O Racionalismo como Corrente Filosófica

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Trabalho de pesquisa apresentado à disciplina de História da Psicologia sob a responsabilidade da Profª. Ms. Marisa Lídia de Azevedo, do curso de Bacharelado em Psicologia, mantido pela Fundação Municipal de Educação e Cultura de Santa Fé do Sul – Funec/Fisa.

Introdução

O racionalismo é baseado nos princípios da busca da certeza e da demonstração, sustentados por um conhecimento a priori, ou seja, conhecimentos que não vêm da experiência e são elaborados somente pela razão.

Na passagem do século XVIII para o XIX, Immanuel Kant (1724-1804) revê essa tendência de associar o pensamento à análise pura e simples e inaugura o neo-racionalismo. A nova doutrina aceita as formas a priori da razão, afirmando, entretanto, que elas necessariamente devem ser conjugadas aos dados da experiência para que possa haver conhecimento. O racionalismo dos séculos XVII e XVIII influencia a religião e a ética até hoje.

O racionalismo é a corrente filosófica que iniciou com a definição do raciocínio que é a operação mental, discursiva e lógica. Este usa uma ou mais proposições para extrair conclusões se uma ou outra proposição é verdadeira, falsa ou provável.

Essa era a idéia central comum ao conjunto de doutrinas conhecidas tradicionalmente como racionalismo.

Racionalismo é a corrente central no pensamento liberal que se ocupa em procurar, estabelecer e propor caminhos para alcançar determinados fins. Tais fins são postulados em nome do interesse coletivo (commonwealth), base do próprio liberalismo e que se torna assim, a base também do racionalismo. O racionalismo, por sua vez, fica à base do planejamento da organização econômica e espacial da reprodução social.

O postulado do interesse coletivo elimina os conflitos de interesses (de classe, entre uma classe e seus membros e até de simples grupos de interesse) existentes em uma sociedade, seja em nome do princípio de funcionamento do mercado, seja como princípio orientador da ação do Estado. Abre espaço para soluções racionais a ‘problemas’ econômicos (de alocação de recursos) ou urbanos (de infraestrutura, da habitação, ou do meio ambiente) com base em soluções técnicas e eficazes.

Durante séculos os estudiosos tentaram chegar a um consenso a respeito da origem dos princípios racionais, da capacidade para a intuição e de raciocínio do homem. Será que as pessoas já nascem com potencialidades, dons e aptidões que serão desenvolvidos de acordo com o amadurecimento biológico ou tudo isso é desenvolvido através da experiência com o mundo externo?

Essa discussão provavelmente se iniciou a partir da discussão de dois dos maiores filósofos da história: Platão e Aristóteles. Embora ambos tenham sido discípulos de Sócrates, Platão defendia a idéia de que nascemos com idéias natas, enquanto Aristóteles pregava que tudo é desenvolvido através da experiência, onde o contato com o mundo externo é a única forma de se obter conhecimento e aprimoramento do intelecto.

Através de suas teorias, o inatismo apresenta o ser humano como um agente estático, sem a possibilidade de sofrer mudanças. Desta forma, quando o homem nasce, sua personalidade, valores, hábitos, crenças, pensamento, emoções e conduta social já estão definidos, uma vez que toda a atividade de conhecimento é exclusiva do sujeito, o meio não participa dela.

Para os empiristas, o homem ao nascer é uma “folha em branco”. Segundo Popper, “Não há nada no nosso intelecto que não tenha entrado lá através dos nossos sentidos”. Essa é a idéia central do empirismo: a única fonte de conhecimento humano é a experiência adquirida em função do meio físico mediada pelos sentidos. Assim, o empirismo destaca a importância da educação e da instrução na formação do homem.

O estudo do empirismo e do inatismo é importante devido ao fato de que muitas questões polêmicas giram em torno destas duas teorias atualmente, como o desenvolvimento da homossexualidade, a formação de líderes, o desenvolvimento de superdotação, etc.

As ideias Inatas

Descartes distingue três tipos de ideias: inatas, adventícias e factícias. As ideias adventícias são aquelas que nos chegam a partir dos sentidos, as factícias são provenientes da nossa imaginação, uma combinação de imagens fornecidas pelos sentidos e retidas na memória cuja combinação nos permite representar (imaginar) coisas que nunca vimos.

A grande questão porém é a de saber se todas as nossas ideias se podem explicar destes dois modos. Será o triângulo uma ideia adventícia? Como explicar então a sua perfeição? Será uma ideia factícia? Como explicar nesse caso a sua universalidade? E a ideia de Deus? Como explicar que seres finitos e imperfeitos como os homens são, possam ter a ideia de um ser infinito e absolutamente perfeito?

A resposta de Descartes é a de que para além das ideias adventícias e factícias os homens possuem ideias inatas, ideias que, nascidas connosco, são como que a marca do criador no ser criado à sua imagem e semelhança.

