Se eu pudesse voar

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Maracangalha nasce da ausência: uma cidade fictícia onde saudade, silêncio e desejo de voo revelam o que a aparência tenta esconder.

Há cidades que nascem de mapas.
Outras, de promessas políticas mal diagramadas.
Mas há aquelas — raras — que surgem antes mesmo de existir.
E eu suspeito, com certa cautela poética, que Maracangalha pertence a esse segundo tipo: o das cidades que começam como ausência.
Desde 2024, venho sendo atravessado por ela.
Não como quem a inventa, mas como quem a escuta.
Maracangalha não foi pensada — foi insinuada.
E, desde então, há uma melodia que insiste em acompanhá-la.
Não sei se é sua música-tema.
Mas sei que, se a cidade tivesse coragem de cantar a si mesma, talvez dissesse algo como:
“E se eu puder voar…”


Esse verso não é esperança.
É denúncia.
Porque em Maracangalha ninguém voa.
As pessoas permanecem.
Presas a discursos, a heranças, a silêncios herdados como móveis antigos que ninguém ousa jogar fora.
E ainda assim… há quem sonhe.
A canção fala de estrelas que caberiam na mão — e isso, à primeira vista, parece exagero lírico.
Mas não é.
É o tipo de exagero que só existe onde falta realidade suficiente.
Em uma cidade onde o mar é prometido mais do que visto, imaginar estrelas ao alcance dos dedos não é fantasia — é sobrevivência simbólica.
Há também algo que me inquieta: “Vou nas asas da saudade te encontrar”.
A saudade, em Maracangalha, não é passado.
É método.
As pessoas se organizam a partir do que perderam, não do que constroem.
A cidade inteira parece viver de um futuro que nunca chega e de um passado que nunca foi devidamente encerrado.
Talvez por isso essa música — essa possibilidade de voo — me acompanhe desde antes da escrita.
Como se o texto não fosse origem, mas consequência.
Escrever Maracangalha, afinal, nunca foi um gesto de criação.
Foi um gesto de tradução.
Traduzir o que não se diz nos corredores da prefeitura.
O que se cala nas casas com cheiro de lavanda e saudade.
O que se move nos olhos de quem ainda não sabe que está prestes a romper.
E, no meio disso tudo, há esse desejo insistente de voo.
Não para escapar.
Mas para ver.
Porque ver, às vezes, exige altura.
Distância.
Descolamento.
E talvez seja isso que a canção propõe, sem dizer: não um voo físico, mas um deslocamento de consciência.
Voar, aqui, é perceber.
Perceber que há cidades que se sustentam na aparência.
Que há afetos moldados pela ausência.
Que há silêncios que não são paz; são contenção.
E que, ainda assim, alguém ousa sonhar com arco-íris em forma de flor.
Isso, em qualquer outro lugar, seria apenas bonito.
Em Maracangalha, é perigoso.
Porque toda beleza ali carrega o risco de revelar demais.
E talvez seja por isso que sigo escrevendo.
Não para concluir a cidade.
Mas para me aproximar dela sem que ela me engula por completo.
Se eu pudesse voar — e talvez eu já esteja voando — não levaria estrelas.
Levaria perguntas.
E deixaria, em alguma janela aberta, uma luz acesa o suficiente para que alguém, do lado de dentro, finalmente enxergue.

Imagem de capa da série Maracangalha, com fundo de mar azul-turquesa e a palavra “Maracangalha” dividida em blocos coloridos, com letras grandes em laranja, verde e azul, contornadas em roxo e branco. A arte tem estilo vibrante, tropical e pop.
Acompanhe a novelinha, aqui.
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