A pergunta que escolhe quem responde

Magenta! apresenta: #OJogo

Capítulo 3

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Paulinho digitou a pergunta.

Depois apagou.

Digitou de novo.

Apagou outra vez.

Não era difícil escrever. Era difícil aceitar que uma frase tão pequena pudesse abrir alguma coisa tão grande.

O celular permanecia aceso em sua mão, exibindo o nome de Caio no topo da conversa.

Caio era o tipo de amigo que respondia rápido demais quando não devia e demorava demais quando precisava. Tinha o dom irritante de transformar qualquer situação em piada antes que ela pudesse se tornar séria. Talvez por isso Paulinho tivesse escolhido aquele nome.

Ou talvez não tivesse escolhido.

Talvez o nome apenas tivesse ficado mais nítido na lista porque alguma parte do jogo já sabia de quem precisava.

Paulinho olhou para a caixa aberta sobre a cama.

As cartas estavam imóveis.

O suporte também.

Tudo parecia esperar, mas não com ansiedade. Com método.

Como uma sala de aula antes da prova.

Como uma fechadura antes da chave.

Como uma mentira antes da pergunta certa.

Ele voltou ao celular.

Dessa vez, escreveu sem apagar:

Você consegue vir aqui agora?

Ficou olhando.

A pergunta era aberta demais.

Errada.

Ele sentiu isso antes de entender.

Não havia punição. Não havia ruído. Nenhum clarão magenta atravessou o quarto. Mas alguma coisa no ar recusou a frase com uma delicadeza insuportável.

Paulinho apagou.

Respirou fundo.

O jogo não queria convite.

Queria resposta.

E resposta, ele começava a compreender, não era conversa.

Era posição.

Digitou outra coisa:

Você está em casa?

Parou.

Sim ou não.

Era isso.

A frase coube no mundo.

Paulinho enviou.

A mensagem subiu na tela com uma leveza ofensiva, como se não soubesse o peso que carregava.

Por alguns segundos, nada aconteceu.

O ventilador continuava girando. A cortina continuava filtrando a manhã. Da cozinha, vinha o cheiro de café. Tudo insistia em ser normal com uma disciplina suspeita.

Então apareceram os três pontinhos.

Caio estava digitando.

Paulinho sentiu um frio curto na nuca.

A resposta veio:

Sim.

A palavra ficou ali.

Pequena.

Comum.

Inocente.

Mas Paulinho não conseguiu lê-la como antes.

Sim.

Aquilo significava que Caio estava em casa.

Ou significava apenas que Caio respondera sim.

A diferença, que até aquela manhã parecia inútil, abriu dentro dele uma fresta desagradável.

Paulinho leu de novo.

Sim.

Se Caio estivesse em casa, a resposta era verdadeira.

Se não estivesse, era falsa.

Mas havia uma terceira camada, uma camada que não pertencia ao mundo de fora: e se a resposta não dependesse do lugar onde Caio estava, mas daquilo que Caio era?

Paulinho levantou os olhos para a caixa.

A frase na lateral pareceu mais nítida do que antes.

Nem toda resposta revela.

Ele não tocou na caixa.

Não precisava.

A primeira regra já havia tocado nele.

O celular vibrou outra vez.

Por quê?

Paulinho quase respondeu.

Quase explicou.

Quase escreveu: “Achei uma coisa estranha aqui.”

Mas a frase morreu antes dos dedos.

Explicar seria perder alguma coisa.

O jogo não estava pedindo que ele contasse.

Estava pedindo que ele testasse.

Paulinho apagou o campo de mensagem vazio, como se já tivesse escrito uma confissão.

Pensou por alguns segundos.

Então enviou:

Você consegue chegar em dez minutos?

Essa pergunta também era fechada.

Mas, dessa vez, a resposta não veio imediatamente.

Os três pontinhos apareceram.

Sumiram.

Apareceram de novo.

Sumiram outra vez.

Paulinho teve a impressão absurda de que, do outro lado, Caio também estava apagando frases. Não por indecisão comum. Por resistência.

A resposta finalmente chegou:

Não.

Paulinho permaneceu imóvel.

Sim.

Não.

Duas palavras.

Duas possibilidades.

Nenhuma prova.

Ele olhou para a folha em branco que vinha dentro da caixa. Havia quadrantes vazios, linhas discretas, espaços para anotar o que ainda não se sabia.

Pegou o lápis.

Não escreveu “Caio está em casa”.

Não escreveu “Caio não consegue vir”.

Escreveu apenas:

Caio — respondeu SIM.
Caio — respondeu NÃO.

A diferença era pequena.

Mas parecia fundamental.

Pela primeira vez, Paulinho entendeu que o erro não estava em receber uma mentira.

O erro estava em chamar resposta de verdade cedo demais.

A porta do quarto bateu levemente.

Paulinho virou a cabeça.

Não havia ninguém.

Mesmo assim, a porta estava menos fechada do que antes.

Uma fresta mínima separava a madeira do batente.

Do corredor, a voz da avó chegou, agora mais próxima:

— Paulinho, você está falando com quem?

Ele olhou para o celular.

Olhou para a caixa.

Olhou para a porta.

Por um instante, pensou em esconder tudo.

Mas a ideia pareceu infantil.

Não porque esconder fosse errado.

Porque já era tarde.

A mensagem seguinte chegou antes que ele decidisse qualquer coisa.

Tô na esquina.

Paulinho sentiu o corpo inteiro endurecer.

Leu uma vez.

Leu duas.

A resposta anterior ainda estava acima.

Você consegue chegar em dez minutos?
Não.

E agora:

Tô na esquina.

A contradição era pequena o bastante para caber numa desculpa.

Grande o bastante para abrir o jogo.

Paulinho ficou olhando para as mensagens, tentando decidir se aquilo significava que Caio havia mentido, brincado, mudado de ideia, se enganado ou apenas respondido de um jeito que ainda não podia ser lido.

A campainha tocou.

Não uma vez.

Duas.

Mas o segundo toque veio antes do primeiro terminar.

Paulinho se levantou.

A caixa continuava aberta sobre a cama.

As quatro cores pareciam mais vivas.

Magenta.

Ciano.

Amarelo.

Preto.

Nenhuma delas explicava nada.

Todas exigiam atenção.

Da sala, a avó chamou:

— Paulinho, seu amigo chegou.

Ele segurou o celular com força.

Na tela, a última mensagem de Caio continuava acesa.

Tô na esquina.

Paulinho olhou para o jogo.

E, pela primeira vez desde que acordara, sentiu medo.

Não medo da caixa.

Medo da resposta.

Porque, se Caio tinha dito “não” e apareceu mesmo assim, havia apenas duas possibilidades simples.

Ou Caio estava mentindo.

Ou o jogo já havia começado antes dele perceber.

Paulinho caminhou até a porta.

Parou.

Voltou os olhos para a cama.

A caixa parecia tranquila demais.

Como quem acaba de provar uma regra sem precisar explicá-la.

Ele abriu a porta.

E foi receber o primeiro jogador.

(continua)

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