Logosgrafista

Lia no país da Logosgrafia

Capítulo 6

Por: Paulo Ricardo Zargolin

A carruagem não respondeu pela Rainha.

Seguiu.

Isso, Lia já começava a entender, era um jeito muito monárquico de continuar uma conversa sem dar satisfação a ninguém. A soberana havia prometido um passeio, mostrara um pomar capaz de revelar cores quando alguém o definia sem empobrecê-lo, permitira que Dom Logos aparecesse solenemente sobre uma ponte como se minhocas pontífices fossem acontecimentos normais da paisagem, aceitara — ou quase aceitara — que Lia tivesse sido escolhida para uma galeria misteriosa, e agora permanecia em silêncio, sentada de frente para a menina, com a expressão de quem guardava muitas respostas e pretendia distribuir apenas as necessárias, em doses pequenas, irritantes e provavelmente perigosas.

Lia olhava pela janelinha.

A estrada, antes cinzenta, parecia ter aprendido alguma coisa com o Pomar da Esperança. Sim, ela já chamava assim, embora ninguém lhe tivesse dito o nome. Talvez porque algumas coisas chegassem ao pensamento antes de chegarem oficialmente à boca. A poeira ainda era escura, as pedras ainda eram antigas, os cavalos ainda puxavam a carruagem com dignidade triste, mas havia reflexos novos nos cantos do caminho. Pequenas cores teimosas apareciam entre rachaduras, telhas, folhas e sombras, como se o reino inteiro estivesse acordando devagar para não assustar a si mesmo.

A Rainha percebeu seu olhar.

— Não se acostume — disse.

— Com o quê?

— Com a beleza. Ela tem péssimo hábito de criar expectativas.

Lia sorriu.

— A senhora fala como se não gostasse.

— Eu gosto de coisas controláveis.

— Cor não parece muito controlável.

— Exatamente por isso é inconveniente.

A carruagem dobrou uma esquina.

E o mundo mudou de novo.

Não ficou cinza.

Também não ficou vivo como o pomar.

Era outro tipo de cor.

Tudo ali parecia colorido, mas envelhecido. As casas tinham tons de mel antigo, cobre gasto, vermelho desbotado, azul triste, verde de fotografia guardada por muito tempo entre páginas de livro. A luz parecia atravessar uma lembrança antes de tocar as paredes. Um filtro sépia repousava sobre o bairro inteiro, não como sujeira, mas como uma espécie de saudade organizada.

Lia aproximou o rosto da janela.

— Aqui é diferente.

A Rainha não respondeu de imediato.

A carruagem avançava por ruas estreitas, ladeadas por prédios altos e silenciosos. Alguns tinham sacadas de ferro retorcido. Outros, portas enormes com brasões apagados. Havia placas sem letras, fontes sem água, relógios parados em horas que talvez tivessem sido importantes demais para continuar passando.

— É o bairro mais antigo do reino — disse a Rainha, por fim. — Quase tudo aqui lembra demais.

— Lembra o quê?

— Depende de quem pergunta.

Lia continuou olhando.

Então viu.

No meio daquela velhice dourada, um prédio se destacava como se tivesse recusado envelhecer do mesmo jeito. Era alto, largo, de pedra clara, com torres pequenas, arcos profundos e enormes vitrais coloridos. Não coloridos como as casas ao redor, cansados pelo tempo. Coloridos de verdade. Vivos. Verdes intensos, azuis luminosos, vermelhos quase sonoros, amarelos que pareciam rir sem pedir licença. A luz atravessava os vitrais e caía sobre a rua em manchas brilhantes, como se alguém tivesse quebrado um arco-íris em pedaços organizados.

A carruagem parou diante dele.

Lia desceu primeiro, sem perceber que estava segurando a respiração.

A Rainha desceu em seguida, ajeitando a roupa com a dignidade de quem acreditava que até o vento deveria aguardar autorização antes de tocar sua gola.

Diante da porta, havia um guarda.

Mas não era como os outros.

Tinha o mesmo porte real, a mesma postura treinada, o mesmo uniforme de guarda do castelo. Só que nele as cores estavam vivas. A armadura tinha detalhes dourados, a capa trazia um azul profundo, as botas brilhavam, e o rosto, em vez daquele tédio burocrático dos guardas de Zagos, exibia uma alegria franca, quase insolente de tão rara.

Quando viu a Rainha, inclinou-se com entusiasmo.

