaxou.
Nem ele.
Paulinho finalmente tocou a caixa.
O peso não era grande.
Era exato.
Mas havia ali uma estranheza difícil de nomear: a sensação de que o volume continha mais do que comportava. Como se o objeto tivesse concordado com as medidas do lado de fora apenas para não chamar atenção.
Ele a retirou da mochila e a colocou sobre a cama.
Dessa vez, não pensou em abrir imediatamente.
Passou os olhos pela lateral.
E encontrou a frase.
Pequena. Gravada. Discreta demais para ser acidental.
Nem toda resposta revela.
Ele passou o dedo sobre as palavras.
Não havia relevo.
Nenhuma textura.
Mas a frase permaneceu sob a pele por mais tempo do que deveria.
No corredor, um copo tocou algum prato.
Ou repetiu o toque.
Paulinho ergueu os olhos.
O som cessou. Então cessou de novo, como se estivesse chegando em duas camadas.
Uma ideia surgiu.
Pronta.
Não como descoberta.
Como lembrança de algo que ele ainda não lembrava por inteiro.
Isso tem regra.
Ele recuou a mão.
Respirou.
E percebeu outra coisa: não era só que havia um jeito certo de abrir aquela caixa.
Era que qualquer outro jeito pareceria violação.
Como se a escolha errada não produzisse apenas erro — produzisse consequência.
Paulinho levantou a tampa.
Por um segundo, antes de ver o interior, teve a estranha sensação de que alguém do outro lado havia feito o mesmo.
A imagem veio rápida demais para ser imagem.
Passou.
Mas deixou um resto.
Lá dentro, tudo ocupava o lugar que deveria ocupar.
Compartimentos precisos.
Nada frouxo.
Nada sobrando.
Cartas.
Um suporte rígido.
Espaços vazios.
Não, corrigiu mentalmente. Os espaços não estavam vazios. Estavam reservados.
Aquilo não era um conjunto de peças.
Era um sistema aguardando continuação.
Paulinho pegou uma das cartas.
Quatro quadrantes. Magenta. Ciano. Amarelo. Preto.
Sem repetição.Sem legenda. Sem explicação.
Ele levou a carta um pouco mais perto do rosto.
As cores eram limpas demais. Firmes demais. Nenhuma parecia impressa; pareciam decididas.
Instintivamente, começou a girá-la.
Parou no meio do gesto.
Não.
A recusa veio inteira, antes do pensamento.
Não girar.
Paulinho congelou.
Sentiu, com uma nitidez quase humilhante, que aquele movimento teria sido incorreto não por falha técnica, mas por infração.
Lentamente, devolveu a carta à posição original.
Só então soltou o ar.
Observou o suporte ao lado.
Não precisou testar para compreender.
Aquilo fixava.
Aquilo impedia.
Aquilo mantinha.
Uma vez escolhido o lugar, o lugar não deveria mais ceder.
Paulinho tocou a borda do suporte, e uma sensação breve, elétrica, atravessou seu braço.
Não uma descarga.
Uma concordância.
Como se o objeto tivesse reconhecido o gesto.
Ele retirou a mão.
O quarto parecia um pouco mais silencioso do que antes.
Silencioso demais.
O ventilador continuava girando, mas agora Paulinho não tinha certeza de ouvir o motor. Via o movimento. Não sabia se ouvia o som correspondente.
Piscou várias vezes.
Nada mudou.
Mas alguma coisa já não coincidia perfeitamente.
Ele se sentou na cama.
As peças estavam diante dele.
Organizadas. Disponíveis. Corretas.
E, ainda assim, imóveis de um jeito incompleto.
Por um instante, não entendeu.
Depois entendeu.
Faltava alguém.
Não como companhia.
Como requisito.
Ele olhou para a cadeira vazia. Para a porta fechada. Para o reflexo escuro do monitor desligado.
Nenhum deles servia.
Aquilo não funcionava sozinho.
Não porque fosse difícil. Porque não era dessa natureza.
O jogo exigia resposta. E resposta, sozinho, era só eco.
Paulinho encostou na parede.
Ficou pensando.
Não em regras completas.
Não em vitória.
Não em como jogar.
Pensou em alguém.
Alguém que pudesse ocupar o outro lado daquilo.
Alguém que pudesse responder.
Alguém cuja resposta talvez não resolvesse nada.
A ideia veio acompanhada de outra, mais inquietante: talvez a resposta não dependesse do que a pessoa soubesse. Talvez dependesse do que a pessoa fosse.
Paulinho apertou levemente os olhos.
Não entendia por que pensara aquilo.
Mas já não conseguia desconsiderar.
Pegou o celular.
A tela acendeu com luz demais.
Conversas abertas.
Notificações comuns.
Nomes familiares.
Muitos.
Todos possíveis.
Nenhum inevitável.
Ainda.
Ele percorreu a lista com o polegar, sem tocar de fato em ninguém.
Por um instante, um dos nomes pareceu mais nítido que os outros.
Não porque estivesse mais próximo.
Porque parecia ter sido escolhido antes.
Paulinho bloqueou o aparelho de novo.
Deixou ao lado.
Olhou para o jogo.
Agora sem estranhamento.Com reconhecimento. Com uma familiaridade inadequada, quase ofensiva. Como se o objeto soubesse dele mais do que ele sabia do objeto.
Da cozinha, a voz da avó veio uma terceira vez.
Desta vez diferente.
Ou talvez igual demais.
— Paulinho, o café.
Ele se levantou no mesmo instante.
Não por fome.
Por alívio.
Deu dois passos em direção à porta.
Parou.
A mão no trinco.
Olhou para trás.
A caixa sobre a cama.
Aberta. Quieta.Esperando.
“Não” — corrigiu-se sem querer. “Não esperando. Contando”.
Como se algum tipo de tempo tivesse começado a correr a partir do instante em que ele puxara o zíper.
Paulinho soltou o trinco.
Voltou.
Sentou-se outra vez.
Pegou o celular. Dessa vez, não por impulso. Por submissão a uma lógica que já estava em curso.
Escolheu um nome.
Ficou olhando para a tela.
E, antes de escrever qualquer coisa, formulou uma pergunta. Curta. Fechada. Exata. Tão simples que chegava a parecer inocente.
Mas ele já sabia que inocência e simplicidade não eram a mesma coisa.
Se a pessoa respondesse, alguma coisa começaria.
Ou continuaria.
Paulinho ainda não sabia a resposta.
Mas sabia o suficiente para desconfiar de uma coisa: dependendo de quem respondesse, a resposta poderia não significar nada.
Ou significar tudo errado.
Ele começou a digitar.
(continua)

