Lia no país da Logosgrafia
Capítulo 7
Por: Paulo Ricardo Zargolin
A carruagem seguia pelo bairro antigo sem pressa.
Lia continuava encostada à janela, tentando ouvir a voz que, de longe em longe, parecia começar seu nome sem conseguir terminá-lo. Do lado de fora, as casas sépia passavam como páginas velhas de um livro que alguém esquecera aberto. Algumas janelas tinham cortinas apagadas. Algumas portas pareciam nunca ter sido convidadas a se abrir. E, ainda assim, depois da Biblioteca Viva, tudo parecia menos perdido. Ou talvez Lia estivesse olhando diferente.
A Rainha de Zagos permanecia calada.
Isso, por si só, já era um acontecimento.
Uma rainha como aquela não costumava ficar em silêncio por falta de assunto. Quando se calava, era porque alguma frase tinha atravessado a coroa e chegado a um lugar mais perigoso: o pensamento.
Lia apertou as mãos no colo.
— Vossa Majestade?
A Rainha não se virou.
— Sim, menina que faz perguntas enquanto deveria apenas admirar a paisagem?
— Eu posso perguntar uma coisa?
— Você já perguntou se podia perguntar. Isso é um uso muito esperto da pergunta.
Lia respirou fundo. Teve medo de parecer Emília. Sua irmã fazia perguntas como quem abria portas com o joelho, entrava sem pedir licença e ainda reclamava da decoração. Lia não queria ser assim. Queria ser delicada. Mas havia delicadezas que, se ficassem quietas demais, viravam covardia.
— Por que a Biblioteca Viva tem guarda?
A Rainha continuou olhando para a frente.
— Porque é viva.
— Mas as coisas vivas não gostam de respirar?
A soberana piscou.
Congo não estava ali para tossir escondendo uma risada. Dom Logos também não. Alexandre ficara na porta da biblioteca, com sua alegria colorida e seu uniforme real. Mesmo assim, Lia teve a impressão de que todos eles escutavam de algum modo.
— Bibliotecas precisam de cuidado — disse a Rainha.
— Cuidado é diferente de distância.
A Rainha virou o rosto lentamente.
— Lia.
Havia advertência em sua voz. Mas havia também curiosidade.
— Eu só estou pensando — continuou a menina. — Se os cidadãos de Zagos pudessem entrar, talvez aprendessem a encontrar palavras. E, encontrando palavras, talvez colorissem o bairro.
— E, colorindo o bairro, poderiam desejar mais.
— Talvez.
— Poderiam desejar escrever.
— Sim.
— Poderiam desejar ser logosgrafistas.
Lia sustentou o olhar da Rainha.
— Sim.
A palavra ficou pequena e enorme dentro da carruagem.
A Rainha fechou o leque sobre o colo.
— Você gostou de ser especial?
Lia olhou para o vidro. Seu reflexo apareceu misturado às ruas antigas. Por um instante, viu a menina do retrato. Por outro, viu apenas uma criança cansada, cheia de perguntas, querendo entender por que a alegria de ser escolhida também podia doer.
— Gostei — respondeu. — Gostei muito.
A Rainha pareceu satisfeita.
— Então?
— Mas eu acho que seria mais bonito se a galeria tivesse paredes infinitas.
A carruagem balançou sobre uma pedra.
Ou talvez o mundo tivesse tropeçado na frase.
A Rainha encarou Lia por alguns segundos. Depois olhou outra vez para fora. Havia uma mulher recolhendo roupas sem cor de um varal quase sem vento. Um menino arrastava um graveto pelo chão, riscando desenhos que desapareciam antes de ficarem prontos. Um velho sentado à porta parecia olhar para lugar nenhum, como se já tivesse desaprendido a esperar.
— Paredes infinitas — repetiu a Rainha.
Lia não disse mais nada.
Dessa vez, deixou que a pergunta trabalhasse sozinha.
A Rainha respirou fundo, como quem estava prestes a decretar algo contra uma parte antiga de si mesma.
— Está bem.
Lia arregalou os olhos.
— Está?
— Não me obrigue a repetir antes que eu desista.
A menina sorriu.
— Os cidadãos poderão entrar?
— Poderão frequentar a Biblioteca Viva de Zagos, desde que não tratem os livros como almofadas, não interrompam os vitrais durante o brilho e não confundam liberdade com algazarra.
— Isso é um decreto?
— Naturalmente. Tudo o que eu digo com dignidade vira decreto.
Lia quis rir, mas sentiu uma emoção maior que a graça. O bairro, lá fora, parecia ter escutado. Nada mudou de uma vez. Nenhuma fachada explodiu em arco-íris. Nenhuma rua virou festa. Mas havia, em certas frestas, uma claridade pequena, como se a cor estivesse ensaiando voltar.
— Obrigada, Majestade.
