Do luxo ao lixo

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Eu, etiqueta”, de Carlos Drummond (ANDRADE, 1984), aborda as necessidades que as pessoas têm sobre a própria imagem, em consequência da busca pela satisfação pessoal obtida perante e pelo olhar dos outros. Essas palavras parecem traduzir o cenário com o qual compartilhamos cotidianamente.

É notório que as pessoas se deixam influenciar pelo modismo pujante, sobretudo demarcado pelos meios de comunicação de uma forma geral. A afirmação do poeta sobre a questão do nome verdadeiro e do nome “grudado na calça”, torna-se instrumento indispensável para uma boa discussão: a crise de identidade gerada por tais influências.

Observam-se ainda questões ideológicas, muito bem exploradas pela própria ideologia do autor, bem como aspectos ligados ao consumismo.  Diante dos estudos realizados, é possível dizer que vivemos em uma sociedade fortemente marcada pela exploração excessiva dos recursos naturais, pela geração intensiva de resíduos e pela crescente exclusão social, conforme destacado no texto de Grimberg e Blauth (1998). Os autores ressaltam, ainda, que o estilo de vida das grandes cidades, associado ao marketing intenso, gera nas pessoas a necessidade de consumir cada vez mais.

Tendo em vista a importância de trabalhar a preservação ambiental desde o início da escolarização, mostrando que as ações humanas causam impactos no meio ambiente, a temática é sugerida nos Parâmetros Curriculares de Ciências Naturais do Ensino Fundamental I. Além disso, questões ambientais podem ser trabalhadas de forma interdisciplinar, envolvendo questões relacionadas às Ciências Humanas, ao mesmo tempo em que o professor trabalha a linguagem com os alunos.

Voltando à Drummond, compreende-se que a sociedade de consumo está calcada na ideia de satisfação dos desejos humanos. Tal promessa, contudo, mostra-se sedutora apenas enquanto o desejo permanece irrealizado e o que se torna permanente é, de fato, a insatisfação. A insatisfação se instala a partir do momento em que os produtos, logo após adquiridos, são depreciados e desvalorizados pelo próprio mercado ou, ainda, despertam novos desejos, por novos produtos. A “necessidade” torna-se, assim, compulsão ou vício (BAUMAN, 2007, p. 106-107).

Nesse sentido, a expressão “sociedade de consumidores” verbaliza mais do que a postura dos seus membros de gastar tempo e esforços visando ampliar seus prazeres, refletindo a percepção de que a política de vida dos indivíduos tende a ser remodelada com base nos meios e objetos de consumo, segundo as linhas da síndrome consumista (BAUMAN, 2007, p. 109).

Para Freitas (2013, p. 62),

O conceito teórico de sustentabilidade ainda carece de uma prática que possa permitir a abrangência de seu conceito primeiro: sobreviver e garantir a sobrevivência futura. Se nos apoiarmos nas discussões a respeito de consumismo, identificamos a fragilidade de promover a sustentabilidade, de não equacionarmos o consumo ou superá-lo em suas “invasões” na vida cotidiana.

Como vimos indivíduos se lançam em aquisições impensadas, “necessitando” consumir para definir o seu papel na sociedade, para alcançar o padrão pregado pela cultura de consumo, consequência de uma avaliação deturpada das suas possibilidades e má administração das suas finanças, o que já produz efeitos na economia do país e na questão da sustentabilidade. Por isso, como sugere Freitas (2013), é primordial que o educador abra espaços para construir referências e possibilidades de mudanças do quadro atual, pensando no real significado de uma proposta de Educação Sustentável (para si mesmo e para seus alunos).

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Carlos Drummond. Corpo. Rio de Janeiro: Record, 1984.

BAUMAN, Zygmund. Vida Liquida. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

FREITAS, Denise. Cultura no espaço da diversidade, sustentabilidade e inclusão. São Carlos: EdUFSCar, 2013. (Coleção UAB-UFSCar).

GRIMBERG E.; BLAUTH P. Coleta Seletiva: Reciclando materiais, reciclando valores. São Paulo: UNICEF/Polis, 1998.

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