Por Andreia Aparecida Fernandes Cambuy, Sandra Dorosil dos Santos Custódio e Mirella Lorrane Almeida Gomes
Texto produzido coletivamente durante a formação realizada no CEI Ana Souto Trevisan, em 8 de julho de 2026, e preparado para publicação no projeto VOZES.
A tecnologia pode ocupar lugares diferentes na Educação Infantil. Quando utilizada com intencionalidade, pode apoiar a organização do trabalho, ampliar repertórios e favorecer novas formas de explorar informações e registrar experiências.
Entretanto, quando usada de maneira excessiva ou sem mediação, pode limitar aquilo que constitui a própria infância: as interações, o brincar livre, a imaginação, o movimento e as relações afetivas.
Mesmo diante dos avanços tecnológicos, alguns elementos permanecem insubstituíveis. A presença humana dos profissionais, o acolhimento diário, o vínculo afetivo e o olhar sensível dirigido a cada criança não podem ser automatizados.
A tecnologia pode auxiliar em determinadas tarefas, mas não substitui o cuidado pessoal, a escuta atenta, o colo quando necessário, a palavra de incentivo e a segurança emocional que a criança encontra nos adultos que a acompanham.
Na Educação Infantil, cada gesto possui significado. Receber a criança com carinho, perceber suas necessidades, respeitar seu tempo e oferecer uma rotina pensada para seu bem-estar são ações que educam porque constroem confiança e pertencimento.
O planejamento pedagógico também depende da presença e da observação direta. É por meio do olhar atento dos profissionais que se percebem os interesses, as dificuldades, as conquistas e as diferentes formas de expressão de cada criança.
Nenhuma ferramenta conhece, por si mesma, o grupo acompanhado pela educadora. Ela não presencia as brincadeiras, não reconhece as pequenas mudanças do cotidiano e não compreende o significado de cada gesto dentro da história construída com as crianças.
Essa compreensão dialoga com Operador de imaginação, que apresenta a tecnologia como ferramenta a ser conduzida por alguém com repertório, intenção e capacidade de atribuir sentido ao que produz.
Durante as brincadeiras, a atuação da educadora também é indispensável. É nesses momentos que surgem oportunidades de convivência, descoberta, imaginação e aprendizagem. Ao incentivar a participação, acompanhar investigações e mediar conflitos, a profissional fortalece vínculos que nenhuma tecnologia é capaz de construir sozinha.
A participação da família é igualmente importante. A maneira como as tecnologias são utilizadas em casa atravessa a rotina das crianças e pode refletir em seu modo de brincar, comunicar-se, descansar e relacionar-se.
Por isso, escola e família precisam conversar sobre o lugar ocupado pelas telas. O problema não está simplesmente na existência da tecnologia, mas no uso sem limites, sem acompanhamento e sem equilíbrio com experiências concretas de convivência, movimento, diálogo e brincadeira.
Refletir sobre esse uso não significa rejeitar os recursos digitais. Significa reconhecer que eles precisam permanecer sob a orientação de pessoas capazes de definir propósitos, critérios e limites. Essa relação entre ferramenta, método e condução humana também aparece em Bate-papo com a IA: a arte de aprontar com método.
Família e escola não podem permitir que as telas assumam funções que pertencem às relações humanas, como acolher, brincar, escutar, orientar e conviver. Quando a tecnologia ocupa o lugar dessas experiências, deixa de ser apenas um recurso e passa a reduzir tempos essenciais da infância.
Entre telas e vínculos, a Educação Infantil precisa continuar escolhendo os vínculos como centro. A tecnologia pode apoiar, organizar e ampliar possibilidades. A presença humana, porém, é o que transforma cuidado, brincadeira e convivência em experiências verdadeiramente educativas.

