Maracangalha #08: Quatro pedaços iguais

Por: Paulo Ricardo Zargolin

O chão da igreja, encerado na véspera, refletia o vitral como se a fé escorresse em cores. Laura entrou pela lateral, os passos leves demais para o peso que trazia no corpo. Vestia azul-escuro. As mangas compridas abafavam a pele e o gesto. A blusa colada ao suor revelava um cansaço sem nome.

No altar, crianças e adolescentes se acomodavam para o ensaio. As vozes sopravam pequenos ensaios de aleluia. Um menino com sapato largo demais batucava no banco com os calcanhares. Uma senhora pigarreava em compasso.

Cristina estava sentada na primeira fileira, como sempre, com a postura de quem confessa com os olhos o que a boca não ousa nomear. Tinha nas mãos o terço de contas de vidro, que dedilhava como se tocasse os nervos do tempo.

Ísis encostou discretamente nos fundos da nave. Estava com uma blusa branca, aberta na gola, e uma pasta nos braços. Não parecia parte daquele cenário, mas também não destoava. Observava tudo como quem lê um poema de outra língua e, ainda assim, entende a melodia.

Laura sentou-se com as demais. Olhou as partituras como se fossem mapas de um território em que já não sabia caminhar. O regente — um senhor com sotaque tenso e dedos compridos — deu início à marcação do compasso.

O coral entoou a primeira estrofe. Vozes mornas, ritmadas, sem alma. Uma das meninas puxou o tom da segunda linha. Quando foi a vez de Laura, a nota saiu torta. Não desafinada — torta. Uma sílaba abaixo, arranhada na garganta.

O regente estalou os dedos no ar. O coral parou. Um silêncio se alastrou entre as colunas. Um mosquito zumbiu perto do microfone.

— Respira de novo, Laura — disse o maestro, contido, mas com a tensão educada de quem segura um copo trincado.

Ela assentiu. Respirou. E não cantou.

O coral prosseguiu sem ela. Uma ausência na linha.

Cristina olhou para trás com lentidão cerimonial. Não disse nada. Mas apertou o terço com força demais.

Quando o ensaio terminou, a menina que sentava ao lado de Laura tentou puxar conversa.

— Tá tudo bem?

Laura sorriu de leve, sem dente.

— Tá.

Mas ao sair, em vez de seguir reto pela nave, desviou. Foi até a pia de água benta. Passou os dedos. Não fez o sinal da cruz. Apenas molhou os pulsos, como quem precisa esfriar algo que lateja por dentro.

Na saída, cruzou por Ísis.

— Você canta com os olhos — disse a prima, num sussurro sóbrio.

Laura não respondeu. Mas olhou nos olhos dela por tempo suficiente para que o gesto se tornasse fala.

No caminho de volta, ninguém puxou assunto. O sol batia em cheio na calçada, mas um vento mais frio raspava a pele. Laura caminhava um passo à frente de Cristina, como se o laço entre elas agora fosse corda bamba. E quando chegou em casa, subiu direto para o quarto, sem tirar os sapatos.

Sentou-se na cama e tirou da bolsa o envelope do coral, que continha a letra da música ensaiada.

Amassou.

Desamassou.

E, por fim, rasgou.

Quatro pedaços iguais. Simétricos. Exatos.

Como se ainda tentasse ser obediente até no descontrole.


Retome o sétimo capítulo, aqui.
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