Radicalidade e liberdade em Paulo Freire

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Para Weffort (1967) Freire não é um mero espectador na história de seu povo, de modo que as ideias apresentadas em sua obra trazem, claras e explícitas, as marcas da experiência vivida pelo Brasil nestas últimas décadas.

Segundo o referido autor, Paulo Frejre soube reconhecer com clareza as prioridades da prática nesta etapa crucial assinalada pela emergência política das classes populares e pela crise das elites dominantes.

Ferreira Jr. (2010), por sua vez, nos explica que o método de alfabetização criado por Paulo Freire estava baseado nos chamados “círculos de cultura popular”, os quais reuniam, por exemplo, os adultos de uma determinada comunidade rural e processavam um amplo debate sobre as condições de vida, de trabalho e dos elementos culturais que se manifestavam no cotidiano daquela população. (FERREIRA JR, 2010, p. 93).

Ao contrário da concepção de sociedade autoritária defendida por frações das elites que propugnavam pela “domesticação” do povo, a “pedagogia do oprimido” proposta por Paulo Freire defendia a educação do povo como a verdadeira prática da liberdade.

Como vimos, sa campanha de alfabetização desencadeada por Paulo Freire fosse praticada em todo o país, o resultado teria possibilitado que um grande contingente dos milhões de analfabetos passasse para a condição de eleitores. Mas a experiência dos círculos de cultura popular que, além de ter sido um método nascido genuinamente das condições históricas brasileiras, pode ser classificada como a mais radical das iniciativas educacionais do século XX, foi abortada pelo golpe de Estado de 1964.

Com base nas histórias contadas pelos próprios moradores da comunidade, tal educador ia recolhendo ao longo das discussões as palavras mais significativas e representativas da cultura local, e era esse vocabulário popular que servia de referência para a conquista da linguagem escrita por parte dos alfabetizandos. Assim, as “palavras geradoras”, de uso corrente na linguagem usada no dia a dia das pessoas, eram carregadas de experiências culturais vividas pelos próprios sujeitos do processo de aprendizagem do idioma falado, o que certamente, como temos visto na conceituação do currículo e sobre o processo de ensino-aprendizagem, aprofundava o conhecimento do indivíduo, dando-lhe maior sustentação à vivência e, portanto, à aprendizagem. (FERREIRA JR, 2010).

Dessa forma, comprovamos os dizeres de Weffort, que fala coloca a visão da liberdade desta pedagogia em uma posição de relevo. Segundo o autor, “é a matriz que atribui sentido a uma prática educativa que só pode alcançar efetividade e eficácia na medida da participação livre e crítica dos educandos”.

Ferreira Jr. (2010), concebe o método freiriano como uma prática que mesclava alfabetização e consciência política, haja vista que as experiências pedagógicas dos círculos de cultura popular, principalmente no Nordeste, despertaram reações nos setores oligárquicos da sociedade brasileira de então.

Por conseguinte, busca-se no círculo de cultura, peça fundamental no movimento de educação popular, reunir um coordenador a algumas dezenas de homens do povo no trabalho comum pela conquista da linguagem, ou seja, liberdade e radicalidade.

REFERÊNCIAS

FERREIRA Jr., A. História da Educação Brasileira: da Colônia ao século XX. São Carlos : EdUFSCar, 2010, p. 85-115.

WEFFORT, F.C. Educação e Política (Reflexões sociológicas sobre uma pedagogia da liberdade)In: FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967. Disponível aqui. Acesso em 18 out. 2011.

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