Entusiasmo.

Lia quase olhou em volta para ver se alguém prendia a palavra.

— Majestade! — disse ele. — Que honra recebê-la. A biblioteca estava inquieta desde cedo.

— Bibliotecas vivas costumam fazer drama antes de visitas importantes — respondeu a Rainha.

— E antes das visitas atrasadas também.

A Rainha estreitou os olhos.

O guarda sorriu sem medo.

Isso impressionou Lia mais do que a armadura colorida.

— Cuidado, Alexandre.

— Sempre, Majestade.

A Rainha passou por ele, mas, antes de entrar, disse com uma naturalidade que Lia jamais teria esperado dela:

— Obrigada, Alexandre.

Lia arregalou os olhos.

A Rainha de Zagos sabia o nome de um guarda.

E agradecia.

Talvez aquele prédio fosse mesmo muito perigoso.

Alexandre abriu as portas.

Elas não rangeram.

Cantaram.

Não uma música inteira, dessas que se podem repetir depois. Foi apenas um acorde breve, profundo, como se a madeira reconhecesse quem entrava. Lia deu um passo para dentro e sentiu que o ar mudava. Lá fora, o bairro parecia lembrança envelhecida. Lá dentro, tudo parecia memória em movimento.

Era uma biblioteca.

Mas não uma biblioteca comum.

As estantes se erguiam até alturas impossíveis, cheias de livros de lombadas coloridas, grossas, finas, tortas, brilhantes, opacas, algumas com títulos que mudavam quando Lia tentava ler depressa demais. Escadas deslizavam sozinhas entre corredores. Páginas viravam sem mãos. Pequenas luzes atravessavam o ar como vaga-lumes instruídos. Havia mesas de leitura, globos, mapas enrolados, retratos cobertos por panos, tinteiros antigos, penas, caixas, sinos silenciosos e plantas crescendo dentro de vasos feitos de dicionários aposentados.

Lia ouviu um murmúrio.

Não vinha de pessoas.

Vinha dos livros.

Uns cochichavam. Outros suspiravam. Alguns pareciam discutir baixinho. Um volume muito grosso tossiu em latim, embora Lia não soubesse latim e, mesmo assim, tivesse certeza de que a tosse era em latim.

— Uma biblioteca… — começou ela.

A Rainha olhou de lado.

Lia respirou.

— Uma biblioteca logosgráfica?

A Rainha não sorriu.

Mas também não corrigiu.

— Arriscada definição — disse. — Não totalmente imprecisa.

Lia entendeu que, vindo dela, aquilo era quase uma salva de palmas.

Alexandre caminhou à frente, conduzindo-as por um corredor amplo. Enquanto passavam, alguns livros se inclinavam levemente, como se fizessem reverência. Outros se afastavam, tímidos. Um livro pequeno, de capa verde, tentou pular para as mãos de Lia, mas Alexandre o segurou no ar com delicadeza.

— Agora não, Pequenas Desobediências de Bolso. A visita ainda não chegou ao setor adequado.

O livro pareceu ofendido.

A Rainha murmurou:

— Ele sempre foi inconveniente.

— O livro? — perguntou Lia.

— Alexandre.

O guarda ouviu e respondeu, sem olhar para trás:

— Considero um elogio institucional, Majestade.

— Considere em silêncio.

— Sim, Majestade. Silêncio colorido ou silêncio padrão?

A Rainha respirou fundo.

Lia mordeu o lábio para não rir.

Chegaram a uma grande sala circular.

No alto, os vitrais filtravam a luz em faixas intensas que caíam sobre o chão de mármore como páginas coloridas. No centro, havia uma mesa redonda com livros abertos. Ao redor, poltronas de veludo, escadas, bustos, vasos e pequenos pedestais vazios. Mas o que tomou o olhar de Lia foi a parede.

Ou melhor: as paredes.

Todas estavam cobertas por quadros.

Eram retratos.

Muitos.

Homens, mulheres, meninos, meninas, jovens, adolescentes, idosos. Pessoas de muitos rostos, muitas roupas, muitas épocas. Alguns pareciam sérios. Outros, risonhos. Havia quem olhasse para frente como se encarasse o próprio destino. Havia quem parecesse prestes a sair da moldura para terminar uma frase interrompida. Havia retratos tão antigos que a moldura parecia mais nova do que o olhar. Havia retratos tão coloridos que o bairro sépia lá fora parecia ainda mais distante.

Lia sentiu uma coisa estranha.

Não parecia estar diante de uma galeria de mortos.

Parecia estar diante de uma assembleia de presenças.

Os quadros não se mexiam exatamente. Mas também não estavam parados como quadros comuns. Tinham uma vibração discreta, um brilho interno, como as frutas antes de serem definidas. Cada retrato guardava uma cor que não era apenas tinta. Era história condensada.

— Quem são eles? — perguntou Lia, quase sussurrando.

A Rainha demorou a responder.

— Logosgrafistas.

A palavra atravessou a sala como se todos os livros tivessem ouvido.

Alguns retratos pareceram brilhar um pouco mais.

Lia deu um passo.

— Todos?

— Todos que mereceram ser lembrados assim.

— E o que eles fizeram?

A Rainha olhou para a parede.

Por alguns segundos, sua voz perdeu o tom de decreto.

— Não fizeram a mesma coisa. Esse é o problema das pessoas realmente importantes. Elas raramente obedecem a uma categoria limpa. Alguns escreveram. Outros pintaram. Alguns cuidaram de crianças. Outros salvaram palavras quase mortas. Houve quem inventasse jogos, quem guardasse memórias, quem transformasse dores em imagens, quem ensinasse um povo a se ouvir, quem desse nome ao que todos sentiam e ninguém conseguia dizer.

Lia ficou calada.

A Rainha voltou a vestir a dureza.

— Em resumo: gente perigosa.

— Por mudarem as coisas?

— Porque faziam os outros perceberem que as coisas podiam ser mudadas.

Antes que Lia pudesse perguntar mais, ouviu-se um barulho de página virada.

Lento.

Teatral.

Como se alguém esperasse ser notado.

Numa poltrona verde-escura, perto de uma estante baixa, havia um chimpanzé.

Sentado.

De pernas cruzadas.

Usava um colete vinho, gravata borboleta torta, óculos redondos na ponta do nariz e segurava um livro grande demais para qualquer leitor que não gostasse de aparecer lendo. A capa dizia, em letras douradas:

A História dos Logosgrafistas.

O chimpanzé ergueu os olhos.

— Sou Congo, madames! — anunciou, com uma reverência tão elegante quanto impossível. — Dom Logos me convocou para recebê-las.

Lia abriu a boca.

Fechou.

Abriu de novo.

A Rainha foi mais rápida:

— Congo.

— Majestade.

— Espero que a convocação de Dom Logos não tenha vindo acompanhada de espetáculo.

Congo colocou a mão no peito.

— Majestade, eu jamais faria espetáculo em uma biblioteca viva.

A Rainha estreitou os olhos.

— Congo.

— No máximo, uma manifestação estética moderadamente necessária.

Lia soltou um riso pequeno.

Congo apontou para ela, satisfeito.

— Vê? A menina compreende a diferença.

— A menina acabou de recuperar a voz — disse a Rainha. — Não a incentive a desperdiçá-la com aprovações equivocadas.

Congo fechou o livro, mas manteve um dedo entre as páginas, como se a própria história pudesse fugir se ele não segurasse.

— Então é ela.

Lia sentiu o rosto esquentar.

— Eu?

— A coloridíssima causadora do incidente frutífero.

A Rainha cruzou os braços.

— Não chame de incidente.

— Prefere milagre botânico?

— Também não.

— Evento interpretativo de repercussão vegetal?

— Congo.

— Entendido. O feito no Pomar da Esperança.

Lia olhou para a Rainha.

— Eu sabia que era esse o nome.

A soberana fingiu não ouvir.

Congo se levantou da poltrona com uma agilidade elegante. Era menor do que Lia imaginara quando o vira sentado, mas sua presença parecia ocupar a sala inteira. Caminhou até uma mesa lateral onde havia pincéis, tintas, panos, frascos e uma moldura vazia coberta por tecido branco.

Lia olhou para a moldura.

O coração dela tropeçou.

— É para mim?

A Rainha respondeu antes de Congo:

— Ainda não.

Congo ergueu um dedo.

— Tecnicamente, Majestade…

— Não comece frases com “tecnicamente” perto de mim. Já tenho um conselheiro para isso, e ele me basta como castigo administrativo.

Congo sorriu.

— Pois então começarei com “historicamente”.

— Piorou.

