Maçã-verduda

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Há fenômenos da internet que, embora pareçam apenas ridículos à primeira vista, acabam revelando algo mais profundo sobre o tempo em que surgem. As chamadas “novelas de frutas”, produzidas por inteligência artificial e impulsionadas pela lógica viral das plataformas, pertencem a esse tipo de acontecimento. Com personagens hipersexualizados, tramas melodramáticas e um repertório de clichês que mistura escândalo, desejo, humilhação e vingança, esses vídeos não chamam atenção apenas pelo absurdo. Eles expõem, de maneira quase involuntária, uma forma de consumo cada vez menos interessada em sentido e cada vez mais dependente de estímulo.

O que impressiona não é somente a existência desse conteúdo, mas a facilidade com que ele captura o olhar coletivo. Milhões acompanham essas micronarrativas protagonizadas por abacates musculosos, morangos sensuais e maçãs transformadas em caricaturas de apelo visual. O êxito não está na qualidade da construção, nem na coerência estética, muito menos na força dramática dos enredos. O que sustenta sua circulação é a capacidade de provocar reação imediata, ainda que à custa de excesso, repetição e estranhamento. Já não se exige que a imagem diga algo; basta que ela retenha.

É nesse ponto que a reflexão toca o Logosgrafia de maneira mais simbólica. Quando a maçã se torna emblema de um projeto, ela não funciona apenas como ornamento gráfico ou assinatura visual. Ela carrega uma memória cultural espessa: já foi associada ao conhecimento, à transgressão, à descoberta, à tentação e ao risco. No Logosgrafia, essa maçã-verduda não aponta para um objeto pronto, higienizado e vazio, mas para uma ideia de linguagem ainda viva, orgânica, atravessada pelo tempo, pela imperfeição e pela possibilidade de amadurecimento. Ela não existe para ser consumida de imediato; existe para sugerir camadas.

Nas novelas de frutas geradas por IA, contudo, a fruta já não opera como símbolo. Ela comparece como superfície chamativa, mobilizada para prender atenção num circuito em que tudo precisa nascer exagerado, veloz e descartável. Não há problema em recorrer ao nonsense, ao grotesco ou ao exagero; a arte sempre soube fazer disso um campo expressivo potente. O que empobrece a experiência não é o absurdo em si, mas sua redução a fórmula automática, desprovida de intenção mais funda, de elaboração formal ou de qualquer risco criativo verdadeiro.

Talvez por isso a expressão brain rot, tantas vezes usada para descrever esse tipo de conteúdo, mereça ser levada um pouco além da piada. O ponto não está em acusar o público de burrice, nem em opor uma suposta alta cultura a tudo o que se torna popular nas redes. O problema é mais estrutural: estamos cercados por ambientes digitais que premiam aquilo que interrompe o pensamento antes mesmo que ele comece. A repetição hipnótica, a fragmentação extrema e o apelo imediato não se tornaram centrais por acaso; eles respondem com eficiência à economia da atenção, que transforma permanência em valor de mercado e reação em critério de relevância.

Há, ainda, uma ironia difícil de ignorar. Enquanto esses conteúdos simulam criatividade por meio de ferramentas capazes de combinar imagens, vozes e enredos em poucos segundos, o que se vê muitas vezes é justamente o esvaziamento da imaginação como experiência humana mais lenta, mais arriscada e mais autoral. A máquina produz o fragmento; o algoritmo distribui; o público reage; e o ciclo se completa sem que quase nada precise amadurecer. O resultado pode até divertir, viciar ou intrigar, mas raramente permanece. Ele ocupa, mas não fecunda.

Diante disso, talvez a pergunta mais honesta não seja se esse tipo de conteúdo deve ou não existir. A questão mais importante é outra: o que, em nós, ainda resiste à pressa de consumir tudo antes que algo se torne linguagem? Em tempos nos quais a imagem vale sobretudo por sua capacidade de interromper o fluxo por alguns segundos, preservar um símbolo como espaço de densidade já é um gesto de contraponto. Escrever, então, talvez seja menos um luxo do que uma forma de restituição: devolver peso, tempo e espessura àquilo que o ambiente digital insiste em reduzir a impulso.

Se a maçã virar apenas personagem, ela servirá ao ruído do momento e desaparecerá com ele. Mas, se ainda puder ser lida como signo, como matéria de pensamento e como figura de travessia, haverá nela algo que não se entrega tão facilmente ao desgaste. Talvez seja essa a tarefa mais silenciosa de um espaço como o Logosgrafia: lembrar que nem tudo o que circula produz sentido, e que nem todo fruto maduro nasceu para ser devorado às pressas.

Fediverse reactions

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


2 respostas a “Maçã-verduda”

  1. […] vocês chegaram até aqui, saibam: ele apronta, sim. Mas apronta com método, com linguagem, com maçã verde no bolso e um projeto inteiro fazendo cócegas na […]

  2. […] há uma camada ainda mais delicada nessa conversa: a inteligência artificial. Se antes já era possível construir mundos inteiros sem sair do estúdio, agora se aproxima a […]

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo