Maracangalha
Capítulo 02
Por: Paulo Ricardo Zargolin
A casa cheirava a lavanda e saudade. Cortinas brancas, imóveis demais para uma manhã de vento. Havia um silêncio que não era de paz — era de vigília. Tudo ali parecia conter um eco do que já foi: objetos com alma cansada, porcelanas floridas, imagens de santos tão imóveis quanto os retratos na parede.
Cristina, irmã da mãe falecida de Laura, dobrava panos sobre a mesa com a precisão de quem já dobrara a própria juventude e a escondera numa gaveta que não se abre mais. Usava um broche de Nossa Senhora no peito e um pente no coque. Falava baixo, como se a casa escutasse e exigisse modéstia.
— O vestido pra domingo tá quase pronto — disse ela, sem levantar os olhos. — Vai bordado na barra, igual ao da sua mãe no noivado. O azul é casto, mas não é apagado. Plínio vai aprovar.
Laura assentiu com a cabeça, mas era outro o compasso dentro do peito. Sentada junto à janela, bordava sem urgência uma toalhinha com o nome de um santo que já não lembrava por quê. Os dedos, precisos. A linha, tensa. O ponto, manso. Como ela.
— E a moça… quando chega? — perguntou Cristina, como quem encosta numa lembrança que não queria ter.
— Antes do almoço, tia. Ela avisou.
Cristina calou. Apertou os lábios. Fez um gesto de mão que parecia espantar mosca, mas o ar estava limpo. O incômodo não vinha de fora. Era a lembrança de que a “prima postiça”, vinda de São Paulo, traria na bagagem um diploma, sapatos firmes, e ideias que não combinavam com a cerâmica da sala.
— Gente da cidade grande fala muito e reza pouco — soltou, tentando parecer leve. Não era.
Laura bordava. A agulha entrava e saía como quem busca resposta no tecido. Havia calma no gesto, mas também espera. O silêncio entre as duas não era desconfortável — era denso. Carregado. Como o céu antes de uma tempestade.
Em cima da cômoda, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, envolta em manto azul-marinho bordado a ouro, mirava o nada com a mesma doçura de sempre. Inalterável. Intocada.
Laura então murmurou, num fio de voz que nem ela saberia se era prece ou pergunta:
— A senhora já viu o mar, não viu?
Mas não veio resposta. Nem sinal, nem brisa, nem estalo de madeira. Apenas o tilintar distante de um copo sendo enxaguado na pia. Laura permaneceu imóvel, com os olhos fixos na imagem, mas a atenção já voltada para dentro. Não esperava milagre — esperava entender. Aquela pergunta era uma travessia. Um modo de tocar, sem mãos, um sentimento que ainda não tinha nome. E embora nada tivesse sido dito, algo nela se moveu. Porque às vezes o silêncio é uma maré que recua, só pra ganhar fôlego antes de voltar.
No quintal, o varal balançava sem roupa alguma — só o vento pendurado nas cordas. Cristina deu uma última ajeitada nos panos dobrados e, sem olhar para Laura, comentou quase num sopro:
— A moça… é filha de Marta, que foi minha melhor amiga na juventude. Lembro dela menina ainda. Bonita e cheia de mundo nos olhos.
Disse aquilo como quem joga um anzol sem esperar peixe. E, mesmo assim, o silêncio entre elas se espichou, tenso como corda esticada demais.
Lá fora, o céu começava a perder a cor. Uma nuvem inchada vinha se arrastando sobre Maracangalha do Sul com a paciência de quem conhece o tempo. Laura, ainda com a linha presa no dedo, olhou para o alto da estante, onde havia um pequeno rádio desligado. Teve vontade de ligá-lo, mas não o fez. Tinha medo do que viesse — não das notícias, mas das melodias, que, entre outras possibilidades, tendem a anunciar mudanças.




