Por Paulo Ricardo Zargolin
O preço de um alimento parece uma informação simples. O café custa tanto, o arroz custa tanto, o tomate está caro nesta semana. Na prateleira, um número encerra a discussão.
Mas esse número é o ponto final de uma história que começou muito antes do supermercado.
Antes de chegar ao carrinho, a comida atravessa clima, produção agrícola, armazenamento, transporte, câmbio, energia, estoques, oferta, demanda e decisões comerciais. Em 2026, outro elemento começa a ganhar visibilidade nessa cadeia: sistemas capazes de calcular e alterar preços com uma velocidade que a velha etiqueta de papel não permitia.
Por isso, entender o preço dos alimentos em 2026 exige olhar simultaneamente para o campo, para a economia e para a tecnologia.
O clima já aparece no preço da comida
Agricultura e clima nunca foram assuntos separados. Calor, frio, chuva, seca e enchentes interferem no desenvolvimento das culturas e nas condições de colheita. O que as pesquisas recentes ajudam a mostrar é que os efeitos não terminam na produtividade.
Um estudo publicado em julho de 2026 na revista Nature Cities analisou dez anos de dados diários de 265 mercados atacadistas chineses de vegetais. Os pesquisadores encontraram aumento significativo da volatilidade dos preços diante de extremos de calor e frio. O trabalho também identificou algo importante: capacidade de armazenamento, transporte eficiente, produção próxima aos centros consumidores e cadeias refrigeradas podem amortecer parte desses efeitos.
Isso evita uma simplificação comum.
Não existe uma fórmula segundo a qual “mais calor” signifique automaticamente “comida mais cara”. Dependendo do produto, do lugar e do momento, um evento climático pode reduzir oferta, prejudicar transporte, aumentar perdas ou provocar outros movimentos no mercado.
Em janeiro de 2026, outro estudo, publicado na Communications Sustainability, examinou dados de milho e soja do Meio-Oeste dos Estados Unidos entre 1971 e 2019. Períodos quentes e secos e episódios de chuva excessiva estiveram associados a aumentos contemporâneos de preços; nos casos extremos analisados, a resposta estimada chegou a ser comparável a uma alta de cerca de 10%.
A conclusão não é que todo aumento no supermercado possa ser colocado na conta das mudanças climáticas.
É mais precisa: o clima é uma das forças capazes de alterar a produção, a circulação e, consequentemente, os preços dos alimentos.
O clima não escreve sozinho a etiqueta.
Mas participa da redação.
O risco não está apenas numa lavoura
Outra mudança importante na maneira de estudar o problema é abandonar a ideia de que basta observar uma plantação isolada.
Uma pesquisa publicada na Nature Communications em junho de 2026 avaliou simultaneamente a exposição de áreas agrícolas a ondas de calor, secas, enchentes e eventos compostos de calor e seca. Segundo os autores, importantes regiões produtoras de alimentos devem enfrentar aumento da exposição a esses extremos, com diferenças relevantes na capacidade de adaptação entre países e regiões.
Isso importa porque nosso sistema alimentar depende de grandes áreas produtoras conectadas por comércio e logística.
Quando uma região importante sofre uma quebra, o problema não precisa permanecer naquele território. Estoques podem diminuir, importações podem aumentar, exportações podem mudar de destino e mercados passam a reagir às expectativas sobre aquilo que ainda será colhido.
O preço começa a mudar antes mesmo de o consumidor perceber que houve algum problema no campo.
Entre a plantação e a cozinha existe uma cadeia
Também seria errado imaginar que o preço final é apenas o valor agrícola acrescido da margem do supermercado.
Entre uma lavoura e uma mesa existem processamento, embalagem, armazenamento, refrigeração, energia, combustível, estradas, mão de obra, atacado, distribuição, impostos e perdas.
O estudo da Nature Cities ajuda a enxergar justamente essa parte menos visível. Os pesquisadores observaram que vegetais mais perecíveis apresentavam maior vulnerabilidade a extremos de temperatura, enquanto melhores condições de transporte e armazenamento aumentavam a resistência dos mercados às oscilações.