O chimpanzé inclinou-se com irreverência respeitosa.

— Vossa Majestade queira me desculpar, mas Dom Logos foi bastante claro. A menina deve ser retratada.

A Rainha olhou para a moldura vazia.

Dessa vez, Lia percebeu.

A preocupação voltou.

Não era irritação. Não era ciúme. Não era vontade de contrariar Dom Logos apenas por esporte — embora a Rainha provavelmente gostasse disso também. Era algo mais fundo. Mais difícil. A soberana ficou séria de uma maneira que fez até os livros diminuírem os cochichos.

— Dom Logos se precipita — disse ela. — Eternizar alguém nesta galeria não é pendurar uma pintura na parede. É escrever uma pessoa na memória do país.

A palavra país saiu sem nome.

Pesada.

Lia ficou pequena dentro dela.

— Eu não pedi retrato nenhum, Majestade.

A Rainha olhou para ela.

E respondeu quase baixo:

— Justamente por isso talvez mereça um.

Congo não interrompeu de imediato.

Aguardou.

Esse era seu jeito de respeitar: ficar quieto tempo suficiente para que a autoridade pensasse que ainda comandava a cena.

Depois abriu o livro.

— Vossa Majestade queira me desculpar — disse, erguendo o volume com cuidado —, mas o país inteiro já soube do feito no Pomar da Esperança. A linda menina fez em segundos o que nenhum outro logosgrafista conseguiu fazer em tentativas densas e longas.

A Rainha virou o rosto devagar.

— Escolha com cuidado a próxima página.

— Sempre escolho, Majestade. O problema é que algumas páginas também me escolhem.

Ele abriu o livro sobre uma mesa. As folhas eram grossas, amareladas e cheias de letras móveis. Havia pequenas ilustrações nas margens. Algumas pareciam se redesenhar enquanto Lia olhava.

Congo apontou.

— Tentativa de Aureliano das Sete Metáforas. Quarenta e três dias diante do pomar. Resultado: três ameixas levemente nostálgicas e uma pera com crise de identidade.

Lia arregalou os olhos.

— Uma pera pode ter crise de identidade?

A Rainha respondeu:

— Naquele dia, infelizmente, pôde.

Congo virou a página.

— Tentativa de Celina Maviosa. Vinte e nove manhãs. Resultado: folhas comovidas, raízes sensibilizadas e nenhum fruto plenamente colorido.

Mais uma página.

— Tentativa coletiva da Ordem dos Definidores Prudentes. Seis meses, doze atas, vinte e oito pareceres, quatro subcomissões, um relatório preliminar e uma comissão revisora.

— Resultado? — perguntou Lia.

Congo olhou para a Rainha.

A Rainha suspirou.

— O pomar entrou em greve interpretativa.

Lia tentou não rir.

Não conseguiu completamente.

Congo virou o livro para ela. Na página, havia um desenho do pomar cinzento cercado por figuras muito sérias segurando papéis. Embaixo, uma legenda mudava de frase, como se ainda estivesse brava com o assunto.

— E então — continuou Congo — chega Lia de si mesma. Olha para as árvores e diz: “um sarau de sabores de dúvidas”. Não pede ata. Não funda comissão. Não transforma o fruto em conceito morto antes de mordê-lo com os olhos. Apenas define. E o pomar faz o que não fazia há gerações: lembra-se das próprias cores.

A sala ficou em silêncio.

Um silêncio diferente daquele do castelo. Não era medo. Era reconhecimento.

Alguns retratos pareceram inclinar-se levemente na parede.

A Rainha percebeu.

— Ela é uma criança — disse de novo.

Mas dessa vez a frase não parecia objeção.

Parecia proteção.

Congo fechou o livro com delicadeza.

— Algumas crianças, Majestade, ainda não tiveram tempo de aprender a empobrecer o mundo com definições pobres.

A frase ficou no ar.

Lia sentiu que já a ouvira de outro modo, em outro lugar, talvez dentro do próprio pomar.

A Rainha caminhou até a parede dos retratos.

Passou diante de rostos coloridos, antigos, jovens, atentos. Um homem de barba azulada pareceu acompanhá-la com os olhos. Uma menina de tranças verdes sorriu quase nada. Um senhor de chapéu lilás pareceu cochichar com a moldura vizinha. A Rainha parou diante de um espaço vazio.

Havia ali uma moldura preparada.

Não era grande demais.

Não era pequena.

