Um dia de caçador

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Em uma cidade que agora chama de sua, ele caminhava pelas ruas com a leveza de quem conhece cada pedra do caminho. A cidade não era grande, mas tinha a solidez e a esperança de lugares forjados por histórias de superação e trabalho árduo. Ele, um concursado, havia já enfrentado e vencido desafios que o levaram a ocupar posições de certo prestígio e grande responsabilidade.

Naquela manhã, o céu estava límpido e o sol desenhava sombras nítidas nas calçadas enquanto ele se dirigia ao local onde seria realizado o certame. Era um papel diferente para ele, não como um candidato ansioso por uma oportunidade, mas como um fiscal, alguém que garantiria que o processo transcorresse de forma justa e ordenada. Ele sentia-se o caçador naquela ocasião, não em busca de presas, mas de garantir a integridade de um processo que poderia mudar vidas, assim como a sua fora mudada.

Lembrava-se de sua própria ansiedade nos dias em que foi avaliado, o suor frio nas mãos segurando a caneta, a mente fervilhando com o peso de cada decisão marcada no papel. Agora, ele observava essas mesmas expressões nos rostos dos candidatos. Cada um carregava uma história, uma esperança, um sonho. Ele sabia disso porque ele mesmo fora um rato naquela corrida, temeroso e pequeno, dependendo da benevolência de processos que, dantes, ele mal compreendia.

A ironia da situação não lhe escapava. Havia uma beleza quase poética em como as mesas viram. O leão que dorme, o rato que roeu as cordas que o prendiam. Ele, que já foi salvo por fios tênues de oportunidades, agora segurava as cordas que poderiam erguer outros.

O dia passou com a monotonia típica de provas – o tic-tac do relógio, o zumbido baixo de vozes sussurradas, o arrastar de pés cansados. Mas, para ele, cada momento era saturado de significado. Ele estava desempenhando um papel crucial, moldando não apenas seu futuro, mas o de sua cidade. E ao final do dia, enquanto recolhia os últimos papéis, sentiu uma gratidão profunda por poder retribuir, por ser tanto o caçador quanto o caçado, numa teia complexa de dádivas e recompensas.

Assim, voltou para casa não apenas como um funcionário público ou um fiscal, mas como um membro vital de uma comunidade que ele deseja humildemente que se esforce, cresça e, acima de tudo, apoie-se mutuamente em busca de um amanhã melhor.

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