Por: Paulo Ricardo Zargolin
A humanidade é curiosa.
Passa séculos cometendo um crime, lucra com ele, ergue impérios sobre cadáveres, embranquece a própria memória, alfabetiza crianças com versões higienizadas do horror e, um belo dia, reunida em auditório, descobre que talvez tenha passado um pouco dos limites.
Foi isso.
Depois de sequestrar milhões de africanos, acorrentá-los em porões, vender mães, estuprar mulheres, açoitar homens, arrancar línguas, nomes, deuses, terras e futuros, depois de transformar gente em engrenagem, sangue em açúcar e sofrimento em patrimônio, o mundo resolveu reconhecer que a escravidão foi “o crime mais grave da história da humanidade”.
Resolveu. Como quem comenta uma gafe antiga num jantar elegante.
A frase é correta. Tardiamente correta. Obscenamente correta. Mas há algo de pornográfico nessa moral internacional que só encontra firmeza depois que o lucro já foi herdado, lavado, investido, tombado e transformado em museu, banco, porto, palácio, sobrenome e influência geopolítica.
É muito cômodo chamar de monstruoso aquilo que já rendeu tudo o que tinha para render.
Difícil não é reconhecer o crime depois de quatro séculos.
Difícil é devolver o que ele produziu.
Difícil é admitir que a riqueza de muitos países ainda tem o cheiro da carne negra apodrecida no porão.
Difícil é olhar para o mapa do mundo e perceber que o atraso de uns foi cuidadosamente construído para sustentar a elegância de outros.
Aí começa o teatro.
Uns votam a favor, com a compostura solene de quem posa para a fotografia da consciência.
Outros se abstêm, como quem diz: “não discordo do horror, apenas prefiro não me envolver nas consequências”.
E alguns votam contra, porque toda infâmia, para continuar viva, precisa de servidores explícitos.
A hipocrisia humana é tão vasta que consegue transformar o óbvio em conquista civilizatória.
Sim, chegou-se ao ponto de celebrar que o mundo tenha finalmente admitido que tratar pessoas como carga, como ferramenta, como bicho de tração, como ventre reprodutor de mão de obra cativa, talvez tenha sido ruim.
Talvez.
O mais nojento não é a demora.
É a coreografia.
Condena-se a escravidão com a boca cheia de princípios e as mãos vazias de reparação.
Faz-se discurso sobre memória enquanto o racismo segue empregado, armado, institucionalizado e produtivo.
Erguem-se resoluções enquanto descendentes dos escravizados continuam disputando migalhas em sociedades construídas precisamente para lhes negar tudo.
A humanidade adora parecer melhor do que é.
Tem fascínio por epitáfios morais.
Mata, explora, estupra, saqueia, desumaniza e depois escreve um texto bonito para dizer que lamenta muito.
Lamenta nada.
Se lamentasse, reparava.
Se lamentasse, restituía.
Se lamentasse, não trataria a escravidão como tragédia encerrada, mas como máquina histórica cujas engrenagens continuam rodando sob outros nomes, com outros uniformes, em outros balcões.
Porque a grande incoerência humana não está só no passado.
Está no fato de que o mundo condena a escravidão antiga sem coragem de desmontar as estruturas que ela deixou funcionando.
Querem o conforto da condenação sem o peso da justiça.
Querem a beleza da frase sem a violência da reparação.
Querem parecer humanos sem renunciar aos dividendos da barbárie.
No fundo, a resolução é menos sobre o crime e mais sobre a pose.
A humanidade não se revoltou contra a escravidão quando ela enchia cofres.
Não se revoltou quando ela fundava economias.
Não se revoltou quando o chicote era política pública e o navio negreiro, tecnologia de progresso.
Revolta, agora, quando o sangue já secou nas contas certas.
É por isso que há algo de insuportável nessa cena.
Não porque seja falso dizer que foi o maior crime da história.
Mas porque é indecente dizê-lo com tamanha tranquilidade, como se o mundo não tivesse passado séculos tratando o genocídio negro como etapa de desenvolvimento.
A humanidade é, às vezes, um animal de luxo vestido de princípio. Faz atas sobre a própria selvageria. Redige moções sobre crimes dos quais ainda usufrui.
E chama isso de avanço.
Avanço seria outra coisa.
Avanço seria sentir vergonha a ponto de sangrar.
Avanço seria reconhecer que não houve civilização onde houve mercado de gente.
Avanço seria admitir que toda fortuna erguida sobre correntes devia carregar, no mínimo, o constrangimento de devolver.
Mas isso já seria humanidade demais para uma espécie que sempre soube nomear o horror depois de lucrar com ele.