— Não agradeça tanto. Ainda estou incomodada.
— Por quê?
— Porque você me fez perceber que um reino muito obediente pode estar apenas mal iluminado.
Lia guardou a frase.
Algumas frases eram assim: não pediam resposta, pediam morada.
A Rainha ajeitou a coroa e, pela primeira vez desde que deixaram a biblioteca, sua expressão ficou menos dura.
— Agora feche os olhos.
Lia estranhou.
— Por quê?
— Porque você precisa voltar.
A palavra atravessou a menina como um frio.
Voltar.
Ela queria. E não queria. Queria Sofia. Queria Hugo. Queria Emília perguntando demais. Queria Alice fingindo que não acreditava em nada enquanto prestava atenção em tudo. Queria casa. Queria o mundo conhecido. Mas também queria a biblioteca, Congo, Alexandre, Dom Logos, os vitrais, a Rainha impossível, a galeria onde seu retrato ficaria pequeno, colorido, incompleto e vivo.
— Eu vou esquecer?
A Rainha desviou o olhar.
— Isso depende menos de mim do que eu gostaria.
— Eu posso voltar?
— Quem foi escrito na galeria nunca sai completamente daqui.
Lia sentiu os olhos arderem.
— Então por que eu preciso ir?
A Rainha aproximou-se um pouco. Não o bastante para parecer carinhosa. O bastante para parecer verdadeira.
— Porque os cidadãos de Zagos agora poderão frequentar a Biblioteca Viva. Mas o mundo de fora também precisa saber que este país existe.
— Eu tenho que contar?
— Tem que prestar atenção.
— À voz?
A Rainha ficou séria.
— À voz.
Lia engoliu seco.
Lá longe, muito longe, alguma coisa tentou chamá-la outra vez.
Li…
Só a primeira sílaba.
Só o começo do caminho.
— Feche os olhos — disse a Rainha, mais baixo. — E, desta vez, escute até o fim.
Lia obedeceu.
Primeiro ouviu as rodas da carruagem.
Depois, o sopro dos vitrais ficando distante.
Depois, o murmúrio dos livros.
Depois, uma risada que podia ser de Congo.
Depois, o silêncio de Dom Logos.
Depois, o reino inteiro respirando como uma página antes de ser virada.
E então a voz chegou.
— Lia!
A menina abriu os olhos.
Estava atrás do palco.
Por alguns segundos, não entendeu onde terminava o País da Logosgrafia e onde começava a prainha da cidade. Havia cabos no chão, uma lona presa de qualquer jeito, cadeiras de plástico ao longe, o cheiro de comida de festa, vozes atravessadas, o rio fingindo ser mar e o microfone chiando como se nada extraordinário tivesse acontecido.
Mas tinha acontecido.
Lia estava escondida atrás de uma estrutura de madeira, olhando pela fresta.
Do outro lado, Sofia a procurava com os olhos aflitos.
— Lia! Lia, pelo amor de Deus!
A menina tentou responder, mas a voz falhou por um segundo, como se ainda estivesse atravessando o portal de volta.
— Mãe?
Sofia virou-se imediatamente.
— Lia!
Em poucos passos, estava junto dela. Abaixou-se, segurou seu rosto, seus braços, seus ombros, como quem precisava conferir se a filha ainda era inteira.
— Onde você estava, menina? Eu já procurei atrás das barracas, perto do rio, na lateral do palco… Você sumiu!
Lia olhou ao redor, confusa.
— Eu… eu fui…
Antes que terminasse, Hugo Monteiro apareceu.
Não estava mais no palco. Sem microfone, parecia menor e mais pai. Ainda trazia no rosto o cansaço de quem havia falado para uma cidade inteira, mas os olhos eram só de quem procurava a filha.
— Lia! Onde você estava metida?
A pergunta veio firme, mas a voz entregava saudade antes mesmo da bronca.
Emília surgiu logo atrás, ofegante, com Alice ao lado.
— Eu falei que ela tinha ido fazer mistério! — disse Emília. — Lia adora ficar com cara de quem descobriu alguma coisa.
— Ela não adora, Emília — corrigiu Alice. — Ela só fica assim quando descobre mesmo.
Sofia abraçou Lia com força.
— Nunca mais faça isso.
Lia ficou quieta por um instante, sentindo o calor da mãe, o olhar do pai, a impaciência das irmãs, o barulho da cidade. Tudo era familiar demais. E, justamente por isso, parecia novo.
Hugo se ajoelhou diante dela.
— Filha, onde você estava?
Lia olhou para ele.
A frase veio simples.
Como se sempre tivesse estado pronta.
— No País da Logosgrafia.
Emília abriu a boca.
Depois fechou.
Depois abriu de novo, agora com alegria.
— Ah, pronto! Eu sabia! Ela sumiu e voltou inventando reino!
Alice cruzou os braços.
