Maracangalha
Capítulo 01
Por: Paulo Ricardo Zargolin
Na praça central da Estância Turística de Maracangalha do Sul, o sol zombava dos homens de paletó, que suavam sob promessas de prosperidade jamais cumpridas. Acima do coreto, uma faixa cansada tremulava: “Maracangalha, rumo ao progresso!”. A brisa vinda do litoral interditado dançava como um deboche sutil — não havia mar visível, mas seu hálito salgado sussurrava uma verdade inconveniente: tudo ali era fachada.
O coral infantil desafinava com bravura os versos do hino municipal — um samba-exaltação adaptado por decreto esquecido de 1987. Crianças vestidas com fardinhas amassadas, algumas com meias caídas, tentavam seguir o maestro voluntário que agitava uma batuta imaginária com fervor patriótico. Entre uma nota e outra, um soluço de tédio.
Salve a terra onde o sol nunca falha,
Maracangalha do Sul, nosso altar!
Com a brisa do mar que trabalha,
És a joia que insiste em brilhar!
Teu progresso reluz no horizonte,
És estância de sonho e de fé,
Tens no peito um futuro tão grande
Quanto as águas que formam a maré!
Avante, Maracangalha querida,
Com força, com voz, com moral!
Teu nome atravessa a vida,
Ecoando no Sul tropical!
Tonico do Pandeiro, já meio alto, sussurrava entre goles:
— Estância? Só se for estância de gado magro… ou de promessa vencida.
No centro do palanque improvisado, o prefeito Agenor Barreto de Melo ajeitava o colarinho com dedos ansiosos e sorria como quem disfarça um cansaço antigo. Falava como quem reza para si mesmo:
— Em breve, minha gente, a orla será realidade! Maracangalha terá seu lugar entre os destinos turísticos do país! Conversamos com investidores, arquitetos renomados… o futuro já começou!
As palmas eram mornas. O povo aplaudia mais por inércia do que por crença. Sob a sombra de um tamarindeiro, alguns batiam palmas devagar, como quem espanta moscas. Um menino arrastava um carrinho de plástico pelas rachaduras da calçada. Uma senhora cochichava com a vizinha:
— De novo esse discurso? Parece fita rebobinada.
À distância, quase invisível, Laura observava. Protegida por uma sombrinha clara, seus olhos escuros, profundos como poço em seca, fixavam-se no pai com uma calma que escondia presságios. Não havia lágrima — havia reserva. Um mar preso na retina, aguardando lua cheia para desaguar.
Ela não sorria. Tampouco franzia a testa. Seu rosto era um altar em silêncio, e nela nada se agitava — ao menos por fora. Os olhos, sim, esses sabiam do mar. Carregavam o gosto do sal mesmo sem vê-lo. Nunca pisara na praia de sua própria cidade.
Na barra da saia, bordado em ponto fino: Ave Maria, cheia de graça. Mas o tecido tremia sob o vento e a graça, naquele instante, parecia mais véu prestes a se desfazer. O bordado não rezava: vacilava.
Ela ouviu a palavra progresso como quem escuta um trovão distante. Vinha seguido de promessas antigas, daquelas que sua mãe recitava entre um terço e outro. Sua mãe, que agora morava só nos retratos, havia lhe ensinado a obedecer — mas não a calar os olhos.
E foi com olhos de ressaca, desses que anunciam tempestade mesmo no tempo aberto, que Laura ficou. No meio da praça, entre palmas mornas e discursos de fachada, ela apenas olhava. E o mar, que ninguém via, parecia soprar só para ela: “Ainda não é hora. Mas vai ser.”