Isso significa que dois lugares submetidos a condições climáticas semelhantes podem experimentar consequências econômicas diferentes.
Infraestrutura também é política de preço dos alimentos.
Uma cadeia refrigerada eficiente não altera o clima. Mas pode impedir que uma alteração climática se transforme tão facilmente em perda de mercadoria, escassez e volatilidade.
E o consumidor percebe tudo isso de uma maneira muito particular
Pouca gente acompanha diariamente os índices oficiais de inflação.
Quase todo mundo percebe quando o café, o arroz, a carne ou a fruta habitual começam a exigir mais dinheiro.
Os próprios números brasileiros mostram como os alimentos podem oscilar rapidamente. Em junho de 2026, enquanto o IPCA geral avançou 0,16%, o grupo Alimentação e bebidas caiu 0,24%, depois de ter subido 1,33% no mês anterior, segundo o IBGE.
É uma boa demonstração de por que falar em inflação dos alimentos exige cuidado.
Não existe uma subida uniforme e permanente. Produtos sobem enquanto outros caem. Safras mudam. A oferta muda. Custos mudam. E o índice final reúne movimentos que muitas vezes seguem direções opostas.
A economia possui médias.
A cozinha possui memória.
Quem não sabe dizer qual foi a inflação acumulada pode lembrar perfeitamente que certo pacote custava muito menos alguns meses atrás. Afinal, como o Logosgrafia já observou ao tratar das mudanças tributárias que chegaram às compras cotidianas em A nota fiscal que começou a falar outra língua, a economia nunca esteve tão distante quanto às vezes parece: ela entra no supermercado, na farmácia, no posto e naquilo que cabe — ou deixa de caber — no orçamento.
Agora a própria etiqueta está mudando
A transformação mais nova ocorre no último estágio dessa viagem.
Durante décadas, alterar preços em um supermercado significava imprimir novas etiquetas e substituí-las fisicamente nas prateleiras.
Isso está deixando de ser obrigatório.
Em julho de 2026, a revista Exame relatou a expansão no Brasil das etiquetas eletrônicas de prateleira, integradas a sistemas capazes de atualizar valores em segundos. Segundo a reportagem, softwares já podem cruzar informações sobre estoque, demanda, concorrência, vencimento dos produtos, sazonalidade e outros fatores para auxiliar decisões de preço.
A tecnologia permite corrigir rapidamente um valor incorreto, lançar uma promoção em muitas lojas ao mesmo tempo ou reduzir o preço de um produto próximo do vencimento.
Também abre espaço para aquilo que se convencionou chamar de precificação dinâmica.
E aqui existe uma distinção importante.
Etiqueta eletrônica é infraestrutura.
Precificação dinâmica é estratégia.
Ter uma tela digital na prateleira não significa que o preço esteja sendo alterado constantemente. Significa apenas que a mudança pode ser feita de maneira muito mais rápida e automatizada do que na época do papel.
O que é precificação dinâmica?
A lógica não nasceu no supermercado.
Passagens aéreas, hotéis e aplicativos de transporte já acostumaram consumidores à ideia de que o preço de um mesmo serviço pode variar conforme demanda, disponibilidade, horário ou outras condições.
No varejo, sistemas semelhantes podem considerar estoques, concorrência, fluxo de consumidores, proximidade do vencimento e outras informações. A reportagem da Exame mostra que esse tipo de tecnologia já está sendo incorporado ao mercado brasileiro e que fornecedores de etiquetas eletrônicas relatam expansão significativa dos contratos em 2026.
Isso não significa que caminhamos inevitavelmente para um supermercado em que o arroz muda de preço a cada cinco minutos.
Significa que desaparece uma limitação técnica importante: o custo e o trabalho necessários para trocar fisicamente milhares de etiquetas.
Quando modificar um preço passa a exigir alguns comandos em vez de uma operação manual, a própria relação do varejo com o tempo pode mudar.
