O porto seguro e o fim do rótulo

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Uma criança corre pela sala onde não é permitido correr.

Ela já tem fama. Já carrega o apelido silencioso: “o terror”. Antes mesmo de agir, já é interpretada.

Ivana Jauregui propõe algo simples (e radical): intervenção calma, firme, direta.

Sem grito.

Sem humilhação.

Sem espetáculo.

Aponta-se o erro. Mantém-se a regra.

E espera-se.

Espera-se que a criança processe.

Espera-se que ela perceba que o limite não é negociável.

Espera-se que o adulto não perca o eixo.

Depois, quando a criança faz o correto, reconhece-se.

Não como prêmio exagerado.

Mas como construção de nova narrativa.

Porque o ponto não é a corrida.

É o rótulo.

E aqui está a fissura.

Quando uma criança é repetidamente chamada de “desobediente”, ela passa a habitar esse papel. O comportamento vira identidade.

Howard Becker, ao estudar o desvio, mostrou que o rótulo social não apenas descreve um comportamento — ele o consolida. A pessoa passa a agir conforme a expectativa que recai sobre ela.

A criança que “sempre faz errado” aprende que esse é seu lugar na estrutura da turma.

Ivana faz algo interessante: ela intervém no comportamento, mas trabalha na identidade.

Não grita.

Não ironiza.

Não desqualifica.

Mantém o limite — e oferece segurança.

Isso dialoga profundamente com Donald Winnicott, que falava da importância de um ambiente suficientemente bom. A criança precisa encontrar um adulto que suporte sua intensidade sem colapsar. Um adulto que permaneça.

Quando o adulto reage com descontrole, a criança confirma sua crença: “eu sou demais”.

Quando o adulto reage com abandono, ela confirma outra: “eu sou impossível”.

Mas quando o adulto permanece firme e tranquilo, algo novo acontece.

Ela encontra contorno.

Há também eco de Lev Vygotsky aqui. O comportamento não é apenas expressão individual. Ele se reorganiza na interação. O adulto funciona como mediador da autorregulação. Primeiro externo, depois internalizado.

Ao dar tempo para a criança processar, Ivana não está sendo permissiva. Está permitindo que a regulação surja de dentro.

Isso é pedagogicamente sofisticado.

E há um ponto simbólico poderoso: o “porto seguro”.

A criança considerada difícil testa limites porque precisa saber se eles existem. Não por maldade. Por insegurança estrutural.

Limite firme é contorno emocional.

Sem contorno, há ansiedade.

Com excesso de punição, há medo.

Com firmeza acolhedora, há segurança.

O reconhecimento posterior não é mimo. É reconstrução narrativa.

Se a criança só escuta “você sempre faz errado”, ela cristaliza essa identidade. Quando alguém diz “vi que você conseguiu”, cria-se fissura no rótulo.

E rótulos são perigosos porque simplificam sujeitos complexos.

Na escola, isso é decisivo.

Na gestão, também.

No trabalho, igualmente.

Quantos adultos carregam ainda a etiqueta que receberam na infância?

“Bagunceiro.”

“Lento.”

“Problema.”

“Difícil.”

Ivana não está ensinando técnica comportamental apenas. Está propondo um reposicionamento ético do adulto.

O adulto não entra em guerra com a criança.

Ele sustenta a regra e sustenta a relação.

E essa combinação é rara.

Mentes inquietas percebem algo maior aqui: autoridade não é grito.

É estabilidade.

A criança obedece não porque foi intimidada.

Mas porque encontrou alguém que dá conta dela.

E talvez essa seja a definição mais elegante de liderança — na sala, na equipe, na vida:

Ser o adulto que não desaba quando o outro testa.

Porque, no fundo, a criança não quer vencer o adulto.

Ela quer saber se ele está lá.

E quando descobre que está, começa a se organizar por dentro.

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