Ana Paula #01

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Ele fez questão.

Não por afeto. Nem por saudade. Por estilo. Gostava de parecer maior do que as circunstâncias. Aniversário, para ele, não era celebração. Era vitrine.

Organizou tudo com o cuidado exato de quem queria que a noite parecesse espontânea, embora cada detalhe tivesse sido pensado para produzir efeito. As pessoas certas, as bebidas certas, o tipo de risada que valida um anfitrião. E, no meio da lista, Ana Paula.

Comentaram que ela não viria.

Doente.

Houve quem sugerisse prudência. Houve quem insinuasse que a presença seria inadequada. Ele ouviu tudo com a superioridade morna de quem já decidiu ignorar.

Doença, para ele, era um problema que os outros administravam mal. Bastava não dramatizar. Bastava um pouco de leveza. Bastava convívio. Essa era a sabedoria dos imprudentes: chamar de equilíbrio aquilo que sempre foi só arrogância bem penteada.

Quando Ana Paula chegou, não provocou espanto.

Provocou correção.

Estava branca. Não apenas pela roupa, mas pelo conjunto. Havia nela uma palidez excessiva, como se a própria presença tivesse sido lavada até perder quase toda a matéria.

Parou longe.

— Eu não devia ter vindo.

Ele sorriu com aquela cordialidade de superfície que serve menos para acolher do que para controlar a cena.

— Mas veio.

Ela não correspondeu ao tom. Manteve a distância com precisão.

— Não posso chegar perto.

Não havia drama na voz. Nem culpa. Apenas limite.

Mas ele nunca soube lidar bem com limites alheios, sobretudo quando surgiam diante de plateia. Havia sempre a tentação de convertê-los em teatro, de esmagar o constrangimento com algum gesto triunfante.

Avançou.

Tomou-lhe as mãos.

As luvas estavam frias. Brancas, espessas, inadequadas ao ambiente. Um detalhe que estragava a naturalidade da cena e, por isso mesmo, deveria tê-lo alertado. Mas ele pertencia à espécie dos que confundem alerta com exagero.

Ela recuou de leve.

— Sou uma bomba-relógio… desculpe.

Disse aquilo com uma calma quase cansada, como quem já se habituara a avisar sem ser levada a sério.

Ele riu.

Não por crueldade. Por hábito. Tinha talento para dissolver a gravidade das coisas antes que elas o atingissem.

— Boom.

Alguns riram também.

Era assim que ele mantinha o próprio prestígio: rebaixando o que merecia atenção até que parecesse histeria dos outros.

Ana Paula soltou as mãos, virou-se e foi embora. Sem cena. Sem apelo. Sem o menor interesse em disputar interpretação com um fanfarrão cercado de cúmplices ocasionais.

A festa continuou.

Ele também.

Circulava entre os convidados com a desenvoltura habitual, o copo sempre à mão, o riso fácil, a convicção preguiçosa de que tudo estava sob controle. Sempre esteve. Os homens como ele vivem dessa ilusão artesanal: acreditam que dominam o ambiente apenas porque ainda não foram desmentidos.

Até o primeiro sinal.

Uma mancha no dedo.

Branca.

Não parecia queimadura. Não parecia pó. Não parecia nada que merecesse nome imediato. Tinha a espessura irritante de uma pomada mal espalhada. Ele tocou. Coçava.

Mostrou a mão a alguém.

Fez graça.

Recebeu o riso que esperava.

Mas o corpo, ao contrário dos convidados, não tinha qualquer compromisso com a manutenção do personagem.

As manchas começaram a se multiplicar. Subiram pelos dedos, avançaram pela pele com uma disciplina estranha, como se obedecessem a uma lógica anterior àquela festa, anterior àquela casa, anterior talvez à própria piada.

Ele foi até a pia.

Água resolve. Sempre resolve. Era uma dessas certezas domésticas que dispensam prova, justamente porque quase nunca são testadas em situações reais.

Abriu a torneira.

Lavou.

Esfregou.

A coceira piorou.

A pele ardeu.

Insistiu.

Então veio o sangue.

Não muito. Só o bastante.

O suficiente para desmoralizar o tom.

O suficiente para encerrar a brincadeira.

Ele afastou as mãos da água e olhou melhor.

As manchas haviam voltado.

Mais nítidas.

Mais brancas.

Quase insolentes.

Como se a tentativa de limpá-las tivesse apenas removido o verniz e deixado à mostra aquilo que já estava decidido desde o toque.

Pela primeira vez naquela noite, ele ficou sem gesto.

As mãos suspensas, o rosto esvaziado, o ridículo ainda fresco no ar.

Foi nesse instante curto e humilhante que compreendeu o óbvio, essa forma tardia de inteligência reservada aos que só aprendem quando o corpo é obrigado a admitir o que o caráter recusou: nem toda presença é convite; nem todo aviso admite ironia; e há contatos que não pedem proximidade!

Mas isso ele só entendeu tarde, como entendem os vaidosos, quando a lição já havia rompido a pele.

Com as mãos abertas.

E um pouco de sangue.

0Capa da categoria Acervo com a palavra “Acervo” em letras metálicas prateadas, sendo a letra O substituída por uma maçã prateada. Ao fundo, uma biblioteca digital futurista com estantes, documentos, telas e interfaces tecnológicas em tons de prata.

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Uma resposta para “Ana Paula #01”

  1. […] o Capítulo 1, aqui. Acompanhe a série “Ana Paula”, aqui. Volte ao início, […]

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