Por: Paulo Ricardo Zargolin
Antoine Lavoisier, o nobre francês, considerado pai da química moderna, disse certa feita: “Na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Mais tarde, na produção do entretenimento televisivo, acrescentou-se que tudo se copia. Com o advento da globalização, as cópias passaram a ser também uma lei: se fez sucesso acolá, fará aqui.
Em 1998, a TV Globo lançou uma telenovela intitulada “Corpo Dourado“, que contava a história de Selena, uma moça durona e bruta, mas de bom coração, que nunca se intimidou em fazer trabalho pesado, o que lhe rendia o estranhamento de algumas pessoas por seu jeito rude e porte pouco feminino. Suas cenas eram embaladas pelo hit Pura Emoção, gravado por Chitãozinho e Xororó.
Nem a história nem a música eram originais. A protagonista, idealizada por Antônio Calmon, certamente bebeu de um pote de inspirações de Shakeaspeare (A megera domada) e de Fannie Flagg (Tomates Verdes Fritos). Já o som que aludia à personagem é uma versão de Achy Breaky Heart, maior sucesso de Billy Ray Cyrus desde 1992.
Ouvindo com atenção as duas edições, percebe-se a disparidade entre o que foi eternizado em inglês e o que, mais tarde, foi expresso em português-brasileiro para uma melhor adequação à mocinha de Cristina Oliveira.
Enquanto Cyrius canta a expressão de dor e fragilidade emocional de um homem diante de um término de relacionamento, com destaque para a profundidade de seu sofrimento e o medo de que seu coração não consiga lidar com mais dor; a dupla sertaneja tupiniquim interpreta a descrição de uma mulher enigmática e forte, que possui uma aparência e atitude que intimidam, mas que escondem uma possível paixão, sugerindo-se que ela ainda espera pelo amor e indicando uma mistura de força e vulnerabilidade.
Nem mesmo o tema de abertura da obra produzida pelo canal carioca escapa de uma contradição semelhante. E cabe refletir se as escolhas artísticas ao transpor a trilha para o português tenderiam a esconder uma certa fragilidade masculina da época. Senão, vejamos:
Em “Somente o Sol”, interpretada por Déborah Blando, encontra-se a descrição de uma profunda conexão emocional e física entre duas pessoas, com simbolismos de beleza e a continuidade desse amor, evocando sentimentos de anseio e alegria na companhia um do outro, emoldurados pelo ciclo natural de dia e noite, sugerindo um romance que se renova e se intensifica com o tempo.
Já em “I’m Not In Love”, versão original da banda 10cc, ouvimos a tentativa do narrador de negar seus sentimentos de amor, insistindo repetidamente que não está apaixonado. Apesar dessa negação, ele demonstra comportamentos contraditórios, como manter uma fotografia da pessoa amada e ligar para ela frequentemente. A música explora a complexidade dos sentimentos humanos e a dificuldade de admitir estar apaixonado, sugerindo uma luta interna entre o que o narrador diz sentir e suas verdadeiras emoções.
A adaptação dos referidos temas musicais para o público brasileiro revela, em certa medida, uma escolha cultural consciente que reflete não apenas a linguagem, mas também os valores e a sensibilidade do público local. Esse fenômeno ilustra como a tradução e a adaptação vão além das palavras, envolvendo um diálogo intercultural que ajusta a mensagem original para tocar de maneira mais eficaz o coração e a mente dos espectadores em diferentes contextos globais.
Assim, essas transformações e escolhas artísticas podem enriquecer a essência de obras originais, proporcionando novas camadas de interpretação e apreciação cultural. É mais do que uma discussão linguística, é quase química.
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Indicação de leitura:
SELIGMANN, M. Filosofia da tradução – tradução de filosofia: o princípio da intraduzibilidade (1998).

