Por: Paulo Ricardo Zargolin
O teatro do discurso humano sempre teve seus artifícios. A cortesia exagerada, o pedido de desculpas sem remorso, a redundância amorosa para enfeitar o que já se sabe. Sim, somos seres de relação, e a comunicação não é só transmissão de dados, mas um jogo de tabuleiro em que a próxima jogada sempre depende da disposição do outro em seguir jogando. Antônio Suárez Abreu nos ensinou isso em A Arte de Argumentar, ao evidenciar que a vida social exige uma gestão meticulosa da fala e do silêncio, do que se diz e do que se cala. Afinal, quem não sabe administrar o próprio discurso vira escravo das palavras já ditas.
E foi exatamente isso que aconteceu com Karla Sofía Gascón. Em um mundo onde a memória digital nunca perdoa, antigas declarações ressurgem como fantasmas para assombrar os que tentam reinventar-se. A protagonista de Emilia Pérez viu sua atuação ofuscada por tweets esquecidos no sótão da internet, mas ressuscitados como troféus da indignação seletiva. O problema? Não foi o talento. Foi o gerenciamento de relação.
O mesmo gerenciamento que move casais a repetirem ‘Eu te amo’ à exaustão ou que faz vendedores de carros mudarem mesas retangulares por redondas para suavizar hierarquias. O que importa não é só o que se diz, mas como se diz, quando se diz e, sobretudo, para quem se diz. No grande sertão da comunicação contemporânea, não há veredas suficientemente seguras para quem menospreza a força de uma palavra mal colocada.
A Netflix, como boa gestora de sua própria imagem, correu para esclarecer: o problema não era o filme, mas a polêmica. O que deveria ser um marco cinematográfico virou manchete por razões alheias à sétima arte. Como Antônio Suárez Abreu bem pontuaria, o discurso que se constrói no presente precisa, antes de tudo, administrar os fantasmas do passado.
No fim das contas, os humanos se comunicam mais para negociar existências do que para trocar informações. Um CEO se desdobra em relações públicas para salvar sua reputação, um casal repete votos para não deixar o amor esmaecer, e um artista pode perder tudo porque falhou em gerenciar sua relação com o tempo e a memória coletiva. E no grande palco da sociedade, as palavras têm consequências. Elas não desaparecem — apenas esperam o momento certo para cobrar seu preço.