Estas ideias inatas, claras e distintas, não são inventadas por nós mas produzidas pelo entendimento sem recurso à experiência. Elas subsistem no nosso ser, em algum lugar profundo da nossa mente, e somos nós que temos liberdade de as pensar ou não. Representam as essências verdadeiras, imutáveis e eternas, razão pela qual servem de fundamento a todo o saber científico.

Como Descartes escreve:

“(…) quando começo a descobri-las, não me parece aprender nada de novo, mas recordar o que já sabia. Quero dizer: apercebo-me de coisas que estavam já no meu espírito, ainda que não tivesse pensado nelas. E, o que é mais notável, é que eu encontro em mim uma infinidade de ideias de certas coisas que não podem ser consideradas um puro nada. Ainda que não tenham talvez existência fora do meu pensamento elas não são inventadas por mim. Embora tenha liberdade de as pensar ou não, elas têm uma natureza verdadeira e imutável.”

Méditations Métaphysiques, “Méditation cinquième”, p. 97-99.

Quais são então as ideias inatas? Fundamentalmente os conceitos matemáticos e a ideia de Deus.

Num texto dirigido à princesa Elisabeth, Descartes escreve (1645):

“A primeira e a principal [das ideias inatas] é que há um Deus de quem todas as coisas dependem, cujas perfeições são infinitas, cujo poder é imenso, cujos decretos são infalíveis…”

Como diz Koyré:

“Do desmoronamento das suas primeiras certezas, Descartes apenas salvará as que não dependem da filosofia: a crença em Deus e na Matemática.”

Este inatismo traduz a profunda confiança que Descartes tem na razão. Fonte de todo o conhecimento seguro e verdadeiro, faculdade universalmente partilhada, a razão ou bom senso é aquilo que define o homem como homem, o que o distingue dos outros animais.

“O bom senso é a coisa que, no mundo, está mais bem distribuída: de facto, cada um pensa estar tão bem provido dele, que até mesmo aqueles que são os mais difíceis de contentar em todas as outras coisas não têm de forma nenhuma o costume de desejarem [ter] mais do que o que têm. E nisto, não é verosímil que todos se enganem; mas antes, isso testemunha que o poder de bem julgar, e de distinguir o verdadeiro do falso que é aquilo a que se chama o bom senso ou a razão, é naturalmente igual em todos os homens; da mesma forma que a diversidade das nossas opiniões não provém do facto de uns serem mais razoáveis do que outros, mas unicamente do facto de nós conduzirmos os nossos pensamentos por vias diversas, e de não considerarmos as mesmas coisas.”

Descartes, Discurso do Método, I Parte, ed. cit., p. 11.

Mas, de que maneira opera a razão? Afastada a hipótese de se fazerem conjecturas com base nos sentidos que só poderiam conduzir-nos a um conhecimento provável e incerto, as operações da razão que conduzem à verdade e à certeza são apenas duas: a intuição e dedução.

A intuição, é portanto, um acto puro e atento da inteligência que apreende directa e imediatamente noções tão simples que acerca da sua validade não pode restar qualquer dúvida. Assim, o que caracteriza a intuição é a sua clareza e distinção, o seu caracter imediato, o facto de constituir um acto de apreensão total e completa.

Fruto de uma singularidade meditativa, a intuição é o fundamento do seu individualismo subjectivista. Como Descartes escreve:

“Entre os quais [os pensamentos que me ocupavam], um dos primeiros foi que me lembrei de considerar que, muitas vezes, não há tanta perfeição nas obras compostas por várias peças, e feitas pela mão de diversos mestres, quanto naquelas em que um só trabalhou. Desta forma vemos que os edifícios que um só arquitecto empreendeu e acabou, são habitualmente mais belos e melhor ordenados, do que aqueles que vários tentaram compor, servindo-se de velhas paredes que tinham servido para outros fins. Assim, essas antigas cidades que, não tendo sido de início senão pequenos burgos, tornaram-se, com o passar do tempo, grandes cidades, são geralmente tão mal ordenadas em comparação com essas praças regulares que um engenheiro traça à sua fantasia numa planície que, ainda que considerando os seus edifícios um por um, encontramos neles tanta ou mais arte do que nos das outras (…).”

Descartes, Discurso do Método, II Parte, ed. cit., p. 18.

A construção do edifício do saber só é possível a partir de projectos unitários, solitariamente concebidos e ordenadamente aplicados.

A dedução é, em primeiro lugar, um encadeamento de intuições. Ela pressupõe portanto a intuição das ideias simples e das relações existentes entre elas das quais conclui, necessariamente, outras ideias e relações, como consequências lógicas das anteriores.

A dedução estabelece um encadeamento entre as proposições, um nexo lógico de antecedente e consequente de tal modo que a verdade do antecedente exige a verdade do consequente. Assim, a dedução permite construir uma relação necessária entre as proposições de tal modo que a verdade das proposições intuitivas possa passar para a conclusão. Nesse sentido, é necessário partir de verdades evidentes para depois, dedutivamente, descobrir todas as outras ainda não conhecidas e, assim, alcançar o conhecimento verdadeiro.

