Maracangalha
Capítulo 07
Por: Paulo Ricardo Zargolin
O vestido desceu pelos ombros como se descesse um segredo. Laura não o escolheu por vaidade — foi o primeiro que tocou. Mas, uma vez posto, parecia dançar com o corpo de um jeito novo, como se insinuasse algo que ela mesma ainda não sabia nomear. Leve demais para o frio da noite, colava nos contornos da pele com um descuido que só as moças distraídas ou inconscientes da própria beleza ousam vestir.
Na sala, Cristina acendia um incenso de lavanda. Disse que era para disfarçar o cheiro da comida, mas a fumaça se espraiava densa e azulada, como se quisesse apagar alguma tensão não dita. A cada giro da brasa, o ar parecia mudar de peso. A casa, antes morna e previsível, fora tocada por um vento que ninguém vira chegar.
Sobre a mesinha da varanda, um papel dobrado repousava como quem aguarda ser lido com temor.
— É do Plínio — comentou Cristina, com voz neutra, talvez fingindo que aquilo não significava nada.
Laura hesitou. Depois, desdobrou o bilhete.
“A noite foi menos fria com tua presença.
Espero que o destino saiba ser tão gentil quanto teus olhos.”
O elogio, à primeira vista, parecia elegante. Mas deixava um rastro. Tinha o mesmo tom de quem sabe o efeito das próprias palavras — e joga com elas. A letra levemente inclinada, quase ensaiada, revelava mais do que dizia. Laura sentiu um desconforto que não vinha só do bilhete — mas de uma lembrança antiga, das cartas da mãe, guardadas em envelopes floridos que ela nunca teve coragem de abrir. As frases eram parecidas: bonitas demais para serem limpas.
Ísis surgiu na cena trazendo uma caneca de chá. Viera da cozinha, mas parecia trazer algo de fora — um frescor, uma pausa. Estendeu a caneca. Os dedos de Laura tocaram os dela por um segundo. Só um segundo. Mas a pele sentiu o que a alma ainda não ousava admitir. O calor da cerâmica era íntimo demais. Laura pensou em retirar a mão, mas não o fez. Aquilo a desestabilizou mais do que o bilhete.
Cristina, da porta, observava. Sua expressão era a de quem vela por algo sagrado. Mas os olhos… os olhos estavam em outro tempo. Carregavam uma lembrança que não se despia.
— Esse Plínio tem muita pose pra pouco tato — murmurou Ísis, já se afastando, sem olhar para trás.
Laura sorriu. Um sorriso pequeno. Quase um suspiro.
No quarto, sozinha, sentada à beira da cama, Laura segurou a caneca entre as mãos e encostou o rosto no vapor. Fechou os olhos. Pensou em Plínio, pensou na mãe, pensou em Ísis. Tudo se embaralhava num mesmo fio de desejo e culpa. Um vento diferente, de fato, passava pela casa. E ela, sem saber, começava a se despir de uma antiga brisa para encarar a tempestade que vinha por dentro.
O vapor se esvaíra, como as palavras que quis dizer e não disse. A cortina balançava levemente com o ar noturno — um vento morno, mas insistente, como se tentasse entrar sem convite.
Ela se deitou com roupa e tudo. Não teve força para trocar. O corpo queria dormir. A alma, nem tanto.
Fechou os olhos como quem desliga uma vela. Mas antes que o sono viesse, uma sensação estranha: ondulação surda. Um ruído rítmico. Era dentro dela, não fora.
Começou a cair. Não do corpo, mas da consciência. Primeiro viu água sob a porta. Depois, a mobília boiando pela casa. O sofá, o retrato da mãe, o tapete da infância — tudo submerso.
Tentou se mover. O chão estava líquido. As paredes transpiravam sal. Correu. Correu pela casa inundada. Gritou por Cristina. Mas a voz afundava antes de alcançar a boca.
Só via peixes onde antes havia livros. Algas onde havia cortinas. A cidade inteira alagada. A igreja em ruínas. O coral de crianças cantava debaixo d’água — com olhos abertos e bocas fechadas.
No alto da praça, Plínio com uma boia no braço acenava, rindo. Mas havia sangue na água. E o sol era um farol quebrado, oscilando como se estivesse bêbado.
Laura, afogada de si, tentou subir à tona. Mas não havia superfície. Foi quando gritou. Não com a garganta — com o pulmão da alma.
Um barulho de passos. Uma porta se abrindo.
— Laura?! — Era a voz de Ísis, tensa, viva.
Laura acordou encharcada de suor. Ofegava. O lençol estava molhado. As mãos tremiam.
Ísis acendeu o abajur. A luz era baixa, mas suficiente. Sentou-se na beira da cama sem dizer nada.
Laura a olhou — e, como uma criança que não sabe nomear o medo, apenas segurou sua mão.
Não foi um pedido de ajuda.
Foi um pedido de presença.
E ali ficaram.
Enquanto o vento da casa, finalmente, cessava.