— País da Logosgrafia parece nome de lugar onde as pessoas têm prova de português todos os dias.
— Não é prova — disse Lia, séria. — É outra coisa.
Sofia ainda estava pálida.
— Lia, meu amor…
Mas Hugo não riu.
Ele olhou para a filha com atenção. A mesma atenção com que, minutos antes, no palco, falava sobre palavras que abrem caminhos. Havia nele uma expressão que Lia conhecia pouco: a de adulto que, por um segundo, não tem certeza se deve explicar o mundo ou pedir explicações a ele.
— Coisa séria — disse Hugo.
Emília arregalou os olhos.
— Pai!
— Estou falando sério.
— Você acredita?
Hugo passou a mão pelos cabelos de Lia, ainda ajoelhado.
— Eu acredito que algumas crianças voltam de certos lugares com palavras que não tinham antes.
Lia sentiu vontade de contar tudo de uma vez. A Rainha de Zagos. Dom Logos. Congo. Alexandre. A Biblioteca Viva. A Galeria dos Logosgrafistas. O bairro sépia. As paredes infinitas. A voz. Mas as palavras eram muitas, e ela ainda estava aprendendo a carregá-las sem derrubar nenhuma.
Sofia respirou fundo, tentando recuperar a calma.
— Vamos para casa. Depois você conta essa história com calma.
— Eu estou com fome — disse Emília.
— Você sempre está com fome — respondeu Alice.
— E você sempre acha isso uma informação científica.
Hugo sorriu, aliviado. Sofia segurou a mão de Lia como se não pretendesse soltá-la tão cedo.
Foram saindo da lateral do palco, misturados às pessoas que ainda comentavam o sarau, os poemas, a fala de Hugo, o chiado do microfone e a menina que, por alguns minutos, ninguém encontrara. Para os outros, Lia talvez tivesse apenas se escondido. Talvez tivesse se distraído. Talvez tivesse dado um susto na família.
Para Lia, o mundo tinha ganhado uma porta secreta.
No caminho para casa, Hugo sugeriu que parassem em uma pequena torteria perto da praça. Sofia hesitou, mas Emília comemorou como se o jantar tivesse sido decidido por aclamação popular. Alice disse que não fazia questão, embora tenha sido a primeira a olhar o cardápio colado no vidro.
A torteria era estreita e iluminada. Tinha mesas pequenas, toalhas floridas e um expositor de vidro onde as tortas repousavam com a solenidade de obras importantes. Havia torta de limão, torta de morango, torta de chocolate, torta de maçã com canela e uma torta verde, brilhante, quase impossível, colocada no centro como se esperasse alguém.
Emília encostou o rosto no vidro.
— Torta do Pensamento Verde! — gritou.
Lia gelou.
Sofia riu, sem entender.
— Que nome bonito.
Hugo ficou em silêncio.
Lia aproximou-se devagar.
No expositor, a torta parecia feita de maçãs verdes, creme luminoso e alguma coisa que não cabia em receita. Havia, diante dela, uma plaquinha escrita à mão:
Torta do Pensamento Verde
Antes que Lia conseguisse dizer qualquer coisa, uma mulher saiu de trás do balcão.
— Boa noite, família. Mesa para cinco?
Lia levantou os olhos.
A dona da torteria sorria com educação.
Tinha o rosto da Rainha de Zagos.
Não parecido.
O rosto.
Só que sem coroa, sem vestido majestoso, sem leque e sem aquela expressão de quem podia mandar decapitar uma vírgula mal colocada. Usava avental, brincos pequenos e trazia farinha nas mãos.
Mas era ela.
Ou quase ela.
A mulher olhou para Lia por um segundo a mais.
Um segundo pequeno.
Colorido.
Incompleto.
Vivo.
— Você parece cansada, menina — disse a dona da torteria. — Talvez precise de uma fatia.
Lia não respondeu.
Atrás dela, Emília cochichou:
— Lia, por que você ficou com essa cara?
Hugo Monteiro olhou para a torta. Depois para a mulher. Depois para a filha.
E sorriu como quem acabava de entender que algumas histórias não terminam quando a gente volta para casa.
Lia segurou mais forte a mão de Sofia.
Lá fora, o rio continuava fingindo ser mar.
Lá dentro, a Torta do Pensamento Verde brilhava no expositor.
E, em algum lugar que talvez fosse longe, talvez fosse perto, talvez fosse dentro dela, uma biblioteca viva abria suas portas pela primeira vez.
Mini Dicionário Logosgráfico
Logosgrafia
substantivo feminino
Arte, gesto ou acontecimento de escrever sentidos no mundo por meio das palavras, das imagens, das memórias e das perguntas que transformam aquilo que parecia comum em experiência encantada.
No País da Logosgrafia, é também o nome do próprio lugar onde as palavras vivem, respiram, abrem portas e dão cor às coisas.





