Por: Paulo Ricardo Zargolin
Como se sabe, a escola é, por excelência, o local destinado à aprendizagem. Trata-se de um espaço em que as bases da cultura da sustentabilidade podem ser delineadas. Nesse cenário, se a concepção do mundo mudou, a escola constitui peça-chave nessa necessária reorientação paradigmática. Tal processo pressupõe ensinar a compreender os princípios básicos da sustentabilidade, para sermos capazes de aplicá-los em nossa vida diária.
Desse modo, conforme vimos com Freitas (2013), as ideias de Morin (2000) têm inspirado as ações de ensino e de pesquisa no que tange à concepção de coletivo como pedra fundamental para se atingir uma melhor qualidade de vida e superar os processos de exclusão e pauperização dos seres humanos.
Vimos com os referidos autores que compreender a unidade dos seres humanos e a identidade planetária, por exemplo, coloca-nos na condição de indivíduos com os mesmos direitos e responsabilidades, seja com o ambiente, seja com os outros indivíduos habitantes da terra.
Nesse sentido, de acordo com os preceitos observados no documento “Vamos cuidar do Brasil com escolas sustentáveis: educando-nos para pensar e agir em tempos de mudanças socioambientais globais” (BRASIL, 2012, p. 10), uma escola sustentável trata-se
de um local onde se desenvolvem processos educativos permanentes e continuados, capazes de sensibilizar o indivíduo e a coletividade para a construção de conhecimentos, valores, habilidades, atitudes e competências voltadas para a construção de uma sociedade de direitos, ambientalmente justa e sustentável. Uma escola sustentável é também uma escola inclusiva, que respeita os direitos humanos e a qualidade de vida e que valoriza a diversidade.
Numa escola sustentável, que pensa e gera espaços educadores sustentáveis, pode-se praticar uma educação ambiental que não apenas diga às pessoas o que deve ser feito, mas que reflita em suas práticas cotidianas as premissas da sustentabilidade. Existem alguns documentos fundamentais para trilhar este caminho, a começar pela Lei 9.795/99, que estabeleceu a Política Nacional de Educação Ambiental.
Freitas (2013) também aponta uma série de questionamentos que nos ajudam a pensar em como uma escola pode se tornar um espaço educador para a sustentabilidade.
Iniciando pela análise do espaço físico, a referida autora (2013, p. 78) afirma sobre a necessidade de saber se há um projeto arquitetônico que se preocupa com o conforto ambiental e, ao mesmo tempo, se utiliza instalações que garantam a sustentabilidade do ambiente. Do ponto de vista das relações interpessoais, questiona-se se as decisões são tomadas democraticamente de forma a garantir os interesses e necessidades do indivíduo e da coletividade. Quanto às relações com o conhecimento, indaga-se se o conteúdo e as atividades são escolhidos e aplicados de forma a garantir o direito à diversidade e pluralidade cultural. A autora enfatiza ainda que as atividades administrativas que organizam a vida escolar devem levar em consideração a perspectiva da educação para a sustentabilidade e se as atividades pedagógicas consideram a diversidade cultural, social, religiosa, etc.
A partir de tais reflexões, percebe-se que a inserção transversal da educação ambiental no ambiente de aprendizagem escolar parece complexa, mas será bem-sucedida se a escola se debruçar a respeito, na construção ou revisão de seu Projeto Político-Pedagógico, afinal esse é um instrumento em torno do qual a comunidade escolar é estimulada a se organizar e construir, dentro do seu espaço, as tomadas de posição descentralizadas e o fortalecimento de atitudes democráticas e comunicativas no interior da escola.
Vejamos, então, às implicações para a construção de uma escola sustentável:
Ao repensar o ambiente, no sentido de torná-lo integrador, educador e sustentável, sua adequação em termos arquitetônicos, redesenhando os espaços de acordo com novas finalidades, pode começar por revisitar o projeto arquitetônico, pensando pequenas intervenções, para ampliar o aproveitamento da iluminação natural, garantir uma distribuição de cores harmoniosa, mais conforto térmico e acústico. Vale ressaltar que tudo isso favorece também um ambiente de aprendizagem e produção do conhecimento.
Além disso, o currículo organiza o tempo dentro e fora da escola por meio de ações/atividades educativas para o alcance da sua finalidade. Ele implica necessariamente a interação entre os integrantes da escola, família, comunidade e as políticas educacionais, alinhados num mesmo objetivo e num referencial teórico que o sustente. Neste sentido, a organização do currículo numa escola sustentável e integral se dá na ampliação de tempos, espaços e oportunidades educativas visando à melhoria do aprendizado dos estudantes.
A educação ambiental educa com a sociedade, a vida e o planeta em mente. Quando aprendemos a reconhecer a complexidade da vida, passamos a respeitar, preservar e conservar. Precisamos conhecer nossa realidade para poder realizar nossos sonhos de qualidade de vida e construir a nossa felicidade. Cada escola pode ser, e algumas vezes já é, um local de pesquisas do mundo, partindo e voltando para seu cotidiano e sua própria realidade.
Assim sendo, implementar uma gestão socioambiental democrática, participativa, que trabalhe com a gestão de pessoas e de recursos físicos e financeiros deve ter em pauta que a convivialidade em uma escola sustentável é calcada no diálogo e no compartilhamento de informações, em que estudantes e demais componentes da comunidade escolar contribuem com a seleção das experiências de aprendizagem, com base nas suas histórias de vida, enquanto o educador assume o papel de facilitador.
Freitas (2013) sintetiza que “a complexidade da mudança pretendida em busca de modelos de escolas e de educação sustentável” deve ser reconhecida. No entanto, “esta é uma utopia necessária, é a mola propulsora para uma real mudança educacional e o começo da transformação social e da recuperação do equilíbrio ambiental”.
Prováveis soluções acerca da desmistificação dessa utopia foram formuladas por Morin (2000), que inspira o esboço de uma educação capaz de atuar coerentemente num processo de uma sociedade globalizada, conviver dignamente com a diversidade, com a singularidade, coma especificidade em escala planetária. Ainda para o autor, estamos vivenciandouma espécie de busca de um paradigma maior, capaz de abrigar tais transformações que se processam com velocidade incrível, não sendo possível uma separação nítida entre o concreto e o subjetivo. E a tomada de ciência desse “grande paradigma do Ocidente” do saber articulado homem-natureza leva à autonomia da mente. Para tanto, caberia à educação no processo ensino-aprendizagem, ensinar a condição humana com base na razão, mas também na afetividade, na emoção.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão. Vamos cuidar do Brasil com escolas sustentáveis: educando-nos para pensar e agir em tempos de mudanças socioambientais globais. Elaboração de texto: Tereza Moreira. Brasília: A Secretaria, 2012. 46p.
FREITAS, Denise. Cultura no espaço da diversidade, sustentabilidade e inclusão. São Carlos: EdUFSCar, 2013. (Coleção UAB-UFSCar).
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. (1921). Tradução de Catarina Eleonora F. da Silva e Jeanne Sawaya. 2. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000.