Epistemologia

Os racionalistas tinham muito a dizer sobre o conhecimento e como poderia ganhar uma certeza. Embora essa pesquisa foi respondida um pouco diferente, mais racionalistas eventualmente chegar à afirmação de que Deus estava a derradeira garantia de conhecimento.

Talvez o melhor exemplo desta conclusão é encontrado na filosofia de Descartes. Começando com a realidade de dúvida que ele determinou a aceitar nada do que ele não pôde ser determinado. No entanto, uma realidade, pelo menos, poderia ser deduzida a partir desta dúvida: ele foi dúbio e, portanto, deve existir. Nas palavras do seu famoso dictum, “Penso, portanto, eu sou.”

A partir da percepção de que ele duvidava, Descartes concluiu que ele era um dependente, sendo finito. Ele então prosseguiu para a existência de Deus através das formas ontológicas e cosmológicas argumentos. Em Meditações III-IV do seu Meditações sobre Filosofia Primeira Descartes argumentou que a sua idéia de Deus como infinito e independente é uma clara e distinta argumento da existência de Deus.

De fato, Descartes concluiu que a mente humana não foi capaz de saber algo mais do que certamente Deus na existência. Um ser finito não foi capaz de explicar a presença da idéia de um Deus infinito para além da sua existência necessária.

Descartes concluiu que, uma vez que Deus estava perfeito, ele não poderia enganar seres finitos. Além disso Descartes da própria facilidades para julgar o mundo à sua volta lhe foi dada por Deus e, portanto, não seria enganoso. O resultado foi que o que ele poderia deduzir pelo pensamento claras e distintas (como o encontrado na matemática), relativo ao mundo e, portanto, outros devem ser verdadeiras. Assim, a necessária existência de Deus tanto torna possível o conhecimento e as garantias relativas a esses factos que a verdade possa ser claramente delineados. Começando com a realidade de dúvida Descartes procedeu à sua própria existência, a Deus, e com o mundo físico.

Spinoza também ensinou que o Universo explorados de acordo com princípios racionais, que o bom uso da razão evidenciou estas verdades, e que Deus era a derradeira garantia de conhecimento. No entanto, ele rejeitou dualismo cartesiano em favor do monismo (referidas por alguns como panteísmo), em que houve apenas uma substância, denominada Deus ou a natureza. Culto foi expressa racionalmente, de acordo com a natureza da realidade. Dos muitos atributos da substância pensava e ampliação foram os mais cruciais.

Spinoza geométricas metodologia utilizada para deduzir verdades epistemológicas que poderia ser detido como factual. Ao limitar muito do conhecimento para auto-evidentes verdades reveladas pela matemática, ele assim construído um dos melhores exemplos de racionalista sistema de construção da história da filosofia.

Leibniz estabelecido o seu conceito de realidade, na sua grande obra Monadology. Contrastando com o conceito materialista dos átomos, monads metafísico são únicas unidades da força que não são afetados por critérios externos. Embora cada mónada desenvolve individualmente, eles estão interligados através de uma lógica ” preestabelecidas harmonia “, que envolve uma hierarquia de monads organizado pela culminando em Deus, a mónada de monads.

Para Leibniz uma série de argumentos que revelaram a existência de Deus, que foi estabelecida como sendo o responsável pela ordenação das monads racional em um universo que era “o melhor dos mundos possíveis”. Deus também foi a base do conhecimento, e este contas relativas ao epistemológico relação entre pensamento e realidade. Leibniz, assim, regressou a um conceito de um Deus transcendente muito mais perto da posição detida por Descartes e em contraste com Spinoza, embora nem ele nem Spinoza começou com a auto subjetiva, como fez Descartes.

Assim epistemologia racionalista foi caracterizada tanto por um processo de argumentação dedutivo, com especial atenção a ser dada ao método matemático, e pela ancoragem de todos os conhecimentos na natureza de Deus. Spinoza do sistema de geometria euclidiana alegou manifestação de Deus ou a natureza como um fundo de realidade.

Alguns estudiosos da persuasão cartesiano movido para a posição de ocasionalismo, mentais e físicos que correspondem a cada outros eventos (como o ruído perceptível queda de uma árvore corresponde com a realidade da ocorrência), visto que são ordenados por Deus. Leibniz utilizou uma aplicação rigorosa do cálculo de coleta dedutivamente derivar o infinito de monads que culminam em Deus.

Esta metodologia racionalista, e ao estresse em matemática, em particular, foi uma importante influência sobre a origem da ciência moderna durante este período. Galileu realizou algumas idéias relacionadas essencialmente, especialmente em seu conceito de natureza como sendo matematicamente organizado e entendido como tal através da razão.

BIBLIOGRAFIA

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KANT, I. Critica da razão pura. Tradução de V. Rohde e Udo B. Moosburger. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

LUFT, E. Sobre a coerência do mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. 158 p.

LUFT, E. As sementes da dúvida: investigação crítica dos fundamentos da filosofia hegeliana. São Paulo: Mandarim (Siciliano), 2001. v. 1. 265 p.

WATKINS, J. W. N. Ciência e cepticismo. Tradução Maria J. Ceboleiro. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1990.

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