Sem voz e sem vez: o adultismo que confunde controle com educação

Por: Paulo Ricardo Zargolin

O adulto, esse ser de cérebro maduro e mãos ligeiras, sempre tão seguro de si, clama por respeito enquanto desrespeita. Ensina sobre dignidade enquanto impõe a submissão. Esbraveja contra a desordem que ele próprio semeia. Mas, afinal, a quem ele pretende enganar?

Na sala de aula, um professor regozija-se ao ver os alunos apartados dos celulares. Voltam a olhá-lo, ou ao menos fitar a madeira descascada da carteira. A tecnologia, essa vilã intransigente, finalmente foi posta no exílio, e agora sim, aprenderão! Agora sim, serão forjados na têmpera do conhecimento, como nos tempos áureos da palmatória e da cartilha inflexível.

Do outro lado do muro, no reino infantil, os pequenos aprendem desde cedo que seus sentimentos não são válidos. O choro precisa ser engolido, a dor precisa ser desprezada, e o beijo forçado na tia estranha é prova de boa educação. Se contestam, se resistem, se ousam existir fora do script traçado pelos grandes senhores do saber, são logo corrigidos pelo chicote disfarçado de bronca.

Dois pesos, duas medidas. O adulto pode se distrair com seu WhatsApp em meio à reunião inútil, pode derrubar o café na mesa e receber um ‘acontece’, pode evitar o abraço pegajoso do colega sem ser taxado de insuportável. Mas a criança e o jovem? Ah, esses precisam ser formatados, moldados, submetidos! Afinal, é necessário prepará-los para a vida dura que os aguarda, e nada melhor do que um treinamento intensivo em desapropriação de si mesmo.

Então, celebra-se a sala sem celular. Celebra-se a infância sem voz. E os adultos, vitoriosos, seguem firmes em sua convicção: de que sabem o que fazem, de que são melhores do que aqueles que vieram depois. Enquanto isso, o mundo continua seu ciclo, rindo de nossa vã tentativa de controle. Rindo do nosso adultismo1 disfarçado de educação. Rindo, sobretudo, de nós.

Mas há um caminho possível? Talvez. Talvez resida na escuta, no olhar atento, na disposição para aprender com aqueles que julgamos imaturos. Talvez o segredo esteja na humildade de admitir que ensinar não é impor, mas compartilhar. Que educar não é reduzir, mas expandir. Que crescer não significa endurecer, mas compreender.

Quem sabe um dia possamos ser grandes o suficiente para tratarmos os pequenos com o respeito que exigimos para nós mesmos. Se quisermos realmente uma geração de adultos críticos, íntegros e capazes de transformar o mundo, precisamos começar sendo os adultos que gostaríamos que eles se tornassem. O futuro não se constrói com ordens e castigos, mas com exemplos e diálogos. O primeiro passo? Admitir que controlar o outro é mera ilusão.

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1 Maya Eigenmann, autora do livro “A Raiva Não Educa, a Calma Educa”, aborda o adultismo como uma forma de opressão estrutural na relação entre adultos e crianças. Segundo sua visão, o adultismo se manifesta quando adultos utilizam sua posição de poder para impor controle, silenciar emoções e moldar as crianças à sua conveniência, sem considerar suas necessidades, sentimentos e direitos.

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