Era do tamanho exato de uma pergunta importante.

Lia aproximou-se devagar.

— Se eu for pintada… eu fico presa aqui?

A Rainha virou-se imediatamente.

— Não.

Foi uma resposta rápida demais para ser apenas informação.

Congo completou, mais suave:

— A galeria não prende, minha jovem. Guarda. E há uma diferença imensa entre ser guardado e ser capturado.

— Mas a Rainha disse que é escrever uma pessoa na memória do país.

— Exato — disse Congo. — E memórias verdadeiras não são gaiolas. São janelas que aprenderam a durar.

Lia olhou para a moldura vazia.

— Eu não sei se sou logosgrafista.

Congo se aproximou.

— Excelente começo.

— Como assim?

— Os piores logosgrafistas são os que chegam dizendo que são. Os melhores geralmente estão ocupados demais escutando o mundo para preencher o próprio crachá.

A Rainha murmurou:

— Em algum momento, essa biblioteca ficou tolerante demais.

Alexandre, ainda perto da porta, disse:

— Acontece com lugares bem iluminados, Majestade.

— Alexandre.

— Silenciando, Majestade.

Mas sorria.

Congo pegou um pincel.

Não era um pincel comum. Tinha cabo escuro, ponta clara e uma pequena pedra verde presa à extremidade. Quando ele o mergulhou no primeiro frasco de tinta, a cor não grudou nas cerdas. Acordou.

— A pintura da galeria não copia rostos — explicou Congo. — Seria pouco. Ela tenta alcançar aquilo que o rosto ainda não sabe dizer.

Lia engoliu seco.

— Isso dói?

— Só em pessoas excessivamente vaidosas.

A Rainha ergueu uma sobrancelha.

Congo acrescentou depressa:

— Naturalmente, Vossa Majestade jamais sentiria nada.

— Melhor.

Ele apontou para uma cadeira diante da moldura vazia.

— Sente-se, Lia de si mesma.

Lia sentou.

A cadeira era confortável demais para uma coisa tão séria. Seus pés não alcançavam totalmente o chão. Isso a fez lembrar, de repente, que ainda era criança. Não uma heroína pronta. Não uma sábia antiga. Não uma jogadora perfeita. Apenas Lia, com saudade da mãe, da irmã que perguntava demais, da irmã que fingia não se importar e do mundo onde rios fingiam ser mar.

A Rainha percebeu a mudança no rosto dela.

— Quer desistir?

Lia olhou para a moldura.

Depois para a Rainha.

Depois para Congo.

Depois para os retratos.

— Eu posso?

A Rainha hesitou.

Congo respondeu:

— Pode.

A sala inteira pareceu se surpreender com a simplicidade.

— Toda escolha logosgráfica precisa continuar sendo escolha — disse o chimpanzé. — Do contrário, vira decoração de poder.

A Rainha ficou séria.

Talvez tivesse gostado da frase.

Talvez tivesse odiado justamente por gostar.

Lia respirou fundo.

— Eu não quero desistir.

A Rainha olhou para ela com uma atenção quase triste.

— Você entende o que isso significa?

— Não.

— E mesmo assim aceita?

— Dom Logos disse que eu entenderia fazendo.

Congo sorriu.

— Ah, ele anda usando minhas melhores frases.

— Dom Logos não usa frases alheias — disse a Rainha. — Ele as atravessa com solenidade e finge que nasceram do outro lado.

Uma risadinha correu pela sala.

Não de pessoas.

De livros.

Congo ergueu o pincel.

— Então começaremos.

A primeira pincelada não tocou a tela.

Tocou o ar.

Uma linha verde surgiu diante da moldura, suspensa por um segundo, e depois se assentou no tecido como se sempre tivesse pertencido ali. A segunda pincelada trouxe um azul discreto, parecido com a margem do rio da prainha quando queria parecer mar. A terceira trouxe um amarelo-pergunta. A quarta, um lilás-quase-resposta. Lia reconheceu as cores do portal. Não iguais. Reorganizadas.

Congo pintava rápido e devagar ao mesmo tempo.

Os gestos eram ágeis, mas cada cor parecia escolher seu próprio ritmo para aparecer. No retrato, primeiro surgiu o contorno de Lia. Depois o vestido, ainda marcado pelas cores da travessia. Depois as mãos, pequenas, com reflexos do pomar. Depois os olhos.

