Pudim e Toddynho em: os melhores abraços

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Há abraços que cabem nos braços.

Outros cabem na vida inteira.

Alguns duram segundos, mas voltam décadas depois, no meio de uma tarde comum, quando a gente sente um cheiro, vê um pelo no chão, escuta um latido distante, encontra uma bolinha esquecida atrás do móvel ou abraça dois bichinhos novos com tanta força que quase entende, de uma vez só, tudo o que já perdeu, tudo o que já amou e tudo o que ainda está aprendendo a cuidar.

Foi assim que este texto nasceu.

Não de uma grande teoria.
Não de uma revelação mística.
Não de uma epifania com trilha sonora de violino e janela aberta para o pôr do sol.

Nasceu de Pudim e Toddynho.

Mais precisamente, nasceu do escândalo silencioso que é abraçá-los.

Porque há seis meses eles chegaram ao mundo, e, desde então, a casa nova deixou de ser apenas casa. Passou a ser território afetivo. Passou a ter pequenas rotas de alegria. Cantos com cheiro de descoberta. Horários bagunçados por fofura. Interrupções absolutamente necessárias. Aquela desordem mínima que só os bichinhos conseguem produzir sem pedir desculpas, porque sabem, com alguma ciência anterior à linguagem, que a vida humana precisa ser interrompida por amor.

Mas, antes de Pudim e Toddynho, houve outros abraços.

Alguns vieram cedo, na infância, quando uma gatinha apareceu em casa como quem cai do céu sem aviso, sem certidão e sem manual de instruções. Dei-lhe o nome de Mimi. Era um nome doce, redondo, desses que a infância escolhe sem consultar a burocracia do mundo.

Depois, descobrimos que Mimi era macho.

E Mimi virou Mimo.

A realidade corrigiu o nome, mas não corrigiu o encanto. Talvez até tenha aumentado. Porque havia algo muito bonito naquela pequena confusão inaugural: a criança aprendendo que o amor chega antes da classificação. Antes do gênero. Antes da ficha cadastral. Antes da pergunta adulta que tenta organizar tudo.

Mimo ficou pouco tempo. Logo descobrimos que tinha dono.

Foi embora.

Mas há presenças que nem precisam ficar muito para inaugurar uma região dentro da memória. Mimo foi breve, mas deixou uma espécie de primeiro registro: o bichinho como visita do inesperado. Como alegria que entra pela porta, bagunça o nome, ensina ternura e parte antes que a gente aprenda a se despedir direito.

Depois veio a adolescência, essa fase em que ninguém sabe muito bem se late, morde, chora ou escreve poemas ruins escondido.

E, nesse território de rebeldia, apareceu Fox.

Fox era um Fox Paulistinha chamado Fox, o que já era quase uma redundância genial. Ele parecia mesmo uma raposa. Lindo, esperto, serelepe, arteiro, teimoso. Um pequeno ser elétrico, desses que não entram numa casa: invadem uma biografia.

Era bravo. Rebelde. Difícil de lidar.

Mas há bichos difíceis que parecem carregar uma beleza ainda mais insolente, como se dissessem: “Você vai me amar mesmo assim, porque eu não fui feito para facilitar sua vida; fui feito para torná-la memorável.”

Fox era assim.

Não era o tipo de cachorro que se encaixava facilmente no ideal domesticado de fofura obediente. Ele tinha personalidade. E personalidade, às vezes, vem com latidos, teimosias, artes, fugas de roteiro e aquela capacidade muito particular de transformar qualquer ordem humana numa sugestão sem importância.

Infelizmente, nós o perdemos.

Talvez por intoxicação. Talvez por um osso de frango achado no lixo. Talvez por alguma maldade que nunca pôde ser provada, mas que pairou como suspeita, porque havia vizinhança incomodada com seus latidos. E há pessoas que, diante da alegria barulhenta dos outros, preferem matar o som a compreender a vida.

Fox deixou um abraço que nunca aconteceu depois.

Esse é um dos piores tipos de abraço: o abraço que a memória tenta dar em quem já não está mais ali.

Na vida adulta inicial, ainda morando com meus pais, vieram Billy e Cacau.

Eles chegaram com as compras.

Há coisas que a gente busca no supermercado: arroz, feijão, sabonete, detergente, alguma promoção duvidosa. E há coisas que nos encontram em frente ao supermercado, num dia de doação, como se a vida dissesse: “Você achava que vinha abastecer a casa, mas hoje vai abastecer a alma.”

Billy e Cacau vieram juntos.

Uma duplinha.

Hoje, estão velhinhos para cachorro. Gordos. Lindos. Absolutamente dignos daquela beleza que só o tempo dá aos bichos amados. Billy, macho arrepiado, com pelos pretos já grisalhos, como se a vida tivesse passado os dedos nele e deixado sinais de prata. Cacau, fêmea sedosa, de pelugem preta com manchas ocres, dessas que parecem pintadas por uma delicadeza paciente.

O abraço deles pede silêncio.

Não é abraço de festa.
Não é abraço de euforia.
Não é abraço de novidade.

É abraço de permanência.

Abraçar um bichinho envelhecido é tocar o tempo sem que ele nos explique nada. É sentir que a vida passou, que muita coisa mudou, que a gente também já não é o mesmo, mas que alguma coisa ficou ali, respirando, engordando, envelhecendo, olhando para nós como se dissesse: “Eu estive aqui enquanto você virava quem é.”

E houve Nina.

Nina foi abandonada perto de casa porque tinha leishmaniose.

