Paulo Ricardo Zargolin
Ninguém na escola sabia direito o que dizer à faxineira.
Limitavam-se a tocar-lhe o braço, oferecer café, repetir frases automáticas. A mãe morrera naquela madrugada, depois de meses de hospital. A mulher limpava os corredores como se estivesse em outro fuso horário, ausente, mecanizada, com os olhos opacos de quem já chorou tudo antes.
O que ninguém sabia — ou fingia não saber — é que aquela morte não era simples.
A mãe fora, na juventude, uma mulher dura. Miserável, instável, capaz de negociar afetos como quem troca mercadorias. Quando a faxineira tinha sete anos, um homem estrangeiro aparecera na cidade. Prometera dinheiro, futuro, salvação. A mãe quase vendera a filha. Não conseguiu. A transação falhou por detalhes burocráticos. A menina ficou.
Ficou com a mãe.
E com a cicatriz.
Por isso o luto vinha contaminado. Chorava, mas com raiva. Sofria, mas com alívio. Sentia falta e, ao mesmo tempo, sentia-se vingada pelo destino.
No velório, as pessoas se aglomeravam em torno do caixão, comovidas, piedosas, repetindo a liturgia social da morte.
Até que a porta se abriu.
A irmã entrou.
Vestia-se como uma boneca-palhaça-mímica: rosto pintado de branco, olhos enormes, cílios desenhados, laços exagerados, roupas infantis fora de escala. Caminhava em passos curtos, teatrais. Observava os choros com curiosidade quase cômica.
Então começou a zombar.
Imitava os soluços. Repetia gestos dos enlutados. Fingía desmaiar de dor, teatralmente, e se recompunha em segundos, como num espetáculo grotesco.
O velório congelou.
A faxineira viu.
Viu tudo.
Mas não se moveu.
Ficou paralisada entre o impulso de avançar e o peso de uma verdade que emergia tarde demais.
Porque aquela mulher não era apenas sua irmã.
Era a criança que não ficara.
A bebê que a mãe conseguira vender anos depois.
A que fora levada para a Espanha.
A que crescera nos porões do tráfico humano.
A que perdera os órgãos ainda criança.
A que sobrevivera mutilada.
A que voltava agora — não para chorar a mãe, mas para expor a farsa do luto.
A palhaça não zombava da morte.
Zombava da hipocrisia.
Zombava da família.
Zombava da cidade inteira.
E a faxineira compreendeu, imóvel:
Algumas dores não produzem lágrimas.
Produzem monstros.
Corte seco.
Uma sala moderna em Madri.
Três jovens discutem em alemão e espanhol.
Um deles fecha o notebook e diz:
— A cena do velório é forte. Mas precisamos de algo mais perturbador. O público tem que se sentir cúmplice.
Outro responde:
— Não é só um drama social. É sobre como consumimos tragédias como espetáculo.
Eles não falam de pessoas.
Falam de personagens.
A faxineira, a mãe, a irmã.
Tudo é roteiro.
Eles estão tentando cofinanciamento para o filme.
A dor virou argumento de venda.
O sofrimento virou pitch.
E, enquanto ajustam o orçamento, alguém comenta:
— Histórias assim sempre funcionam. Miséria, crime, família disfuncional. É universal.
Do lado de fora, Madri segue viva.
E, em algum lugar, real ou não, uma mulher limpa o chão de uma escola imensa, sem saber que sua tragédia agora pertence ao mercado internacional de emoções.
Nota do autor
Este texto nasceu de um sonho.
Não de um sonho doce, mas de uma dessas visões noturnas que parecem condensar medo, memória, crueldade e espetáculo numa única cena.
Ao passá-lo para a escrita, preservei menos os fatos do que a vertigem.

