-Paulo Ricardo Zargolin

A construção social do binômio inclusão/exclusão

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Freitas (2013) coloca que existe uma falta de consenso em relação à sinonímia exclusão social e pobreza: para alguns pesquisadores é claro que a exclusão social leva, impreterivelmente, à pobreza; outros pesquisadores não veem tantas relações e tão diretas.

Frente a esta discussão, é realmente complicado chegar a um silogismo ao refletir sobre essa questão. Concordo plenamente com Freitas (2013, p. 32), quando diz que “os contextos de privação e pobreza do mundo atual resultam de um processo de segregação étnico-cultural e econômica”, mas creio que as relações entre pobreza e exclusão social são tão complexas quanto a formação das sociedades contemporâneas e do mundo globalizado como o conhecemos e/ou o idealizamos.

No cenário atual, é recorrente a afirmação de que todos têm oportunidades iguais e que, se souberem aproveitar, terão chances iminentes de ascender socialmente. Mas esta é mais uma falácia moderna que dá suporte ao dito “Deus ajuda quem cedo madruga”. Ocorre que a grande minoria detém a maior parte da renda mundial e, por conseguinte, o poder nas diversas relações sociais não tem o menor interesse em oportunizar melhores condições de vida para outrem.

Nesse sentido, concordo com Campos (2003 apud FREITAS, 2013, p 33), quando diz que a “exclusão é mais abrangente que a situação de exploração ou marginalização, e não necessariamente coincide com a condição de pobreza”. Assim sendo, chega a ser utópico crer que o mundo, um dia, estará livre de pobreza, fome, miséria, corrupção, preconceitos e todas as mazelas que tem assolado a humanidade ao longo da história, principalmente porque há aqueles que fomentam e lucram com todos esses males.

Logicamente que a educação é a única arma que temos para lutar contra tudo isso. É com ela que se pode iniciar a batalha e ascender, sobretudo, culturalmente, considerando-se também uma compreensão múltipla do conceito de riqueza. Mas, como se sabe, nem todos tem acesso à educação e este, sim, é um grave problema. Além disso, também há aqueles que, embora estejam “inclusos” na sala de aula, não têm garantidos o direito a um ensino de qualidade ou não podem contar com profissionais especializados que os ajudem, como no caso dos surdos, por exemplo.

Em uma rápida retrospectiva histórica, Freitas (2013) mostra que o foco sobre um tipo de exclusão foi uma característica social de cada uma das décadas passadas. Nesse sentido, pode-se considerar a exclusão escolar das primeiras décadas do século XXI como tendo uma “solução de papel”, com a criação de legislações e políticas públicas que, obrigatoriamente, colocam o aluno dentro da escola, mas sem a estrutura necessária para o acolhimento dos indivíduos com necessidades especiais, sem a qualificação/contratação dos profissionais que irão recebê-los e sem a adequação até mesmo dos prédios das instituições de ensino.

Além disso, muitas vezes, a educação oferecida não tem a qualidade necessária para a formação de cidadãos autônomos e capazes de atender as demandas do regime econômico e social vigente e isso, sem dúvida, perpetua as relações de poder/trabalho e as condições de vida existentes, agravando as desigualdades e camuflando-as dia a dia.

Certos comportamentos que percebemos em nosso dia-a-dia nos permitem ver que a “inclusão-excludente” e a “exclusão-includente” são fenômenos sociais muito comuns. Freitas (2013, p. 35) explica que tais fenômenos “são estruturais e constituem mecanismos fundamentais à manutenção e à ampliação da ordem vigente”. É notória a existência de tais “dicotomias sociais” e vê-se claramente que, muito embora haja sensibilização e mobilização aparentes ou efetivas, os resultados de campanhas com a finalidade de “erradicar as desigualdades” são quase nulos. Há uma utopia generalizada, fomentada e induzida por diversos setores e instituições.

Cabe aqui um esclarecimento: seria pessimismo dizer que as propostas difundidas pelo Estado e por benfeitores de toda sorte não trazem bons resultados e, nesse sentido, é correto reconhecer que uma parcela da população menos favorecida pode ser, sim, beneficiada; mas a utopia de que falo é muito melhor visualizada em um contexto macroscópico e, infelizmente, está associada às relações de poder estabelecidas historicamente.

REFERÊNCIA

FREITAS, Denise. Cultura no espaço da diversidade, sustentabilidade e inclusão. São Carlos: EdUFSCar, 2013. (Coleção UAB-UFSCar).

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