Por: Paulo Ricardo Zargolin
Saussure (1987) refere que a língua não se confunde com a linguagem, pois ela é somente uma parte determinada, essencial dela, indubitavelmente, sendo ao mesmo tempo, um produto social da faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para possibilitar o exercício dessa faculdade nos indivíduos. A linguagem por sua vez é tida como tudo que envolve significação, que tem valor semiótico, não se restringindo apenas a uma forma de comunicação, e é nela que o pensamento do indivíduo é constituído. Goldfeld (1997) refere que a linguagem está sempre presente no sujeito, até quando este não está se comunicando com outras pessoas; assim ela constitui o sujeito, a forma como este recorta e percebe o mundo e a si próprio.
Para aprofundar a questão da importância da linguagem como a mediadora das funções sociais, Vygotsky (1993 apud REYES e PICOLLI, 2010) apresenta seus estudos sobre pensamento e linguagem. Segundo o autor, seria um erro considerar o pensamento e a linguagem como processos independentes, que se encontram em determinado momento apenas influenciando mecanicamente um ao outro, pois “A ausência de um elo primário não significa que uma conexão entre eles só possa estabelecer-se de uma forma mecânica” (1993, p.103) É necessário considerar que existe uma unidade do pensamento verbal que intervém diretamente no todo, que reflete a união do pensamento e da linguagem. Para ele, esta unidade é encontrada no significado das palavras.
A união da palavra e do pensamento ocorre por meio do significado das palavras, porque o “significado das palavras é um fenômeno do pensamento apenas na medida em que o pensamento está ligado à palavra e é encarnado nela e vice-versa, e é um fenômeno da linguagem na medida em que está ligada ao pensamento e é iluminada por ele” (VYGOTSKY, 1993 apud REYES e PICOLLI, 2010, p. 40). Em outras palavras, o significado da palavra é ao mesmo tempo um fenômeno verbal e intelectual.
Para Moura (2014) “a Libras desempenha todas as funções de uma língua e, como tal, ela poderia ser usada para cumprir o papel que a linguagem oral tem na criança ouvinte” muito embora tenha a particularidade de ser totalmente visual, passa sentidos e significados por uma forma que é absolutamente acessível ao surdo.
Nesse sentido, há para Dizeu e Caporali (2005, p. 588)
a necessidade de se colocar a criança surda próxima de seus pares o mais rápido possível, ou seja, em contato com um adulto surdo, fluente em LIBRAS, que será para essa criança o meio mais fácil de propiciar sua aquisição da língua. Nestas condições, adquirindo a LIBRAS, ela se tornará capaz de significar o mundo. As experiências mais promissoras indicam para a necessidade de atuação direta dos adultos surdos sinalizadores com os surdos que não têm acesso à língua de sinais, para que este se dê de forma rápida e eficiente, além de isso contribuir para a formação da identidade de pessoa surda desses sujeitos.
Góes (1999) refere que vem sendo associadas ao surdo caracterizações estereotipadas, como pensamento concreto, elaboração conceitual rudimentar, baixa sociabilidade, rigidez, imaturidade emocional etc. Para que tais atrocidades não ocorram, é preciso compreender que, a partir da aquisição de uma língua, a criança passa a construir sua subjetividade, pois ela terá recursos para sua inserção no processo dialógico de sua comunidade, trocando ideias, sentimentos, compreendendo o que se passa em seu meio e adquirindo, então, novas concepções de mundo. No caso de crianças surdas, filhas de pais ouvintes, esse processo não irá acontecer naturalmente, já que as modalidades linguísticas utilizadas nas interações mãe-criança não são facilmente adquiridas por essas crianças.
Infelizmente, conclui-se que a nossa sociedade não está preparada para receber o indivíduo surdo, não lhe oferecendo condições para que se desenvolva e consolide sua linguagem. Todavia, a fim de modificar o quadro atual, cabe ao docente depreciar relatos que afirmam ser a surdez causadora de limitações cognitivas e afetivas, pois a verdadeira limitação está nas condições oferecidas a esse sujeito surdo.
REFERÊNCIAS
DIZEU, L. C .T de B.; CAPORALI, S. A. A língua de sinais constituindo o surdo como sujeito. Educ. Soc., Campinas, v. 26, n. 91, p. 583-597, mai/ago., 2005
GÓES, M. C. R. Linguagem, surdez e educação. 2. ed. Campinas: Autores Associados, 1999.
GOLDFELD, M. A criança surda: linguagem e cognição numa perspectiva sócio-interacionista. São Paulo: Plexus, 1997.
MOURA, M. C. de. Surdez e Linguagem. In: GÓES, A. M. et al. Língua brasileira de sinais – Libras: uma introdução. São Carlos: EdUFSCar, 2014, p. 13-28. (Coleção UAB-UFSCar).
REYES, C. R. PICCOLLI, D. M. O ensino da língua: um processo discursivo. São Carlos: EdUFSCar, 2010, 142 p. (Coleção UAB-UFSCar).
SAUSSURE, F. de. Curso de lingüística geral. São Paulo: Cultrix, 1987.

