A joia nas mãos

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Houve um tempo em que eu tinha pouco além de livros, algum entusiasmo e a ousadia dos que continuam estudando quando já deveriam, segundo o mundo, ter parado.
Foi nesse tempo que Sonia apareceu.
Ao me ver com o anel da primeira formatura, arregalou os olhos e disse, com aquela inocência reluzente que só algumas pessoas preservam:
— Nossa! Que otimismo… já está até com a joia nas mãos!
Ri. Expliquei que era de Letras, mas havia me lançado numa segunda graduação por fome de saber — ou por inquietação, que talvez seja a mesma coisa.
E ali começou uma espécie de parentesco.
Sonia, universitária por conquista tardia, estudava como quem corrige uma injustiça antiga. Eu, na mais pura pindaíba, sobrevivia entre xerox, ônibus para Jales e revisões vespertinas.
Muitas vezes, era ela quem me dava o dinheiro da passagem para que eu pudesse ficar mais um pouco. Mais um pouco estudando. Mais um pouco pertencendo.
Passei a frequentar sua casa. E foi assim que ganhei uma irmã sem ter nascido com ela. Priscila, mas eternamente Pri, para mim e para Sonia.
Convivi com a família num daqueles períodos em que a precariedade material convive, misteriosamente, com abundância afetiva.
Hoje, anos depois, Sonia me envia a notícia: Pri tomou posse como escrivã da Polícia Civil.
Li o termo como quem lê uma carta de família. E me ocorreu que Sonia, sem saber, havia profetizado tudo naquela frase antiga.
A joia estava mesmo nas mãos. Só não era o anel. Era o futuro.

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