Troco em bala

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Houve um tempo em que a vida cabia numa esquina qualquer, entre o bar do Mané e a venda da dona Rosa. A moeda era pouca, mas sempre havia um jeito de transformar centavos em festa: bastava uma embalagem colorida de açúcar e leite. O que se ganhava, mais que um doce, era um gesto — um acordo tácito de gentileza, um carinho embrulhado, uma aula silenciosa sobre simplicidade.

Na infância das décadas de 80 e 90, tudo era pretexto para pequenas negociações. Quem não se lembra de devolver garrafas vazias em troca de um chiclete ou de prometer pagar depois, com aquela confiança inocente de quem ainda acreditava em palavra? Havia um pacto de ternura no cotidiano, uma delicadeza que escapava até nos olhares dos adultos. As ruas eram sala de estar, o tempo se esticava ao sabor das brincadeiras e, ali no balcão, o baleiro girava — não apenas por sorte, mas por pura expectativa.

Aceitar o doce no lugar de trocados era costume, não exceção. Ninguém discutia direitos do consumidor, ninguém abria reclamação. A justiça vinha na forma de uma bala derretendo devagar. O ritual era simples: olhar a vitrine, ouvir o tilintar das moedas e sussurrar um “tudo bem, pode ser assim”. E ganhávamos muito: histórias, risos, o aconchego de um mundo menos urgente.

Hoje, o giro acelerou. O velho baleiro sumiu, substituído por máquinas e senhas digitais. Doces perderam espaço para boletos, afetos foram diluídos em notificações e curtidas. A infância se tornou mercadoria, servida em vídeos rápidos, vendida como experiência premium. O dinheiro, agora invisível, não pinga mais nas mãos, e a barganha virou debate, thread, meme — militância esvaziada, extremismo de bolso, tudo pelo lucro do instante.

A conversa singela, antes tão comum, virou embate ou monólogo. Perdemos a arte de pedir e receber, de trocar o pouco pelo muito. Tudo ficou sério demais, crítico demais, raso demais — e esquecemos como era bom aceitar um gesto simples, sem cálculo, sem segunda intenção.

E aí fica a pergunta: quando, afinal, a leveza se perdeu e o discurso virou moeda? Em que ponto deixamos de enxergar valor no singelo, no que não dá lucro, no que só serve pra alegrar uma tarde? Em que momento paramos de estender a mão, sorrindo, diante da oferta generosa de uma bala?

A vida segue sem devolver trocos exatos. E talvez, se alguém ainda ousar oferecer aquilo que não cabe na planilha nem no discurso pronto, reste a quem recebe decidir: engole seco, recusa por princípio ou deixa derreter na boca a delicadeza que o tempo quase apagou.

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