É mais um exemplo de uma transformação que já atravessa outras atividades: sistemas aprendem a executar tarefas antes dependentes de intervenção humana contínua. Em O trabalhador que treinou o próprio substituto, o Logosgrafia observou essa mudança pelo ângulo do trabalho. No supermercado, ela aparece diante de algo muito menor: uma etiqueta.
O preço não é uma propriedade do produto
Talvez aí esteja a transformação mais interessante.
Quando alguém olha para um pacote de arroz marcado a R$ 25, a frase intuitiva é:
“Este arroz custa R$ 25.”
Mas o preço nunca pertenceu propriamente ao arroz.
Ele representa uma condição temporária.
Aquele produto custa R$ 25 naquele estabelecimento, naquele momento, dentro de uma combinação específica de oferta, estoque, custos, concorrência e estratégia comercial.
As etiquetas eletrônicas apenas tornam isso mais visível.
Por trás de um número aparentemente objetivo existe uma enorme quantidade de informação em movimento.
Uma seca pode alterar uma colheita. Uma colheita menor pode modificar a oferta. O mercado pode antecipar uma escassez. O transporte pode encarecer. Uma rede pode possuir estoque suficiente para absorver parte da alta. Outra pode não possuir.
E, no fim dessa cadeia, um sistema digital pode atualizar a prateleira quase instantaneamente.
Não é uma linha reta.
É uma rede.
A comida virou também um indicador climático e econômico
Durante muito tempo, as mudanças climáticas foram apresentadas por meio de imagens gigantescas: geleiras, florestas, oceanos, mapas de temperatura e grandes desastres.
Essas imagens continuam importantes.
Mas existe uma escala muito menor em que alterações ambientais, econômicas e tecnológicas também podem ser percebidas.
A escala da despensa.
O preço do café não funciona como um termômetro climático perfeito. O tomate caro não prova, sozinho, nenhuma tendência global. Reduzir cada oscilação de mercado às mudanças climáticas seria tão equivocado quanto ignorar a crescente evidência de que eventos extremos conseguem afetar produção, logística e preços.
A pesquisa contemporânea aponta justamente para essa complexidade.
O sistema alimentar está exposto a múltiplos riscos ao mesmo tempo, e sua vulnerabilidade depende tanto do clima quanto da capacidade de adaptação, da infraestrutura e das condições econômicas.
E, quando entram algoritmos na última etapa dessa cadeia, permanece necessária a mesma distinção que vale para outras tecnologias: uma ferramenta capaz de decidir rapidamente não elimina a responsabilidade de quem define os critérios dessa decisão. É uma questão que o Logosgrafia vem explorando também em A mão que ainda segura a caneta.
É por isso que a pergunta aparentemente banal feita diante da prateleira contém cada vez mais coisas.
Quanto custa um pacote de café?
A resposta pode carregar uma safra, uma seca ocorrida meses antes, uma estrada, um armazém, um caminhão, um dólar, um estoque, uma decisão empresarial e, agora, talvez um algoritmo.
Durante muito tempo, entramos no supermercado perguntando:
Quanto custa?
À medida que preços, estoques e informações começam a circular na mesma velocidade, talvez seja necessário acrescentar uma palavra:
Quanto custa agora?
Referências
CHEN, Xiaodong; GUO, Anda; ZHU, Pengyu. Mitigation of temperature-induced vegetable price volatility in urban wholesale markets . Nature Cities, v. 3, p. 642–653, 2026.
CORNEJO, Magdalena; MEROVICH, Ezequiel; MERENER, Nicolas. Hot dry spells and extreme rain increased corn and soybean prices in the United States Midwest . Communications Sustainability, 2026.
TABARI, Hossein; HOSSEINZADEHTALAEI, Parisa. Multi-hazard exposure and vulnerability drive rising agricultural risk in global breadbasket regions . Nature Communications, 2026.
IBGE. IPCA fica em 0,16% em junho . Agência de Notícias IBGE, 10 jul. 2026.
EXAME. Como a inteligência artificial já define o preço nas prateleiras dos supermercados? . 8 jul. 2026.
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