Quando Congo chegou aos olhos, parou.

— Aqui mora o problema — disse.

Lia ficou tensa.

— Que problema?

— Seus olhos ainda estão em dois mundos.

A Rainha desviou o olhar para os vitrais.

— É natural.

— É raro — corrigiu Congo.

— Nem tudo que é raro deve ser celebrado.

— Concordo, Majestade. Algumas raridades devem ser cuidadas antes de serem celebradas.

A Rainha não respondeu.

Congo escolheu uma tinta que não estava em nenhum frasco. Apenas estendeu a mão, e uma pequena cor apareceu entre seus dedos. Era verde, mas também parecia saudade. Era dourada, mas também parecia susto. Era azul, mas também parecia chamado.

— Pense em casa — pediu.

Lia fechou os olhos.

Pensou em Sofia.

Pensou em Emília fazendo perguntas que nem os portais saberiam responder.

Pensou em Alice fingindo que não estava preocupada.

Pensou no palco, no cartaz, no microfone chiando, em Hugo Monteiro dizendo que certas coisas só começam a existir quando encontram palavras.

Pensou na fresta.

Pensou na maçã.

Pensou na Rainha dizendo “coloridinha” como se fosse bronca, apelido e cuidado ao mesmo tempo.

Pensou no Dr. Coruja, nas pílulas logosgráficas, na voz voltando pequena, redonda, viva.

Pensou no pomar acordando.

Quando abriu os olhos, Congo já havia pintado.

O retrato olhava de volta.

Lia não parecia maior do que era. Isso a aliviou. Não parecia uma princesa, nem uma guerreira, nem uma santa de vitral. Parecia Lia. Mas havia, ao redor dela, uma luz que não vinha de fora. As cores do vestido não gritavam. Conversavam. Nos olhos, havia uma fresta. Atrás dela, quase invisível, uma maçã verde desenhada no ar. E, muito ao fundo, em traços delicados, uma ponte.

— Está bonito — disse Lia, baixinho.

Congo inclinou-se.

— Bonito é a parte menos importante. Mas aceito como começo.

A Rainha se aproximou.

Por um instante, olhou para o retrato sem máscara alguma.

Depois falou:

— Faltou insolência.

Lia virou-se, preocupada.

— Faltou?

Congo estalou os dedos.

— Tem razão.

Deu uma pincelada minúscula no canto da boca pintada.

A Lia do retrato ganhou um quase sorriso.

A Rainha aprovou com um gesto curto.

— Agora sim. Irritantemente parecido.

Alexandre bateu palmas uma vez, emocionado.

A Rainha olhou para ele.

— Não exagere.

— Foi apenas uma palma, Majestade.

— Uma palma já é metade de uma aclamação.

— Guardarei a outra metade para ocasião regulamentar.

Lia riu.

E, quando riu, alguns retratos brilharam.

A parede inteira pareceu respirar.

Congo recuou dois passos e observou sua obra. Depois pegou uma pequena placa vazia, daquelas que ficam sob quadros. Mergulhou uma pena num tinteiro e escreveu:

Lia de si mesma

Parou.

Olhou para a Rainha.

— E abaixo?

A Rainha respondeu:

— Nada.

Congo ergueu as sobrancelhas.

— Nada?

— Nada. Ainda.

Lia olhou para a placa.

— Ainda?

A Rainha se virou para ela.

— Um logosgrafista não cabe inteiro no primeiro nome que recebe. Nem no primeiro retrato. Nem no primeiro feito.

Congo sorriu.

— Majestade, essa frase foi quase generosa.

— Retire o “quase” e eu mando apagar.

— Como desejar.

Lia se levantou.

Caminhou até o próprio retrato.

Não o tocou. Teve medo de borrar alguma coisa que talvez não fosse tinta. Mas chegou perto o bastante para perceber que a Lia da tela parecia respirar de leve. Não como uma pessoa presa. Como uma lembrança viva.

— Então agora eu sou logosgrafista?

Congo ajeitou os óculos.

— Agora você foi reconhecida como uma.

— Qual é a diferença?

— Ser, às vezes, começa antes. O reconhecimento costuma chegar atrasado, vestindo roupa formal e fingindo que chegou na hora.

A Rainha comentou:

— Congo aprendeu filosofia com livros que não conseguiram fugir dele.

— E Vossa Majestade aprendeu ternura com portas trancadas que acabaram abrindo.

