Banho quente em dia frio

Entre lasanhas, amores, cafés e cobertores, há um prazer simples que vence todos: o banho quente em dia frio.

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Há quem diga que a vida possui pequenas maravilhas. Discordo apenas do diminutivo. A humanidade, sempre exagerada quando tenta parecer modesta, inventou essa mania de chamar de “pequenas coisas” justamente aquilo que a impede de desistir. Uma lasanha de domingo, por exemplo, não é pequena. É arquitetura doméstica. É uma catedral de molho, queijo e memória familiar, erguida em camadas para provar que o afeto, quando não sabe dizer o que sente, aprende a gratinar. Mas mesmo a lasanha, com toda a sua solenidade vermelha, perde. Perde feio. Porque a lasanha consola o estômago, enquanto o banho quente em dia frio absolve o corpo inteiro.

Também há quem tente invocar o amor, essa instituição lírica e problemática. Sexo com amor, dizem, é uma das maravilhas da existência. Talvez seja. Há ali pele, promessa, respiração dividida, uma tentativa humana de vencer a solidão pela fricção organizada dos afetos. Mas sexo com amor exige enredo. Exige clima, reciprocidade, coragem, banho antes, banho depois e, nos casos mais dramáticos, elaboração psicológica. O banho quente em dia frio não pede biografia. Não exige desempenho. Não cobra coerência emocional. Ele apenas cai sobre nós com uma competência que nenhum amante, por mais dedicado, consegue sustentar sem alguma falha de agenda, ego ou coluna.

Sexo sem amor, por sua vez, entra na disputa com aquela falsa superioridade dos prazeres que se acham livres porque aboliram o discurso. Mas não há liberdade nenhuma em precisar fingir que nada significa. Sexo sem amor também tem suas burocracias: mensagem, deslocamento, preservativo, espelho, coragem, arrependimento possível e a velha pose moderna de quem tenta transformar carência em estilo de vida. O banho quente é mais honesto. Ele não promete eternidade, não simula indiferença, não diz “depois a gente se fala”. Ele simplesmente desce, encontra a nuca, percorre as costas e reorganiza a criatura humana pela via hidráulica.

O café passado na hora também merece respeito. É uma liturgia escura. A água atravessa o pó como quem atravessa um oráculo, e a casa inteira começa a acreditar que ainda existe manhã possível. Mas o café desperta; o banho quente perdoa. O café nos chama para o mundo. O banho quente, mais generoso, permite que negociemos com o mundo antes de aceitá-lo. Há uma diferença brutal entre acordar e consentir em existir.

O cobertor pesado, em noite fria, talvez seja o adversário mais digno. Ele entende a tragédia da temperatura. Ele cobre, protege, amansa. Tem algo de mãe, de toca, de infância e de fuga. Mas o cobertor é uma trincheira. O banho quente é uma vitória. O cobertor nos ensina a suportar o frio escondidos. O banho quente nos ensina a atravessá-lo de pé, nus, vulneráveis, ridículos e triunfantes, enquanto o box começa a suar como se também ele estivesse emocionado com a cena.

E nem venham com a mensagem de quem a gente queria. Sim, é bonito quando o celular acende e, por alguns segundos, o coração vira adolescente. Sim, há um pequeno carnaval neurológico quando aparece o nome certo na tela errada da rotina. Mas a mensagem depende do outro, esse território instável, esse país sem constituição. O banho quente depende, no máximo, da resistência do chuveiro e da misericórdia da companhia de energia. Há uma dignidade imensa nos prazeres que não exigem confirmação de leitura.

No fim, talvez a superioridade do banho quente em dia frio esteja justamente em sua falta de marketing. Ele não precisa ser servido em travessa bonita, não precisa de legenda, não precisa de amor correspondido, não precisa de trilha sonora, não precisa de feriado, não precisa de plateia. Basta o frio. Basta o cansaço. Basta aquele instante em que a água começa a cair e o corpo, antes contraído como uma tese pessimista, vai cedendo, gota por gota, até admitir que ainda há alguma forma de bondade no mundo.

Banho quente em dia frio não é higiene. Higiene é pouco. Banho quente em dia frio é uma experiência filosófica com sabonete. É quando o frio perde o processo, a semana retira a acusação, a alma para de tossir por dentro e a criatura humana, ensaboada, inútil e grandiosa, compreende que talvez as sete maravilhas da vida não estejam nos grandes acontecimentos, mas naquele quadrado de azulejo em que a água cai do alto como se Deus, por alguns minutos, tivesse aprendido hidráulica.


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0Capa da categoria Acervo com a palavra “Acervo” em letras metálicas prateadas, sendo a letra O substituída por uma maçã prateada. Ao fundo, uma biblioteca digital futurista com estantes, documentos, telas e interfaces tecnológicas em tons de prata.
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