Essa frase é curta, mas carrega uma crueldade inteira.

Porque existem abandonos que não são apenas abandono. São sentença. São descarte. São o fracasso humano vestido de praticidade.

Mas Nina não era descarte.

Nina era uma lady.

Branquinha. Elegante. Discreta. Não latia. Não se misturava muito às brincadeiras dos “meio-irmãos”. Parecia pertencer a uma aristocracia silenciosa dos bichos, dessas criaturas que não exigem o centro da cena, mas mudam o ambiente apenas por estarem ali.

Ela estava doente, sim.

Mas viveu conosco bons anos.

E isso também é abraço: não apenas apertar contra o peito, mas permitir que alguém permaneça apesar da doença, apesar da fragilidade, apesar da sentença que outros deram antes de conhecer a alma.

Mais tarde, na vida adulta funcional, aquela vida de apartamento, trabalho, boletos, horários, responsabilidades e pequenas negociações com o possível, vieram Dentinho e Wassabi.

O apartamento não dava muitas opções.

A vida adulta, às vezes, é isso: amar dentro dos limites. Querer mais espaço, mas ter metragem. Querer mais tempo, mas ter expediente. Querer mais mundo, mas ter condomínio, aluguel, agenda e cansaço acumulado.

Dentinho era um coelho.

E, como tantos seres delicados, precisava de mais do que comida, canto e cuidado básico. Precisava de companhia. Precisava de presença. Precisava de um mundo que não fosse interrompido tantas vezes pelo trabalho.

Dentinho ficou sozinho demais.

Entrou em depressão.

E faleceu num abraço.

Há dores que não se escrevem sem culpa. E a culpa, quando é honesta, não serve para torturar eternamente. Serve para ensinar. Serve para abrir uma ética. Serve para lembrar que amor não é apenas intenção bonita. Amor também é condição concreta. É tempo. É ambiente. É companhia. É possibilidade real de vida.

Dentinho ensinou isso do modo mais triste.

Wassabi, a tartaruguinha aquática, ensinou de outro modo.

Foi devolvida à natureza.

Porque havia algo doloroso em vê-la presa num aquário, limitada por paredes transparentes, vivendo uma liberdade cenográfica. Às vezes, amar é admitir que o nosso colo não é o melhor lugar do mundo. Às vezes, o melhor abraço não é segurar. É soltar.

Wassabi recebeu o abraço das águas.

E talvez esse tenha sido o gesto mais adulto de todos: compreender que nem toda presença precisa ser possuída para ser amada.

Então chegamos ao presente.

Pudim e Toddynho.

Dois nomes que já parecem pedir sorriso antes mesmo de qualquer explicação.

Eles nasceram há seis meses e trouxeram alegria para uma casa nova. Mas, na verdade, fizeram mais do que alegrar. Eles organizaram uma espécie de retrospectiva afetiva sem pedir licença.

Porque, ao abraçá-los, todos os outros voltam.

Mimo volta com seu nome trocado e sua passagem breve.

Fox volta com sua beleza rebelde, sua raposice doméstica, sua teimosia encantadora e sua ausência ainda injusta.

Billy e Cacau voltam com o peso manso dos anos, com a ternura madura dos corpos velhinhos, gordos e lindos.

Nina volta branca, quieta, lady, lembrando que dignidade não late para ser percebida.

Dentinho volta como pergunta dolorosa sobre o que o cuidado exige.

Wassabi volta como água, como liberdade, como abraço que não prende.

E Pudim e Toddynho, sem saberem de nada disso, recebem todos esses abraços acumulados.

Eles acham que estão sendo apenas apertados com carinho.

Não sabem que estão sendo abraçados por uma infância inteira. Por uma adolescência ferida. Por uma vida adulta em aprendizagem. Por casas antigas. Por supermercados. Por quintais. Por apartamentos. Por perdas. Por culpas. Por perdões. Por alegrias que tiveram patas, pelos, cascos, orelhas, silêncios, doenças, travessuras e nomes improváveis.

Abraçar Pudim e Toddynho é, portanto, muito mais do que abraçar Pudim e Toddynho.

É abraçar todos os bichinhos que fizeram da vida uma casa mais habitável.

É abraçar o menino que chamou um macho de Mimi e depois aceitou chamá-lo de Mimo.

É abraçar o adolescente que amou um cachorro difícil.

É abraçar o adulto que recebeu Billy e Cacau junto com as compras.

É abraçar Nina contra o abandono.

É abraçar Dentinho com a tristeza de quem aprendeu tarde.

É abraçar Wassabi sem aquário, devolvida ao mundo.

É abraçar, enfim, a própria memória afetiva.

Porque os melhores abraços não são necessariamente os mais longos, nem os mais perfeitos, nem os mais cinematográficos.

Os melhores abraços são aqueles em que a gente encosta num ser pequeno e sente que a vida, apesar de tudo, ainda sabe ser imensa.

E, neste momento, quando Pudim e Toddynho se deixam abraçar, talvez eles não entendam por que esse gesto parece tão importante.

Mas tudo bem.

Bichinhos não precisam entender a história inteira.

Eles só precisam existir perto o bastante para que a gente se lembre de amar.

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Uma resposta para “Pudim e Toddynho em: os melhores abraços”

  1. […] por exemplo, não é pequena. É arquitetura doméstica. É uma catedral de molho, queijo e memória familiar, erguida em camadas para provar que o afeto, quando não sabe dizer o que sente, aprende a […]

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