Maracangalha
Capítulo 15
Por: Paulo Ricardo Zargolin
O sábado chegou sem barulho. Nem panelas, nem passos. A luz entrou de mansinho, escorregando pelas frestas, respeitando o sono alheio. Na casa, tudo parecia aguardar um gesto, uma decisão, um suspiro.
Ísis permanecia no quarto, entregue a um sono que não descansava o corpo, mas silenciava os conflitos acumulados nos corredores da prefeitura. Não se mexia. Não sonhava. Estava — e isso bastava.
Laura, pronta desde cedo, parou diante da porta fechada. Pensou em bater. Pensou em convidar a prima para uma volta pela cidade. Mas a lembrança da frase dita na noite anterior — “quero dormir até as promessas vencerem” — a dissuadiu. Voltou-se ao corredor com leveza nos passos, como se deixasse uma oração por debaixo da madeira.
Na cozinha, Cristina alinhava os panos sobre a mesa. Costurava com firmeza. As mãos obedeciam a uma rotina antiga, e o corpo inteiro se organizava ao redor da tarefa.
Na cozinha, Cristina remendava um vestido com atenção cerimonial. Disse, sem levantar os olhos:
— Não poderei ir com você hoje, filha. Dona Zulmira me encomendou umas quatro capas de almofada. Daquelas com zíper que vive entortando.
Laura assentiu com um sorriso breve. Sabia que os panos tinham prioridade. Cristina costurava como quem cultiva memória em linha reta. Se as palavras falhavam, os pontos não.
Laura assentiu. Pegou a bolsa, o olhar no chão. Não houve abraço nem conselho. Apenas o som do pano sendo ajeitado, e o fio da linha, esticado até o silêncio.
O Comboio fervia.
O barracão, batizado pelo povo, reunia vozes, cheiros e vontades em desordem viva. Havia fruta com casca, prece solta no ar, criança mascando bala e adulto vendendo sorte. Os bancos de madeira recebiam corpos cansados e sorrisos novos. Era a parte da cidade que respirava sem cerimônia.
Laura caminhava sem urgência. Os olhos não buscavam, mas absorviam. E então viu — na barraca de pastel, um rosto familiar: Tomaz. Sentado, camiseta larga, tênis limpo demais, mordia o pastel com entusiasmo desajeitado. O cabelo recém-cortado e a postura ainda infantil compunham uma figura em trânsito.
— Tomaz? — perguntou, parando diante dele.
Ele ergueu os olhos, surpreso. Sorriu sem defesa.
— Dona Laurinha? Ué… cê não envelhece?
— E você virou gente — respondeu, com riso nos olhos. — Quase.
Ele se levantou, arrastou um banco. Ela sentou. Um novo pastel foi pedido, e uma Coca dividida em dois copos de plástico.
— Lembro de você correndo pelo pátio da igreja, com as asas do anjo Gabriel caindo do ombro — disse ela, soprando o recheio quente.
— Eu fui o pior anjo da história da catequese. Minha auréola era feita de arame de varal.
Riram. O riso de ambos não era mais o mesmo de antes, mas ainda servia. Ajustava-se ao tempo.
— E você… ainda canta? — perguntou ele.
— Agora canto mais por dentro.
— Eu gostava da sua voz. Me fazia dormir quando eu fingia febre.
Laura olhou para ele com doçura contida. Havia naquele menino-moço algo que a puxava de volta — não à infância, mas ao gesto de cuidar.
— Você era uma peste.
— Eu era seu fã.
O silêncio entre eles durou um gole.
— Sabe, eu fico pensando… você foi uma das primeiras pessoas grandes que me tratou como gente. Não como “o filho do Belisário”.
Laura olhou para o copo. Mexeu o gelo que já não gelava.
— Às vezes eu mesma me esqueço que sou “gente” também.
— A gente esquece, né?
Fez-se outra pausa. Dessa vez mais longa. A rádio falhou num agudo. Um cachorro latiu lá fora. A cidade parecia bocejar de tarde.
— E agora, ainda dá trabalho?
— Agora eu disfarço melhor — respondeu, dando um gole. — Mas minha mãe continua achando que sou santo.
— É por isso que você anda sempre com o olhar tão esperto?
— É pra evitar castigo antes da culpa.
Ficaram quietos. O barulho da fritura preenchia as lacunas com ruído sincero. Uma criança gritava longe. A cidade seguia.
— Vi sua amiga na prefeitura — disse ele, depois de um tempo. — Ela tem cara de quem não baixa a cabeça.
— Não baixa mesmo.
— Gosto disso. Mas tem gente que detesta. Dizem que pessoas assim são um problema.
— Às vezes é. Às vezes é solução demais pra quem só aceita ausência.
Ele sorriu, sem entender tudo, mas reconhecendo que havia sentido. Não pediu explicação.
— Você vai ficar por aqui? Ou pretende deixar essa cidade sem futuro?
— Ainda não sei. Às vezes a gente só descobre o rumo quando já foi longe demais pra voltar.
Tomaz baixou os olhos. Mexeu no canudo. A Coca já não espumava.
— Eu achei que você tinha esquecido da gente.
— Eu tentei. Mas tem coisa que fica mesmo quando vai embora.
— Tipo cheiro de roupa guardada?
— Tipo isso.
Ela passou a mão no cabelo dele. O gesto saiu sem aviso.
Ele não recuou. Apenas sorriu. E mordeu o último pedaço de pastel com os olhos mais leves.
Ali, entre o sal da fritura e o açúcar da memória, algo se ajeitava. Não se resolvia — apenas se reconhecia.
Ao deixar o Comboio, Laura caminhou sem pressa. A tarde se estendia com o calor dos azulejos velhos e o perfume de cebola que grudava na roupa. No bolso, um guardanapo manchado de gordura e riso. Em volta, a cidade seguia sem pressa de mudar. Mas dentro dela, alguma coisa havia se movido — não como quem se transforma, mas como quem acorda uma parte esquecida.
E foi nesse estado limiar, entre a digestão e a lembrança, que ela compreendeu: há encontros que não se fazem para resolver nada, apenas para lembrar que ainda há tempo.
O barulho da fritura continuava, mesmo longe.
Era memória em estado de repetição.
Era infância que se recusava a apagar.