O ar congelou.

Alexandre olhou para os vitrais.

Os livros fingiram que não estavam escutando.

Lia prendeu a respiração.

A Rainha encarou Congo por tempo suficiente para uma estátua pedir licença e sair da sala.

Depois disse:

— Você continua vivo porque pinta bem.

— Sou grato ao meu talento, Majestade.

A tensão se desfez.

Mas Lia percebeu algo. A Rainha não tinha negado.

Congo cobriu o livro A História dos Logosgrafistas com cuidado e o entregou a Alexandre, que o recebeu como quem segurava uma criança antiga.

— Dom Logos virá? — perguntou a Rainha.

— Ele disse que não.

— Naturalmente. Aparece quando não é chamado e desaparece quando é indispensável.

— Ele alegou compromissos com pontes.

— Evidentemente.

Lia olhou para a porta.

— Pontes?

Congo sorriu.

— Toda travessia precisa de manutenção.

A frase mexeu com alguma coisa dentro dela.

Travessia.

Casa.

Palco.

Sofia.

A menina voltou a olhar para o retrato. A Lia pintada parecia escutar algo que ninguém mais ouvia.

Bem baixinho, quase misturado ao murmúrio dos livros, Lia teve a impressão de ouvir seu nome.

Não vinha da sala.

Não vinha da Rainha.

Não vinha de Congo.

Era distante.

Muito distante.

Como uma voz atravessando páginas, frestas, vitrais, rios, palcos, portais e toda a delicada confusão entre estar perdida e estar sendo chamada.

— Lia? — perguntou a Rainha.

A menina piscou.

— Achei que alguém…

Parou.

A voz sumira.

Ou talvez tivesse apenas se escondido.

Congo observou-a com atenção.

— Algumas chamadas chegam primeiro como impressão.

A Rainha ficou subitamente rígida.

— Está cansada.

— Eu estou bem — disse Lia.

— Não perguntei. Decretei.

Congo fechou o tinteiro.

— Talvez seja hora de voltar, Majestade.

A Rainha assentiu.

Lia ainda olhava para o retrato.

Não queria ir embora dali. Mas também queria. Sentia a estranha dor de quem começa a pertencer a dois lugares ao mesmo tempo.

Congo fez uma reverência.

— Foi uma honra, Lia de si mesma.

— Obrigada, Congo.

— Quando voltar, traga uma pergunta difícil. A biblioteca aprecia visitantes que não confundem curiosidade com bagunça.

— Eu posso voltar?

Congo olhou para a Rainha.

A Rainha olhou para Lia.

— Quem foi escrito na galeria nunca sai completamente daqui — disse a soberana. — Mas isso não significa que deva permanecer.

Lia não entendeu tudo.

Mas já havia aprendido que algumas frases precisavam caminhar dentro da gente antes de explicarem o próprio destino.

Alexandre abriu as portas da biblioteca.

A luz dos vitrais caiu sobre Lia mais uma vez, colorindo seu rosto, suas mãos, seus sapatos. Do lado de fora, o bairro sépia parecia menos envelhecido. Ou talvez ela estivesse saindo diferente.

Antes de entrar na carruagem, Lia olhou para trás.

Lá dentro, ao fundo da sala circular, a Galeria dos Logosgrafistas brilhava em silêncio.

Seu retrato estava entre muitos.

Pequeno.

Colorido.

Incompleto.

Vivo.

A Rainha entrou na carruagem sem dizer nada.

Lia entrou depois.

A porta se fechou.

Enquanto o veículo se afastava, atravessando o bairro antigo, Lia encostou a cabeça na janela e viu o reflexo de seu próprio rosto no vidro. Por um instante, pareceu com o retrato. Por outro, pareceu apenas uma menina cansada querendo entender como voltaria para casa.

Lá longe, muito longe, uma voz pareceu formar a primeira sílaba de seu nome.

Mas o som ainda não chegou inteiro.

E Lia, agora logosgrafista, ficou em silêncio para escutar.


Mini Dicionário Logosgráfico

logosgrafista
substantivo comum de dois gêneros

Pessoa que percebe, cria, interpreta ou reorganiza sentidos de modo logosgráfico, revelando possibilidades ocultas nas palavras, imagens, gestos, memórias e experiências. O logosgrafista não apenas usa a linguagem: escuta o mundo como pergunta, nomeia sem empobrecer e transforma percepção em passagem.

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